Por Vera Santana | Domingo, 06 Setembro , 2009, 12:05

Género e poder

 

Lamento que a Manuela Moura Guedes, que foi uma profissional do jornalismo há uns anos atrás, se tenha tornado na esposa_de_um_Director_que_lhe_deu_um_programa. É triste ver uma mulher que se desautonomiza na maturidade. É triste ver jogos de casais quer em grandes empresas que não são "propriamente" empresas familiares - nestas, sim, pode e deve estar uma família inteira e intergeracional que  ama a empresa tantas vezes construída por  várias gerações - quer em instituições com uma vertente de serviço público. Estou a pensar em instituições de ensino, de saúde e outras, e, repito, com uma vertente de serviço público e frequentemente beneficiárias de dinheiros públicos (de subsídios, empréstimos a fundo perdido, etc). Em algumas destas instituições a democracia ficou à porta porque todo/a/s consentem e calam, porque o exercício da democracia seria inconveniente para  interesses institucionais entretanto enviesados, porque - tantas vezes! - os poderes se instalam e reproduzem, qual polvos virando costas ao interesse público que deveriam servir.

 

É sobretudo dentro das organizações de trabalho e de ensino - de muitas - que falta o pleno exercício democrático. Porque os abusos de poder se quedam, mudos, no seio das organizações e por entre os nós dos pequenos e não tão pequenos chefes, tantas vezes com insuficiente formação . Porque as organizações sindicais se preocupam pouco com o exercício efectivo - i.e, ao alcance de todos e de cada um - da democracia interna dentro das organizações laborais. Porque as organizações sindicais deveriam preocupar-se mais com a igualdade de oportunidades (de género e outras) de cada um/a dentro das organizações laborais.

 

Por tudo isto, lamento a imagem dada por uma mulher - Manuela Moura Guedes - que,  na idade madura e por interesses pessoais, materiais e de estatuto social,  se auto-reduziu a esposa_de_um_Director_que_lhe_deu _um_programa.

 

 

Os locus privilegiados dos abusos de poder

 

Na minha opinião, o abuso de poder está menos nas instituições políticas, onde existe controlo por parte da opinião pública, e mais em organizações que escapam  a esse controlo. No caso da TVI, o abuso de poder do casal Moniz/Guedes veio a público "por definição": por se tratar de uma empresa de comunicação de massas, por onde passa a opinião pública; por terem os interesses pessoais do casal Moniz/Guedes deixado - algures no tempo  - de corresponder aos objectivos da organização-empresa.

 


O Filósofo Gil, o não-filósofo Sócrates e um Suave Milagre

 

Finalizo afirmando estar, pelo menos num aspecto, totalmente em desacordo com o filósofo Gil que considera que o autoritarismo do actual Primeiro Ministro se propagou a toda a sociedade. Considero, inversamente, que há ainda muito autoritarismo na sociedade independentemente da "côr do Governo", nomeadamente dentro das organizações; a reprodução social de práticas verifica-se muito para além do que julgaríamos e muito para além das motivações originais  e, sobretudo, ao longo de muitos anos. Não seria possível, nem numa férrea ditadura, impôr novos comportamentos - autoritários - a uma sociedade aberta, democrática, informada, europeia.  Seria mesmo "Um Suave Milagre" algum ser humano conseguir um tal feito em 4,5 anos!  

 

O confronto com formas de autoritarismo está, por um lado, nas mãos e na voz de cada um de nós, no quotidiano, nos locais de trabalho, na rua e nas análises e apreciações que fazemos, para além dos slogans e das palavras de ordem simplificadores das realidades e castradores das mentes e das liberdades e, por outro lado, na prossecução vigilante daquilo que são os serviços públicos.


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