Por Porfírio Silva | Quarta-feira, 22 Julho , 2009, 18:06

"Antigamente" (durante boa parte do século passado) os "partidos de trabalhadores" (socialdemocratas e comunistas) tinham uma "questão sindical". Que era basicamente esta: como é que organizamos os nossos militantes e simpatizantes dentro do movimento sindical para que as lutas deles (trabalhadores) sejam apropriadamente iluminadas pela nossa clarividência ideológica.

Mais tarde, a questão sindical passou um pouco de moda por suspeita de falta de higiene nessa ligação estrutural. E começou, nomeadamente no movimento sindical europeu, a procura por um sindicalismo de vistas largas: nem ficar apenas pelos interesses imediatos dos sindicalizados, nem ficar prisioneiro das solidariedades político-partidárias. A "questão sindical" entrava, assim, em muitos casos, no turbilhão dos novos movimentos sociais, com novos temas, métodos e aliados.

Essa nova abordagem trouxe muitas desilusões, criando espaço para que o velho se vingasse do novo. É nessa onda que há outra vez, por exemplo em Portugal, dirigentes sindicais que voltam a sentir-se à vontade para anunciar com algum descaramento objectivos estritamente político-partidários, como retirar a maioria absoluta a quem a tenha... como se não soubessem quem a tem (caso Mário Nogueira). É também nessa onda que dirigentes partidários (tipo BE) puxam as orelhas a dirigentes sindicais que ousam sentar-se à mesa com ministros que se interessaram pelo emprego dos respectivos representados. Verdadeiros regressos ao passado na "questão sindical".

Ora, a questão sindical continua de vital importância para uma governação de esquerda. Precisamos de um sempre renovado diálogo social. Uma marca do futuro que precisamos é uma representação dos trabalhadores mais interveniente, mais atempadamente informada e ouvida, mais presente apesar da ignorância e medo de muitos patrões. Pelo que  precisamos de sindicatos capazes de propor, negociar, compreender o alcance e os limites do seu papel. Sindicatos e outras organizações representativas dos trabalhadores que vejam mais longe do que o dia de amanhã e vejam mais perto do que os amanhãs que cantam.

Ora, isso não será possível com um governo dos partidos onde os ultra-liberais se escondem atrás da cortina à espera do momento de aplicarem as suas receitas. O tipo de avanço civilizacional representado pelo reforço da democracia na empresa só será possível com a esquerda que ousa governar.


marques a 22 de Julho de 2009 às 18:57
A gente em Setembro vai acertar essas contas todas.

JTeles a 22 de Julho de 2009 às 18:58
"sindicatos capazes de propor, negociar, compreender o alcance e os limites do seu papel" - Deve estar a falar dos sindicatos de professores, como se viu ao longo de toda a legislatura. Ou será do sindicato dos juízes? Não, é do sindicato dos magistrados do Ministério Público, todo o poder aos sovietes!

weber a 23 de Julho de 2009 às 01:10
Caro Porfírio,
Hoje não há,em meu entender, contrariamente ao que suscita, utilizando quadros do século XIX e XX, uma "questão sindical".
O que há (há tempos o António Chora coordenador da CT da Autoeuropa colocou bem a questão...num artigo de opinião) é uma deslocação dos modos, dos objectivos e até dos sectores onde se manifesta e articula o "sindicalismo".
Observe o sindicalismo espanhol (já não falo dos da Europa do Norte) e veja qual a actividade centra delesl: formação profissional, actividades empresariais, turismo e assistência social, assegurar os postos de trabalho e contribuir para a saúde da economia.
Investigue a CGTP e a UGT portuguesas.
Qual a principal actividade?: formação profissional.
Você sabe-o bem, a Escola Bento de Jesus Caraça da CGTP é a mais importante Escola Profissional do país.
O que temos, também, em Portugal são profundas aberrações SINDICAIS: Sindicato da PSP, da GNR, Associações a "roçar" o Sindicalismo de Sargentos, Praças e etc, Sindicato dos Juizes, dos Magistrados do Ministério Públicos, dos Funcionários Judiciais e etc.
Veja outra situação: quantos aderentes na CGTP? quantos adrentes na UGT? Deste ponto de vista estão quase exauridos.
Os Sindicatos dos Professores: quantos aderentes? Seria interessante sabermos o número.
A questão sindical que suscita, assenta, em meu entender, no fenómeno exclusivo e larvar que ocupou (por erros do Ministèrio da Educação, que fez um belo trabalho no sector, mas geriu mal a conflitualidade necessária com os sindicatos e, sobretudo, depois do PCP ter afastado o Paulo Sucena da coordenação da FENPROF) a "luta" dos professores.
Repare quem durante anos a fio era a Frente Comum dos Sindicatos da Função Pública quie dominava o espaço público, a conflitualidade vital ao PCP e a agenda sindical em Portugal. Há quantos anos você deixou de ouvir falar nesta gente?!...
O tópico que suscita é interesante, mas é bem mais complexo do que, provavelmente, o seu curto post não tinha a intenção de alcançar.
José Albergaria

Luis Trindade a 23 de Julho de 2009 às 10:01
O corporativismo, portanto...

josé Vladimiro a 31 de Julho de 2009 às 22:33
Deve estar a pensar na UGT!

A UGT que traiu os funcionários públicos, com a famosa LEI 12/A e o SIADAP;

A UGT que aprovou um Código do Trabalho ainda mais gravoso que o do Bagão Félix!

A UGT, cujo Secretário-Geral, macónico nunca desmentido, faz parte da direcção nacional do PS!

É este o sindicalismo independente e moderno do joão proença, da UGT, do Sintap?

Sindicato que senta a mesa do governo e dos patrões e assina tudo?

Porfírio Silva a 1 de Agosto de 2009 às 00:11
O sindicalismo, bem como outras formas de representação dos trabalhadores, não está nos seus melhores dias. Quer-me parecer que também é esse o caso com a UGT. Mas não só. Há por aí muitos exemplos quer de fraqueza grave da representação dos trabalhadores, quer de miopia da mesma. O que é pena, por uma razão muito simples: isto não melhora sem os trabalhadores organizados, com mais força, mais ginástica negocial e mais visão: não ceder nada do que é essencial, ser capaz de contribuir para novas soluções. Mas não é a tentar encontrar culpados únicos e exclusivos que se fará o que é preciso. A meu ver, claro.

Vera Santana a 4 de Agosto de 2009 às 17:17
Precisamos de organizações de defesa dos direitos de quem trabalha capazes de desenhar objectivos no mínimo europeus, capazes de dialogar com os representantes dos empresários neste mundo de economia globalizada.

Precisamos que as organizações de defesa dos direitos de quem trabalha integrem nas suas agendas sindicais os direitos de quem trabalha com vínculos precários.

Precisamos que as organizações de defesa dos direitos de quem trabalha integrem nas suas agendas sindicais as agendas feministas (eu sei que a palavra causa aversões). Se o número de sindicalizados se tem mantido estável, em certos sectores, em Portugal, tal facto deve-se à sindicalização feminina. No entanto, as agendas sindicais continuam a ter em conta os direitos do trabalhador-homem , como se estívessemos no século XIX.

Porfírio Silva a 4 de Agosto de 2009 às 20:59
Vera, completamente de acordo. Precisamos de muito mais presença da representação dos trabalhadores. E precisamos que essa representação seja muito mais adequada aos tempos que correm. E isso passa por renovar os métodos e as agendas. Dos sindicatos. E dos partidos de esquerda.

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