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SIMplex

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07
Ago09

A esquerda do bloco (1)

João Galamba

A interpretação da crise actual avançada pelo Bloco ajuda-nos a perceber uma coisa fundamental sobre aquilo que é a sua esquerda. Para o Bloco, o significado desta crise é evidente: estamos perante a falência do neoliberalismo e, consequentemente, uma vitória da esquerda. Posto assim, parece verdadeiro; mas trata-se de uma verdade parcial. Dizer que o neoliberalismo faliu é apenas uma negação, não determina nem afirma nada.

 

Para o Bloco, esta crise demonstrou, na prática, aquilo que já todos sabiam em teoria: o neoliberalismo foi um erro, um nada, um desvio, uma anormalidade — e algo com o qual a sua ideologia nada tem a aprender. A ideia que esta crise nos ensina apenas uma coisa coloca a esquerda do Bloco fora da história, como se esta demonstrasse apenas a ascensão e queda do neoliberalismo — o que é obviamente falso. Se a crise iniciada em 2008 nos ensina muita coisa, é preciso não esquecer que 1989 também existiu. A esquerda não pode apenas deleitar-se com o falhanço do neoliberaliismo; também tem de ser capaz de reconhecer e aprender com a sua própria história — história, essa, que está muito longe de ser imaculada.

 

Mas o Bloco pensa e age como se estivesse absolutamente certo da sua pureza. Por isso, a sua auto-afirmação exige simultaneamente uma diabolização absoluta do outro e uma visão angelical da sua própria inocência. Como disse Francisco Louçã, a política não é feita de compromissos. Daí o seu programa eleitoral descrever uma realidade sinistra criada pelas "políticas de direita" e pelo PS, partido que o Bloco considera estar na vanguarda do projecto neoliberal. O inferno são necessariamente apenas os outros. É por isso que o Bloco é necessariamente conspirativo e moralista: os problemas não são verdadeiros problemas; são defeitos, negociatas, roubos feitos por outros que não o Bloco. Os nossos problemas têm apenas uma causa: o facto do Bloco nunca ter sido poder, esquecendo, convenientemente, que quando esquerdas parecidas com o Bloco tiveram o poder a coisa não correu bem. Mas nada disto interessa quando a história acabou de nos mostrar que o neoliberalismo falhou. Pensa o bloco — mas pensa mal....

 

(continua daqui a umas horas para a semana)

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