Por João Galamba | Sexta-feira, 07 Agosto , 2009, 19:26

A interpretação da crise actual avançada pelo Bloco ajuda-nos a perceber uma coisa fundamental sobre aquilo que é a sua esquerda. Para o Bloco, o significado desta crise é evidente: estamos perante a falência do neoliberalismo e, consequentemente, uma vitória da esquerda. Posto assim, parece verdadeiro; mas trata-se de uma verdade parcial. Dizer que o neoliberalismo faliu é apenas uma negação, não determina nem afirma nada.

 

Para o Bloco, esta crise demonstrou, na prática, aquilo que já todos sabiam em teoria: o neoliberalismo foi um erro, um nada, um desvio, uma anormalidade — e algo com o qual a sua ideologia nada tem a aprender. A ideia que esta crise nos ensina apenas uma coisa coloca a esquerda do Bloco fora da história, como se esta demonstrasse apenas a ascensão e queda do neoliberalismo — o que é obviamente falso. Se a crise iniciada em 2008 nos ensina muita coisa, é preciso não esquecer que 1989 também existiu. A esquerda não pode apenas deleitar-se com o falhanço do neoliberaliismo; também tem de ser capaz de reconhecer e aprender com a sua própria história — história, essa, que está muito longe de ser imaculada.

 

Mas o Bloco pensa e age como se estivesse absolutamente certo da sua pureza. Por isso, a sua auto-afirmação exige simultaneamente uma diabolização absoluta do outro e uma visão angelical da sua própria inocência. Como disse Francisco Louçã, a política não é feita de compromissos. Daí o seu programa eleitoral descrever uma realidade sinistra criada pelas "políticas de direita" e pelo PS, partido que o Bloco considera estar na vanguarda do projecto neoliberal. O inferno são necessariamente apenas os outros. É por isso que o Bloco é necessariamente conspirativo e moralista: os problemas não são verdadeiros problemas; são defeitos, negociatas, roubos feitos por outros que não o Bloco. Os nossos problemas têm apenas uma causa: o facto do Bloco nunca ter sido poder, esquecendo, convenientemente, que quando esquerdas parecidas com o Bloco tiveram o poder a coisa não correu bem. Mas nada disto interessa quando a história acabou de nos mostrar que o neoliberalismo falhou. Pensa o bloco — mas pensa mal....

 

(continua daqui a umas horas para a semana)

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Anónimo a 7 de Agosto de 2009 às 21:27
Mas o Bloco pensa e age como se estivesse absolutamente certo da sua pureza. Por isso, a sua auto-afirmação exige simultaneamente uma diabolização absoluta do outro

Esta frase é particularmente curiosa, tendo em conta a forma como se tem referido ao BE ultimamente e, em particular, desde a altura em que decidiu desligar o cérebro e entrar em 'modo Augusto Santos Silva' (o que é uma verdadeira pena para quem se lembra do que escrevia no 5 dias e na fase inicial do jugular.

Tentar sugerir lições que o BE deveria tirar de 1989 é desonesto, e você sabe-o, visto que está perfeitamente ciente que o BE não é o PCP. Aliás, não me recordo de evr o BE a apoiar regimes ditatoriais, fossem eles de (pretensa) inspiração esquerdista ou não. No entanto, lembro-me bem de ver o seu PS, há bem pouco tempo e acompanhado da CDU, PSD e PP, a lamberem as botas do Eduardo dos Santos.

E o parágrafo final, desculpe, é igualmente absurdo (e desonesto). Você tenta torcer a realidade através de um reducionismo atroz, como se o BE nunca tivesse reconhecido que há problemas no país; como se o Louçã não tivesse dito, depois do encontro com bloggers, que era importante sujeitar o programa do BE a debate e escrutínio.

Justiniano a 8 de Agosto de 2009 às 11:50
Mas que neoliberalismo e que falencia é que está a falar?
Estará, por acaso, a referir-se à receita económica que, nos últimos 30 anos, representou o período na história da humanidade em que mais riqueza se produziu e se distribuiu, em que mais gente, em todo o mundo, saiu de ciclos de pobreza e onde mais elevados níveis de prosperidade se verificaram.
Galamba. Não convém cair nas patranhas do bloco, enunciar a negação da negação e fixar-se no mesmo argumento mas com um prisma diferente é nada.
Mais à frente há-de revisitar a desditosa receita.
Que lhes dirá o Galamba (a uns e outros - aos que a negam e aos que a enunciam) ?
Já agora a última parte do post deixa alguma abertura (ou contraditório) em relação à concordancia inicial.

Termino com a questão.
Mas faliu ou não faliu o tal "neoliberalismo" (refiro-me aos instrumentos jurídico-económicos que compoem a super estrutura da nossa ordem jurídica e economia...os mesmos que instituiram o tal "neoliberalismo" que não será uma qustão de pormenor).

livrecomoovento a 8 de Agosto de 2009 às 17:29
O que a história nos diz, caro senhor, é que esquerdas(?) como o PS, quando praticaram políticas de direita, desapareceram do mapa, como em Itália.
Não me consta que o BE esteja a copiar seja o quer for de outras experiências e, sim, tem um projecto para Portugal, que é europeu, ao contrário do que tenta fazer transparecer.
Quanto ao estar no poder para poder provar o que defende, aguardemos...
Mas, certamente não será com alianças à direita, com trapaças ou jogos de grupos de interesse.

josé Vladimiro a 12 de Agosto de 2009 às 19:14
Ninguém pode negar que o PS descaraterizou-se - em especial com José Sócrates, o grande empecilho para um entendimento à esquerda, porque o homem não tem um mínimo de credibilidade! E só os socialista é que fingem acreditar que ele é de esquerda!
Que o PS é neoliberal com complexos de esquerda isso também já o sabemos - não é só BE que vê isso!
Não bata mais no ceguinho!

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