Por Palmira F. Silva | Quinta-feira, 06 Agosto , 2009, 23:47

As estimativas da evolução das necessidades energéticas globais e da fatia assegurada pelos combustíveis fósseis mais conservadoras deveriam ser suficientes para que todos percebessemos que as energias renováveis serão as próximas indústrias globais, ultrapassando muito provavelmente as tecnologias da informação daqui a alguns (poucos) anos. Ou seja, se não existem ainda respostas absolutas sobre o que será o novo paradigma energético, há a certeza que o actual, assente nos combustíveis fósseis, não chega para as encomendas.

 

Por todas estas razões e mais aquelas que o Gonçalo aponta, os países que mais investirem agora em fontes energéticas alternativas beneficiarão de uma vantagem estratégica no futuro próximo, facto a que os nossos dirigentes políticos deveriam estar muito sensíveis (e não há uma linha sobre energia nas políticas de «Verdade»...)

 

Mas se não esperava que o factor económico fosse apelativo para os nossos ambientalistas, devo confessar que fiquei surpreendida com as considerações ambientais debitadas ao Público por Joanaz de Melo, autor de um estudo muito crítico do projecto que pretende aumentar a nossa produção hídrica de  energia com a construção de 12 novas barragens. Ou antes, a surpresa não foi total, porque há uns tempos moderei um debate no Técnico sobre energia nuclear em que o presidente da Geota foi um dos intervenientes e percebi que, para além da nuclear,  se opõe a toda e qualquer expansão da capacidade de produção de energia e advoga, exclusivamente, uma utilização mais eficiente dos recursos energéticos que já temos.

 

Mas achei no mínimo bizarro o título escolhido para a prosa, «Barragens e nova ponte sobre o Tejo obrigam o país a consumir mais energia».  Não me pronuncio sobre a ponte, que o Geota reconhece ter «méritos claros»  na componente ferroviária, mas deixa-me perplexa que se desdenhe como ambientalmente irrelevantes as novas barragens, que correspondem a cerca de 20% da nossa potência termoeléctrica instalada. E que se considere, supostamente apoiado em contas, que produzir mais energia hidroeléctrica vai «obrigar» o país a consumir mais energia e não que irá fazer baixar a nossa dependência de combustíveis fósseis importados.  De facto, os últimos dados disponíveis, referentes a 2007, indicam que Portugal importa mais de 80% da energia que consome, em particular fontes primárias de energia como o petróleo, carvão ou o gás natural que alimentam as centrais termoeléctricas.

 

Concordo que, a muito curto prazo, é necessária uma alteração dos nossos hábitos de consumo de energia, em particular a nível dos transportes, que consomem 36.5% dos nossos recursos energéticos. Suponho que não o sensibilize que a outra grande parcela, cerca de 30%, seja devida à mesma indústria nacional que poucos têm dúvidas ser necessário revitalizar. Mas, em particular se não nos restringirmos ao nosso cantinho ou mesmo aos países ditos desenvolvidos e pensarmos globalmente, aumentar a eficiência energética é claramente insuficiente e insustentável em termos ambientais.

 

De facto, «Pensar globalmente, agir localmente» é especialmente apropriado às questões ambientais. Porque, por muito que reduzamos, nós, os chamados países da economia  ocidental, a factura energética, não há quaisquer dúvidas de que o consumo de energia vai crescer, e muito, noutras economias. E com ele os problemas ambientais que nos afectam a todos se não diversificarmos as fontes de energia e oferecermos a essas economias alternativas que possam suportar.

 

Aliás, no mesmo dia do debate que moderei, a EIA divulgou as suas previsões da evolução do consumo mundial de energia, que indica, até 2030, um aumento de 44%, sendo a grande fatia deste aumento, cerca de 2/3,  assegurada pelos países em desenvolvimento. Assim, não faz muito sentido falar em simultâneo em energia e ambiente e pensar apenas em termos locais. Pensar global em energia significa também acautelar recursos para as economias emergentes e, especialmente,  para o 3º mundo, em que se espera que a população melhore as condições de vida - o que é indissociável de um aumento do consumo de energia.

 

Infelizmente, as formas de energia mais baratas e acessíveis nestes países são as mais caras em termos de poluição - e as mais devastadoras em termos ambientais. Construir uma barragem, mesmo nos países em que isso é possível, é, para além de caro, um investimento a médio prazo. O gás natural e os derivados de petróleo não serão utilizados se os seus preços forem proibitivos. Mas é muito rápido, mais fácil e mais barato queimar o carvão que abunda por todo o planeta. A China e a Índia, por exemplo, têm extensas reservas deste combustível muito poluente, cuja queima e extracção intensiva atirará para a atmosfera enormes quantidades de poeiras, dióxido de enxofre e óxidos de azoto

 

Este estudo da Geota, que parece ignorar nas suas recomendações que há no Mundo muitos que não podem aumentar a eficiência do que não têm, recordou-me aquele que é considerado o primeiro tratado ambientalista da História, o Fumifugium de John Evelyn.  Tentando resolver a poluição londrina causada pela queima do carvão dos pobres, o seacole  «Which doth our Lungs and Spiritts choake» - cuja utilização se tentava banir desde o decreto de 1306 de Eduardo I -, Evelyn  recomendava que se queimasse em alternativa madeiras aromáticas e rosas.  Mas fico na dúvida qual é mais irrealista ...

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