Por Hugo Mendes | Quarta-feira, 22 Julho , 2009, 11:04

 Talvez o segredo mais bem guardado de uma eficaz política democrática seja a capacidade de fazer ou segurar alianças entre classes. A esquerda para-revolucionária desdenha a ideia de aliança transclassista porque saliva com a “luta de classes” dos bons contra os maus; a direita diz que as “classes” fazem parte do universo ficcional da sociologia de pacotilha. A esquerda democrática sabe, porém, que precisa da cooperação organizada e da mobilização colectiva dos “grandes números”.
Não serve, claro, qualquer aliança; por exemplo, a aliança entre as classes médias e as elites contra o Estado social, assente na exploração do ressentimento dos que de menos recursos dispõem e na protecção assimétrica dos benefícios dos mais ricos. A esquerda democrática necessita antes de uma aliança sólida entre as classes trabalhadoras e a classes médias, e para tal, precisa de lhes fazer crer que pertencem à mesma sociedade. É para isso que servem – entre outras coisas - serviços públicos tendencialmente universais que sejam capazes de responder às necessidades dos cidadãos-clientes com qualidade e universalismo. Precisa também de garantir às classes médias alguma estabilidade e segurança para evitar que, uma vez atacadas pelo medo de entrarem em trajectórias descendentes, se sintam ameaçadas pela concorrência dos mais pobres, e façam a tal aliança com as elites contra o Estado social. E precisa ainda garantir, para além de níveis de bem-estar objectivo decentes para os mais pobres, oportunidades relativamente constantes para que possam ter um emprego melhor, para adquirir uma casa, para “subir na vida” e “juntar-se às classes médias”. A única força política capaz de pensar e concretizar esta aliança de bem-estar que responda às preocupações e expectativas da grande maioria da sociedade é o Partido Socialista.


Falar de “alianças de classe” significa, claro, falar sempre em sentido figurado. Mas pode haver alianças – concretizadas em acordos explícitos - entre os representantes de interesses colectivos, mobilizando os respectivos grupos para projectos comuns que tragam vantagens a todos, e não sejam jogos de soma nula. Esta capacidade colectiva para cooperar, para fazer compromissos e para os cumprir, para congregar grupos e movimentos amplos em torno de projectos colectivos é um recurso muito mais precioso e escasso do que possamos imaginar – aquilo que hoje chamamos “capital social”.
Ora: pensar estrategicamente; institucionalizar e usar eficazmente a concertação social; saber quando o Estado deve “fazer”, quando deve “regular”, e quando deve “incentivar”; mobilizar diferentes parceiros para concretizar políticas públicas de acordo com os princípios de uma estratégia de esquerda assente no eixo inovação–protecção (no qual parte dos ganhos que resultam do que mais de inovador se faz no país reverte para os mais vulneráveis e que mais atenção e investimento necessitam) - em Portugal, este projecto tem só tem verdadeiramente uma força política capaz de o defender e concretizar: o Partido Socialista.
Entregar a governação do país ao PSD não apenas seria negativo em si; implicaria sobretudo introduzir um corte no trabalho iniciado em 2005 sob a liderança de José Sócrates (e que em várias áreas prolonga parte do iniciado em 1995). Uma vez que a “política da varinha mágica” não existe – ainda que ouvindo boa parte da oposição temo que ainda exista quem nela acredite, a par, por exemplo, do Pai Natal -, as políticas precisam de continuidade para amadurecer e produzir resultados sólidos e sustentáveis. Votar no Partido Socialista é a garantia de que esse caminho não sofrerá um desvio – mais um – que o país pode pagar muito caro.
 

Stran a 22 de Julho de 2009 às 23:07
Oi Hugo,

Gostei muito da parte teorica e estratégica do artigo, no entanto julgo que essa colagem ao Partido Socialista um pouco forçada, senão vejamos:

1) Um dos primeiros pontos referidos são as questões das alianças, mas julgo que este foi um ponto fraco destes ultimos 4 anos. Julgo que o melhor exemplo é o caso da Educação que acompanhei de perto. Não só a reforma, a meu ver, foi uma má reforma como foi conduzida através de um conjunto de acções que visaram antagonizar elementos dentro dos professores. Mais problemático foi quando tentaram implementar as medidas mais duras e acabaram por antagonizar todos os professores. A solução passou então por denegrir a imagem dos professores perante a sociedade, ou seja o comportamento oposto àquele que é defendido no teu artigo.

E se repararmos ele utilizou um pouco essa estratégia de dividir para conquistar. A minha duvida é: o que nos garante que tal não volta a acontecer?

2) Partido "solução-unica": neste ponto a minha duvida é se vale a pena seguir uma estratégia deste tipo (e já agora que conceptualmente vai contra o ponto anterior)? Bem sei ver a realidade, que é pessima para o país. Nós precisamos de partidos fortes e a fraqueza dos outros partidos acaba por ser uma fraqueza do próprio Partido Socialista como vimos nos ultimos 4 anos (uma inexistência de oposição foi a meu ver um dos motivos reais do abaixamento de performance do PS). Que o PSD não é alternativa, julgo que é obvio para todos, assim como que o BE ainda não e alternativa. Falta-nos uma alternativa real que espero que aconteça nos próximos 4 anos...

Finalmente gostaria de coloccar uma questão em aberto para todos deste blogue:

- depois de o PS ter desperdiçado uma oportunidade unica no inicio do mandato (falo da oportunidade derivada da predisposição dos portugueses para se sacrificar uma ultima vez) para levar a cabo as reformas, como é que é possível acreditar que desta vez o PS conseguirá implementar essas reformas?


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