Por Palmira F. Silva | Terça-feira, 04 Agosto , 2009, 14:57

Nos comentários ao post «In Rasgo Veritas», quer no SIMplex quer na jugular, tive oportunidade de reviver o passado e apreciar argumentos análogos aos que ouvi há mais de 15 anos quando tentava explicar aos nossos empresários por que deviam apostar na integração de mão de obra altamente qualificada nos quadros das suas empresas. Que teriam de pagar muito mais a um doutor ou mestre e isso retiraria emprego aos mais necessitados, que esses doutores poderiam saber muito teorica e tecnicamente mas o que interessava era a prática e para isso servia qualquer engenheiro técnico, sem os «vícios» (?)  da Universidade e com a subserviência aos seus superiores que um doutor nunca  teria. Por outro lado, argumentavam, quem nos garante que vamos ter retorno do investimento nesses doutores e mestres? A sua contratação seria um risco que as empresas não podiam, responsavelmente, assumir.

 

Essas conversas, infrutíferas, com empresários, aconteceram por iniciativa da  Associação de Estudantes Graduados do Técnico, constituída quasi exclusivamente por assistentes como eu - praticamente não existiam os bolseiros que hoje enchem as nossas universidades e as únicas pós-graduações de universo alargado eram os famosos MBAs, os mestrados em business e administração. Mas acreditávamos que, a médio ou longo prazo, os alunos de doutoramento, tal como acontecia nos países mais desenvolvidos,  viriam a constituir a maioria se não mesmo a totalidade dos alunos da nossa escola de pós-graduação (e hoje em dia temos cerca de 1000 bolseiros de doutoramento e muito poucos assistentes).  Esta previsão começou a concretizar-se mais cedo do que pensáramos ser possível, graças aos bons ofícios de  Mariano Gago à frente do recém criado ministério da Ciência e da Tecnologia e aos programas que tiraram Portugal do marasmo científico para que os anos de ditadura nos tinham empurrado.

 

Mas continua por concretizar a integração efectiva de mestres e doutores no tecido produtivo, algo que pensávamos ( e continuamos a pensar) ser condição sine qua non para nos tirar doutro marasmo, aqueloutro na base dos problemas estruturais da nossa economia que muitos carpem sem apresentarem soluções. Ou antes, modernissimamente,  pensam que é q.b. abanar com pessimismo a cabeça e esgrimir esses Problemas Estruturais para argumentar que é contraproducente tentar resolvê-los da forma gradual e consequente, apostando na formação qualificada  dos portugueses e investindo em empresas inovadoras (algumas de alto risco), por exemplo através do QREN

 

E assim temos assistido ao êxodo de «cérebros» que volta e meia é tema  na comunicação social e merece mais abanões  pessimistas de cabeças por parte de alguns fazedores de opinião mais à direita no espectro político, que apontam esta fuga como a prova provadinha de que é um desperdício do dinheiro dos contribuintes - que tira pão da boca dos pobrezinhos - apostar em qualificação avançada. E a reforma que urge para o nosso tecido produtivo tarda em efectivar-se. 

 

E o que há a fazer, por parte do Estado, é continuar as políticas de qualificação da mão de obra, investimento em ciência e em inovação em que apostou fortemente este governo, com alguns erros, é certo, que importa corrigir e disso dá indícios o programa do PS. Mas importa sobretudo que essa reforma permeie mentalidades e que deixemos de uma vez por todas, como sociedade, como Portugal que somos todos nós, de objecções à Velho do Restelo, de queixumes «No, we can't». Porque sem fazer nada de facto não vamos lá!


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