Por Porfírio Silva | Segunda-feira, 03 Agosto , 2009, 16:25

Um certo número de intervenientes no debate público tem-nos proporcionado uma deliciosa flor de estilo, consistente em opor as estatísticas (frias e inertes, supõem) ao calor da sensação imediata (o verdadeiro saber, pretendem). Exemplo: “ A escola está melhor nas estatísticas, mas nós vemos que as escolas estão pior, porque o sentimos, basta visitá-las.” Em geral, o que lhes custa a aceitar é as estatísticas serem evidência de quanto este governo do PS fez avançar o país.

O capitão daquela frota de argumentos sensacionistas é a acusação de que “o governo trabalha para as estatísticas, mas as pessoas não são números”. Não vale a pena tentar explicar a quem assim opina que as estatísticas e os indicadores são o fruto possível de muito trabalho (internacional, as mais das vezes) para ver mais longe e permitir fazer melhor. Mas eles não, eles querem é as sensações do que está à frente dos seus próprios olhos. Sem números pelo meio.

Bastaria dizer-lhes que, pela bitola que usam, a Terra ainda é o centro do universo e o Sol gira à nossa volta. Não é isso que, cada dia, os nossos olhos vêem claramente?

[outra versão aqui]

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Vera Santana a 3 de Agosto de 2009 às 17:13
Porfírio,

Tem razão. Os números falam. Mas é preciso saber pô-los a falar, i.e., é necessário saber o que está por detrás dos números: as categorizações, os conceitos, os procedimentos. E mais atrás ainda: é preciso conhecer os objectivos de quem "encomendou" os números.

É uma longa história nas Ciências (Sociais e outras).

Tem também razão quando critica o sensacionismo. Este é fruto de um "zeitgeist" que procura o imediato, que se deleita com os sentimentos comprados, que engole livros de auto-ajuda e de inteligência emocional, que faz zapping para ter prazer "já".

Mas não podemos destruir as análises que se não baseiem em números; há várias metodologias para o trabalho científico.

E não devemos ignorar o que as pessoas sentem. Devemos, sim, saber decifrar o sentir das pessoas. Encontrar as causas por detrás das razões (apresentadas estas pelas pessoas).

Concorda?

Saudações,

Vera


Porfírio Silva a 3 de Agosto de 2009 às 17:23
Vera,

Que 100 flores floresçam, como diziam os outros. Mas viver em sociedade não é obra do acaso, nem da espontaneidade. Pelo menos quando há civilização. E os apelos "sensacionistas" são apelos radicalmente anti-política: contra o pensar em conjunto, contra o agir com horizonte. Por isso, os "argumentos do geocentrismo" são fundamentalmente anti-democracia. Porque "sensação" e "razão" só se fundem instantaneamente na mente de um deus. Ou de um ditador. E qualquer um desses agentes são desgraças quando se metem na coisa pública cá do burgo.

Vera Santana a 3 de Agosto de 2009 às 22:02
Porfírio,

"Por amor, deixei de pintar". Era a razão apontada por Sarah Affonso ao ter abandonado a pintura para apoiar a carreira do Almada.

A(s) causa(s) do abandono da pintura podem ser encontradas no modelo de sociedade que atribui papéis diferenciados de acordo com o sexo.

É este o significado que atribui à palavra razão no último parágrafo do meu comentário.

Saudações
Ver

tric a 3 de Agosto de 2009 às 17:19
crescimento do emprego em relação ao ano anterior

Portugal | EU-12
2005 | -0,3% | +1,0%
2006 | +0,5% | + 1,6%
2007 | 0,0% | + 1,8%
2008 | +0,4% | +0,7%


http://epp.eurostat.ec.europa.eu/tgm/table.do?tab=table&init=1&plugin=1&language=en&pcode=tsieb050

Porfírio Silva a 3 de Agosto de 2009 às 17:29
A Vera tem razão: é preciso saber ler as estatísticas:

http://simplex.blogs.sapo.pt/19226.html

http://simplex.blogs.sapo.pt/20737.html

tric a 3 de Agosto de 2009 às 17:49
ler estatisticas é trivial!

erros de analises estatisticas

- falta de enquadramento politico/social
- erros nos dados ( veja-se o caso dos incêndios, em que a GNR coloca em causa os dados considerados para a estatitistica)
- manipulação dos dados-I( Educação- facilidade nos exames)
- manipulação dos dados II ( emprego- considerar empregado pessoas que estão a tirar cursos em que recebem)
-manipulação dos dadosIII( nas ultimas eleições europeias estavam inscritas muito mais pessoas do que aquelas que deveriam estar nos cadernos eleitorais, o que levou a uma analise errada da abstenção em Portugal)


Porfírio Silva a 3 de Agosto de 2009 às 18:08
Ler estatísticas não é nada trivial.

Como mostra (por exemplo) a coluna do Daniel Bessa no Expresso (Economia) de sábado passado, é preciso compreender a dinâmica. "Dinâmica" no sentido estrito: numa fotografia, um berlinde pode parecer parado a meio da parede de um copo - mas quem compreenda a dinâmica desse pequeno sistema físico sabe que, em certas condições, o berlinde não pode estar parado. (http://maquinaespeculativa.blogspot.com/2009/08/cuidar-dos-vivos.html)

O mau uso das estatísticas é tão iletrado como a recusa das estatísticas. Por isso pode haver debate com estatísticas e à volta das estatísticas. Mas, ao nível a que desceram certos "debatentes" políticos, é preciso explicar até esta coisa simples de que a crítica sensacionista às estatísticas é tola. Aquele exemplo sobre a escola foi produzido, por exemplo, por um catedrático da Universidade de Lisboa que, além de outras coisas, é conselheiro de Barroso, o inefável presidente da Comissão Europeia.


tric a 3 de Agosto de 2009 às 18:31
"(...)é preciso explicar até esta coisa simples de que a crítica sensacionista às estatísticas é tola."

quer ver uma analise errada que se faz com a estatistica e que deve ser obviamente criticada, é a analise ao defice

como é que se pode fazer uma analise comparativa sobre o defice, quando em 2005( acho eu ) o BP utilizou novos criterios para achar esse valor, que não foram utilizadas nos anos anteriores! fazer essas comparações é pura aldrabice!!





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