Por Hugo Costa | Domingo, 02 Agosto , 2009, 02:00

 

 


Stran a 3 de Agosto de 2009 às 11:35
Meu caro Joaquim,

Tenho de dizer que tem algumas frases que espelham um pouco a emotividade e pouca racionalidade com que se debate estes temas (o que não é necessariamente mau).

Comecemos pelo fim:

"Nas questões em que não há consenso..."
Existem questões em que nunca vão existir consensos, esta é uma dela. Mas eu sou contrário à visão consensual da sociedade. Ela leva à normalização que apaga a individualidade e liberdade de uma pessoa. Eu não quero neste debate mudar a sua opinião, pois trata-se da sua visão do mundo e não é superior ou inferior a nenhuma outra. O que está em causa é a imposição de uma posição sobre a outra. Com esta lei o que acontece é que quem tem uma visão faz uma IVG enquanto quem tem outra visão (como a sua) não a faz.

"...e em que estão em jogo vidas humanas..."

Não estamos a falar de vidas humanas. Mas responda-me a uma coisa: qual é mais importante a vida do feto ou da mãe?

"impõe-se o princípio da precaução"

É por isso que o limite não é de 26 semanas.

Agora avancemos para o inicio:

"A gravidez é uma das consequências possíveis da relação sexual. Outra é a transmissão de doenças sexualmente transmissíveis."

Julgava que quem era a favor de não criminalização de IVG é que era apelidado de desumano. Não sei se sabe mas gravidez não é uma doença!

"Ter relações sexuais é uma opção consciente e deliberada."

Eu não sei para si, mas ter relações sexuais não é uma coisa mecanica. Se bem que concordo em abstrato com esta visão ela não deve ser vista como algo que seja só isso, envolve muitas mais emoções que uma simples "opção consciente e deliberada" não engloba.

"O Stran pode não querer criar uma criança que gerou mas tem responsabilidades para com essa criança"

É interessante como se passa de embrião, para feto, para criança. E aqui tem toda a razão, para com a criança sim. Mas não é de crianças que estamos a falar pois não?

"Se se fôr minimamente responsável (o que se exige a todos os adultos), a possibilidade de gravidez é ínfima, com os meios actualmente disponíveis."

Dois pontos:

a) e se não for adulto?

b) "infima" não significa impossível. Para mim é bastante simples (dentro da simplicidade que se pode ter): enquanto não inventarem um botão "on-off" (que estaria no modo normal em "off") para parar a parte reprodutiva é muito dificil que eu seja contra a IVG. Isto porque eu acredito piamente que um filho deve ser fruto de um desejo, de um projecto, deve ser uma opção consciente e responsável e não um "precalço" como a MFL diz. A diferença entre fazer uma IVG e ter um filho, é que num interrompe-se um processo que conduzirá a uma vida humana (não se trata de um terceiro nem de matar ninguém), enquanto no outro significa trazer a este mundo um ser humano que tem uma existência, emoções, que terá expectativas, tristezas e alegrias. E isso tem de ser sempre uma decisão e não uma obrigação derivada de um "precalço"!

"É contra essa ideia de que só temos que estar à altura das responsabilidades que a cada momento escolhemos que eu me revolto."

E faz bem! Só que está a partir do pressuposto que o IVG é um acto irresponsável, muitas das vezes o acto irresponsável é continuar a gravidez!

"Os mesmos cientistas apontam um momento anterior a esse para a viabilidade do feto."

Um favor que lhe pedia era quando comentasse o que escrevi, não se desviasse do próprio tema que questionou. É que facilita... Recordando você questionou-se sobre o que é que fazia a diferença (a que eu respondi)e acrescentei a data de ocorrência desse ponto. Não falei em viabilidade. Mas já que trouxe essa situação para a "mesa" de discussão eu diria que a viabilidade começa com a existência de capacidade reprodutiva (sem isso nada é viavel), depois aumenta com a ejaculação no periodo fértil da mulher, aumenta mais ainda com a fecundação (nota que até aqui foi a minha opinião pessoal), e vai aumentando com o passar dos dias até atingir os 50% por volta da 24ª semana (e esta é a parte da biologia).

(continua)

Joaquim Amado Lopes a 4 de Agosto de 2009 às 18:42
Meu caro Stran,

"Tenho de dizer que tem algumas frases que espelham um pouco a emotividade e pouca racionalidade com que se debate estes temas (o que não é necessariamente mau)."
Emotividade, aceito. Pouca racionalidade? Esta é uma matéria em que a racionalidade não se pode concretizar em escolher arbitrariamente (ou conforme o que dá mais jeito) que aspectos discutir ou ignorar.

"Não estamos a falar de vidas humanas."
Pois eu acho que estamos precisamente a falar de vidas humanas.
A mãe é humana e está viva. O pai é humano e (supostamente) está vivo. O feto é humano e está vivo.
São 3 vidas humanas e, segundo a Lei actual, só a primeira conta. E não é como se a primeira fosse mais importante (entre as várias opiniões/direitos prevalecer o da primeira) mas sim que a segunda (o pai) é simplesmente ignorada e a terceira (o feto) é como se não existisse. E não é a vida, é a decisão da primeira que se sobrepõe a tudo o resto.

Mas, se acha que o feto não é vida humana, peço-lhe que me diga qual é o critério que seguiu para chegar a essa conclusão.
É que, se acha que o feto não é vida humana e não tem qualquer valor nem merece qualquer protecção, esta discussão é completamente estéril.

"Mas responda-me a uma coisa: qual é mais importante a vida do feto ou da mãe?"
E em que parte da discussão do aborto por opção da mulher é que essa questão se coloca?
O aborto a pedido não tem nada a ver com perigo para a vida ou para a saúde física ou psíquica da mulher. O aborto a pedido é precisamente para quando não se tem que fazer essa ou qualquer outra escolha.

"Julgava que quem era a favor de não criminalização de IVG é que era apelidado de desumano. Não sei se sabe mas gravidez não é uma doença!"
O que escrevi é por demais explícito e a sua "conclusão/interpretação" é ridícula. O ponto que pretendi apontar tem simplesmente a ver com duas consequências possíveis da relação sexual e o aceitar o risco inerente à opção pela actividade sexual.

JAL "Ter relações sexuais é uma opção consciente e deliberada."
"Eu não sei para si, mas ter relações sexuais não é uma coisa mecanica. Se bem que concordo em abstrato com esta visão ela não deve ser vista como algo que seja só isso, envolve muitas mais emoções que uma simples 'opção consciente e deliberada' não engloba."
Mecânico ou não, com muitas ou poucas emoções à mistura, não se tem sexo por acidente nem por acaso. Podemo-nos colocar numa situação em que o nosso julgamento está afectado e fazermos algo que não fariamos em circunstâncias normais. Mas não apenas há soluções para esses casos como somos tão responsáveis pelo que fazemos nesse estado alterado como pelo que fazemos no nosso estado normal.

Alguém que não queira de forma alguma ter uma criança, faz o que tiver que fazer para não a ter. Começa por não a gerar.
Falhando a contracepção, o aborto até pode ser uma opção a considerar mas, se se aceitar que estão vários valores em jogo (os motivos para não ter a criança, por um lado, e o feto, pelo outro), então a decisão não pode ficar unicamente nas mãos de uma das partes interessadas.
Aqui, a questão chave é saber se o feto é ou não um valor.

JAL "O Stran pode não querer criar uma criança que gerou mas tem responsabilidades para com essa criança"
"É interessante como se passa de embrião, para feto, para criança. E aqui tem toda a razão, para com a criança sim. Mas não é de crianças que estamos a falar pois não?"
Criança foi usado como termo genérico, não com um significado científico. Até porque não estou habituado a ouvir conversas de/sobre grávidas em que se use os termos "embrião" ou "feto".

(continua)

Joaquim Amado Lopes a 4 de Agosto de 2009 às 18:43
JAL "Se se fôr minimamente responsável (o que se exige a todos os adultos), a possibilidade de gravidez é ínfima, com os meios actualmente disponíveis."
"Dois pontos:
"a) e se não for adulto?"
A Lei anterior já previa uma excepção para o caso de a gravidez constituir um risco para a sua saúde (física ou psíquica) da mulher/jovem. Convém não misturar situações de força maior com "por opção da mulher".

"b) "infima" não significa impossível. Para mim é bastante simples (dentro da simplicidade que se pode ter): enquanto não inventarem um botão "on-off" (que estaria no modo normal em "off") para parar a parte reprodutiva é muito dificil que eu seja contra a IVG. Isto porque eu acredito piamente que um filho deve ser fruto de um desejo, de um projecto, deve ser uma opção consciente e responsável e não um "precalço" como a MFL diz. A diferença entre fazer uma IVG e ter um filho, é que num interrompe-se um processo que conduzirá a uma vida humana (não se trata de um terceiro nem de matar ninguém), enquanto no outro significa trazer a este mundo um ser humano que tem uma existência, emoções, que terá expectativas, tristezas e alegrias. E isso tem de ser sempre uma decisão e não uma obrigação derivada de um "precalço"!"
Ponto 1. A cada momento da nossa vida tomamos decisões baseadas na nossa análise pessoal do custo/benefício ou risco/recompensa. O Stran pode querer escolher as opções que lhe sejam colocadas mas isso quase nunca é possível. Não quer de forma alguma ter uma criança? Existem meios/opções para garantir que nunca seja colocado perante essa situação. Nenhuma das opções é aceitável para si? Então aceita o risco de gerar uma criança (ou feto, se preferir). Gerou a criança mas não a quer criar? Dê-a para adopção. Não a quer criar nem dá-la para adopção? Chegou ao ponto em que a sociedade tem que dizer:
a) Vai em frente e aborta ou
b) Lamentamos mas existem alternativas em que o custo para a sociedade é menor e não podemos deixá-lo fazer isso.

O Stran defende que a sociedade diga a). Eu, pelo que essa opção isso representa em termos de violação do princípio da protecção da vida humana, acho que "porque não quero" não é motivo aceitável, considerando as alternativas.

Ponto 2. Essa do "não se trata de matar ninguém" não é consensual. Naturalmente, não se pretende igualar o valor de uma vida humana formada, consciente e actuante com a de um feto, um ser humano em formação. Mas não realizar um aborto cuja única justificação é "por opção da mulher" não condena nenhuma vida nem tráz consequências necessariamente nefastas para ninguém.

Ponto 3. A "IVG" (como é que se pode dizer que é uma "interrupção" se não se pode recomeçar?) é "interromper um processo que conduzirá a trazer a este mundo um ser humano que terá existência, emoções, que terá expectativas, tristezas e alegrias".

Ponto 4. Muitíssimos nascimentos são fruto de "percalços", seja pela não-opção consciente e responsável, seja pela oportunidade.

JAL "É contra essa ideia de que só temos que estar à altura das responsabilidades que a cada momento escolhemos que eu me revolto."
"E faz bem! Só que está a partir do pressuposto que o IVG é um acto irresponsável, muitas das vezes o acto irresponsável é continuar a gravidez!"
E o Stran está a partir do pressuposto de que a "IVG" nunca é um acto irresponsável.

JAL "Os mesmos cientistas apontam um momento anterior a esse para a viabilidade do feto."
"Um favor que lhe pedia era quando comentasse o que escrevi, não se desviasse do próprio tema que questionou. (...) Não falei em viabilidade."
Mas eu comentei o que escreveu. Não sendo médico, parece-me muito pouco provável que um feto/criança/o_que_lhe_quiser_chamar tenha os órgãos suficientemente desenvolvidos para poder sobreviver fora do útero mas seja ainda incapaz de sentir dôr.
Quanto mais não seja porque, segundo http://www.webmd.com/baby/healthtool-fetal-development-timeline, às 12 semanas o feto começa a fazer movimentos e às 20 o sistema nervoso começa a funcionar.
Nunca viu imagens de fetos a reagirem a estímulos exteriores? Eu já. E tinham muito menos de 26 semanas.

(continua)

Joaquim Amado Lopes a 4 de Agosto de 2009 às 18:44
O feto pensa? Está consciente do mundo exterior e pode caracterizá-lo? Não. Mas uma pessoa não é apenas um corpo que apenas tem valor quando está vivo.

O Stran fica indiferente com o que se faz a um cadáver humano, incluíndo desmembramento, profanação, exibição pública, ser usado como comida para animais, ...? Se calhar sim. Mas o mais provável é que isso o choque. E chocá-lo-á porque uma pessoa é mais do que um corpo, é uma ideia, tem um valor que transcende a mera existência "terrena" e merece respeito e protecção. E não, não estou a falar de alma nem de espírito. (só para evitar comentários idiotas sobre "impôr aos outros visões religiosas pessoais", sou agnóstico)

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