Por Sofia Loureiro dos Santos | Quarta-feira, 29 Julho , 2009, 22:55

 

Na realidade tenho consciência que digo lugares-comuns em relação a muita coisa, como política educativa, de imigração, energética, ambiental, e até de saúde, pois não é a mesma coisa ser-se operacional ou decisor. São os lugares-comuns que resultam daquilo que os cidadãos comuns pensam da vida colectiva, para além do seu estrito ciclo de relações pessoais e familiares e competências profissionais.

 

A educação é um assunto que importa a todos. A universalização do acesso ao ensino público que se massificou, principalmente desde 1974, foi um ganho indesmentível na alfabetização da população. Aumentou esmagadoramente o número de alunos e professores, foi-se ampliando a escolaridade obrigatória, infelizmente desacompanhada de uma proporcional melhoria e adequação dos currículos, da modernização do parque escolar, da exigência de formação e da diferenciação da profissão docente.

 

A sociedade modificou-se e as famílias não estão disponíveis para assegurar o acompanhamento das crianças e jovens, pedindo-se cada vez mais à escola e aos seus profissionais que assumam vários papéis, transformando-os em transmissores e avaliadores de competências e conhecimentos, psicólogos, médicos e assistentes sociais. Exigem-se polivalências mas não se disponibilizam verbas nem espaços para que elas funcionem. Não existem equipas multidisciplinares com representação destas profissões para que se possam desencadear acções preventivas, para que se possam acompanhar situações de instabilidade familiar ou social.

 

É urgente que se olhe para a escola como uma das bases essenciais do tecido social, no que diz respeito à aquisição de saberes, à socialização e à educação para a cidadania. É preciso dotar as escolas de meios que lhes permitam responder a estes desafios, que permitam a todos, independentemente da sua proveniência sócio económico cultural, terem oportunidade de se integrarem e adquirirem formação para a vida. Devem exigir-se disciplina, rigor, trabalho, competência, a professores e alunos, a quem elabora e a quem escolhe manuais escolares, às associações de pais, às autarquias. Devem adequar-se os meios tecnológicos, as bibliotecas, os ginásios, o ensino da música, da pintura, etc. Há muitas crianças e jovens que poderão contar apenas com os meios que a escola pública lhes oferece para as aprendizagens, socialização e formação.

 

O estado não pode ser o substituto da família mas é o garante do direito à educação; a escola pública é um dos melhores viveiros da democracia.

 

Nota: também aqui.
 


BO a 29 de Julho de 2009 às 23:45
Sofia,

Este seu texto é bem mais justo do que os anteriores sobre o tema.

E gostei da sua, digamos, humildade ao assumir certos lugares-comuns.

Agora só falta uma coisa: o que significa para si a "diferenciação da profissão docente" no §2 ?

Sofia Loureiro dos Santos a 29 de Julho de 2009 às 23:50
Nada do que disse aqui exclui o que disse no post anterior.

Diferenciação da função docente é a existência de uma carreira que se estruture em vários graus, aos quais se possa aceder através da demonstração de aquisição de mais competências, funções e responsabilidades.

Eu sou uma pessoa muito comum.

Vera Santana a 30 de Julho de 2009 às 00:03
Sofia,

Gostei do seu post. É importante saber ser "pessoa comum do seu tempo". É preciso ser corajosa/o para dizer/escrever lugares comuns.

Saudações!

Vera


Stran a 30 de Julho de 2009 às 00:16
Sofia,

Realmente criaste um "lugar-comum"!!! É que depois de estarmos em campos opostos (infelizmente fiquei a aguardar o teu reply) agora diria que é comummissimo.

Se por vezes critico, agora é a minha vez de fazer uma vénia e dar-te os meus parabéns.

Excelente artigo!

BO a 30 de Julho de 2009 às 01:11
Sofia,

Pensar que este ECD e esta ADD ( que mencionou no 1º post) possam contribuir para uma escola pública de qualidade (referida neste 2º post) é um lugar-comum.

A educação pode e tem de ser discutida por todos, mas não é um lugar-comum.

Também sou uma pessoa comum. E gosto mais de pensar, ver e saber do que, como diz a Vera Santana, ter a "coragem de dizer lugares-comuns".



Levy a 30 de Julho de 2009 às 01:50
De uma forma geral não discordo do que escreveu Sofia. Até gostei do "Devem exigir-se disciplina, rigor, trabalho, competência".
Mas gostava de chamar a atenção para 2 aspectos:

- A escola é para muitas camadas da população (as mais pobres e iletradas) a única possibilidade que têm de ascender socialmente. Por isso é muito importante ser exigente com esses. Aquilo que tem sido feito nas últimas décadas foi o contrário: estes alunos foram desresponsabilizados, e nivelou-se o ensino e a exigência por baixo, com a ilusão que isso iria fazer progredir estes alunos. Mais , apareceram umas modas pedagógicas que apontavam para uma contextualização do ensino ministrado, ou seja, que ele fosse "apelativo" para essas camadas. Essa ideia, parece soar bem, mas por detrás o que trouxe foi o prolongamento das vivências desses alunos para dentro da escola. Nada de mais errado, não sou contra que haja alguma "contextualização", mas aquilo que deve ser ensinado a esses alunos não pode ser só o que eles já vivem e sabem. Deve-se por isso ser exigente e não se deve ter medo de entrar nas matérias académicas. Têm o mesmo direito ao saber que os outros.

- O facto de a escola ter de dar uma atenção especial a estes alunos com mais dificuldades, isso não significa que se distraia dos outros. E isso tem acontecido: 90% do trabalho dos professores é direccionado para o grupo mais fraco, esquecendo muitas vezes os bons alunos, os trabalhadores e cumpridores.

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