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SIMplex

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28
Jul09

Escolhas estratégicas (2)

João Galamba

Neste post, citei a seguinte frase de Sócrates "Há uma revolução tecnológica em curso. Portugal tem de escolher: arrisca ou fica passivamente à espera que algo aconteça", e perguntei qual a posição do PSD em reacção a isto.

 

O Paulo Marcelo respondeu reduzindo o âmbito da pergunta. Para o Paulo, Sócrates é uma espécie de Valentim Loureiro: "Alguns, lá pelos lados de Gondomar, distribuem microondas e televisões aos idosos. Outros computadores portáteis às criancinhas.". É tudo igual, claro. O facto de haver centenas de milhares de crianças com computadores, é um pormenor de somenos. Depois, o Paulo embala na tirada liberal costumeira: o problema desta esquerda socialista é "pensar que deve ser o Estado, e não as empresas em livre concorrência, a comandar todo o investimento em novas tecnologias". Já cá faltava o chavão do mercado. Reparem como esta recorrente tirada liberal não é bem uma crítica, pois não depende de qualquer avaliação empirica dos resultados: é um apriorismo ideológico, formalmente equivalente aos preconceitos de uma certa esquerda em relação a tudo o que é privado. Inverte-se o preconceito, mas a lógica repete-se: se Louçã vê tudo sob o prisma das negociatas, o Paulo reduz todas as campanhas públicas a um acto de propaganda. São ambos juízos que precedem — e evitam — o confronto com a realidade. Para quem a interpretação é um permanente acto de suspeita, tudo o que o governo faz é necessariamente uma dissimulação. E assim se diz definitivamente adeus à realidade. E, infelizmente, assim se vai fazendo oposição.

 

Mas o maior problema do Paulo é ele fazer-se de despercebido, respondendo como se Sócrates estivesse a falar apenas de tecnologias de informação e do Magalhães. Mas a frase de Sócrates não é apenas sobre o Magalhães. Sócrates estava a falar daquilo que ele acha que está a acontecer ao mundo (uma alteração de paradigma energético) e numa estratégia de desenvolvimento para o país, isto é, numa proposta política assente naquilo que Sócrates entende serem os desafios e as oportunidades do país. Sobre isto ficamos apenas a saber que o Paulo Marcelo gostava que o PSD fosse governo para acabar com este disparate indecoroso de distribuir computadores pela criançada. É pouco. E tem um problema fundamental: desvaloriza as necessidades a que o PS procurou dar resposta, como se fosse irrelevante que centenas de milhares de crianças passassem a ter um computador.

 

Como isto é claramente insuficiente como estratégia política, o Rodrigo Adão da Fonseca, que abandonou o Hayek e abraçou, de corpo e alma, a austeridade de Ferreira Leite, tentou completar a coisa, e lá tentou responder directamente à questão. O problema, explica-nos o Rodrigo, é que esta coisa de que "revolução tecnológica" tresanda a historicismo marxista (????). Em linguagem corrente: todo e qualquer governo que ouse adoptar uma política de desenvolvimento baseada naquilo que se entende serem os desafios de futuro, é marxista. Valha-me nossa senhora, ao que isto chegou. A solução do Rodrigo é a de abandonar definitivamente qualquer visão estratégica que implique um papel activo para o estado. Um não marxista reduz o estado e liberta as forças produtivas do mercado. Um não marxista deseja "que o Governo fique passivamente à espera que algo aconteça, e que deixe o dinheiro dos nossos impostos bem sossegadinho.". Um não marxista só pode fazer uma coisa: desmantelar o estado.

 

Quando devidamente complementada com a clarificação ideológica do Rodrigo, aquilo que decorre da crítica do Paulo é que o PSD deverá ser um partido liberal. O problema é que não consta que Manuela Ferreira leite o seja. Ou melhor, o verdadeiro problema é que não sabemos. E, pelo menos até Setembro, não iremos saber
 

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