Por Eduardo Pitta | Domingo, 26 Julho , 2009, 11:50

José António Pinto Ribeiro, o ministro da Cultura, é um homem culto, civilizado e afável. Mas nem ele nem ninguém faz milagres com 0,4% do OGE. Deu ontem ao Público uma entrevista de fundo, que toma como pretexto um hipotético Museu da Viagem, a instalar no edifício que serviu de Pavilhão de Portugal na Expo 98. (Entretanto, o presidente da Parque Expo confirmou ter entregue ao governo um anteprojecto do referido museu.) O edifício de Siza Vieira distingue-se pela famosa pala suspensa, mas, excluindo-a, o que sobra faz lembrar as escolas primárias que o Estado Novo construiu nas antigas colónias africanas. Uma espécie de Bauhaus em pobrezinho. Contudo, nos últimos dez anos, tem sido referido para mil e uma utilizações: de sede do conselho de ministros (um delírio!) a Museu Fernando Pessoa, as hipóteses foram múltiplas. Nada vingou. Suponho que as obras de adaptação ao que quer que fosse dissuadiram toda a gente.

 

Chegou agora a vez do Museu da Viagem, o qual, para dar conteúdo às palavras de Pinto Ribeiro, talvez devesse chamar-se Museu dos Descobrimentos. Porque foram os descobrimentos que nos ligaram ao mundo. Os Gamas e os Cabrais não andavam propriamente a viajar...

 

Eu não tenho nada contra museus, pelo contrário. Gostava muito que o Museu Nacional de Arte Antiga tivesse a projecção que merece (e, naturalmente, fosse ampliado); o Museu Calouste Gulbenkian continua, pelas melhores razões, um clássico; o CAM dispõe do melhor conjunto de arte portuguesa moderna e contemporânea; considero o CCB o espaço ideal para o Museu Colecção Berardo; apoio sem reticências a construção do novo Museu dos Coches, um projecto que começou no tempo de Manuel Maria Carrilho, foi apoiado por Santana Lopes enquanto presidente da CML, e teve luz verde orçamental do governo Barroso (era a dra. Manuela ministra das Finanças), não sendo, portanto, como agora é de uso dizer-se, uma decisão recente e arbitrária de Manuel Pinho; o museu da Fundação Oriente é magnífico, por oposição ao equívoco que representa o Museu do Chiado (arte contemporânea, aquele acervo?); e, para não me alargar, tenho pena que o Museu do Design e da Moda esteja para já reduzido a uma parcela ínfima do seu espólio.

 

Mas há coisas que me encanitam. O anunciado Museu da Língua (ainda por cima num espaço desastroso) e agora este da Viagem. O problema não são os museus. É a sua multiplicação, que custa dinheiro, fazendo com que Lisboa não disponha de um único que possa medir-se com os seus congéneres de Madrid, Veneza, Roma, Paris, Londres e Nova Iorque. O episódio caricato da pretendida e falhada extensão do Hermitage de São Petersburgo foi um bom exemplo da leviandade com que por vezes certos ministros gerem os dinheiros públicos.

 

Para os distraídos: estou só a falar de Lisboa.

 


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