Por Miguel Vale de Almeida | Domingo, 26 Julho , 2009, 10:32

Como era de esperar, começaram a chover os mails e os comentários (no meu correio e no meu blog pessoal) com ódio e insultos. Tudo bem. Tudo bem, não fosse o que eles revelam sobre o mal-estar da democracia em Portugal. Há dois temas que atravessam esses mails e comentários: o tema da "coerência" e o tema do "tacho". Em ambos os casos a acusação é de crime moral: "perdeu a coerência", "vendeu-se por um tacho". Nestes anos todos de comentário e intervenção política não me lembro de ter usado a coerência e o tacho como argumentos. Há mais gente assim. E, pelos vistos, outra gente que não. Talvez tenhamos aqui um divisor de águas - e ele não separa a direita da esquerda, mas sim a lucidez da paranoia, a seriedade da arruaça.

 

A primeira vontade é de responder a esses mails e comentários com argumentos racionais. Começar, por exemplo, por explicar factos: entrei para o Bloco em 1998 através da Política XXI, o seu sector mais moderado. Dentro do Bloco assumi sempre as minhas dúvidas em relação a posições que via como mais extremadas (uma vez disse uma frase irónica que ficou conhecida: "sou da ala direita do Bloco, o que não significa de todo não ser de esquerda"). Há 3 anos atrás saí do Bloco, por razões sobretudo relacionadas com a vontade de intervir sem os limites que naturalmente pertencer a um partido acarreta. E estes 3 anos sem ligação partidária permitiram-me pensar sobre política e intervir sobre questões sociais com liberdade acrescida.

 

Nestes 3 anos critiquei ferozmente o PS em várias circunstâncias (dois exemplos: a reforma universitária e o casamento entre pessoas do mesmo sexo). Critiquei atitudes, discursos, políticas, sobretudo em torno da universidade ou em torno das questões LGBT e outras. (Como critiquei  - mas essas críticas esquecem-nas os citadores compulsivos - os pressupostos, crenças e tiques de muito pensamento e acção da esquerda à esquerda da social-democracia). Mantenho essas críticas, como se mantem o contexto em que foram feitas. Fi-las por achar que o PS deve ser mais explicitamente de esquerda e rever os erros da terceira via e da cedência a uma suposta inevitabilidade neo-liberal no mundo de hoje. Fiz essas críticas ao mesmo tempo que fui afirmando a minha opção política por uma social-democracia a sério e o meu desejo de que a ruptura histórica entre a área do PS e a área do BE fosse (seja) ultrapassada graças ao contributo daqueles e daquelas que se revêm numa esquerda social-democrata. Continuarei a fazer críticas com estes pressupostos.

 

Mas muitas pessoas, e às vezes jornalistas, parecem ter congelado no tempo: há quem pense que transitei directamente do BE para o PS. Duplamente falso, não só por ter saído do BE há 3 anos, como por entrar nas listas do PS como independente. Entra aqui o "argumento" do "tacho". Valerá a pena responder dizendo que, no meu caso pessoal, poder vir a ser deputado não constitui tacho nenhum? Duvido. Ou que não tenho qualquer intenção de um dia assumir cargos executivos, mas sim vontade de participar no Parlamento e contribuir um pouquinho que seja para a sua abertura à "sociedade civil"? Duvido que isto seja ouvido. Ou que acho que o grupo parlamentar do PS, na sua pluralidade e contradições (com sensibilidades ideológicas diferentes, comportamentos éticos diferentes, retóricas diferentes) é um espaço vasto onde julgo poder intervir e influenciar e não um pacote monolítico? Duvido também. Ou que um deputado, e sobretudo um independente, é um indivíduo e que age (pode agir; e deve agir) como tal e representando a cidadania e não somente um partido? Uma vez mais duvido.

 

Mails e comentários e colunas de opinião baseados numa ideia a-histórica e descontextualizada  de "coerência", ou na demagogia populista do "tacho" precisam, para se aguentarem, de pensar o mundo e as pessoas em caixinhas herméticas. É verdade que às vezes a realidade parece confirmar os piores receios - e tal acontece mais, como seria de esperar (pela proximidade ao poder), nos partidos da governação. Essa realidade pode e deve ser tranformada, nomeadamente com a nossa participação na política, para que ela não fique nas mãos apenas dos jogos de interesse. Mas quando aqueles receios são aplicados em automático a tudo o que de novo surja (como o foi a minha candidatura) revelam uma triste, muito triste visão das pessoas e do mundo.

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