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SIMplex

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26
Jul09

Distopias - os Babbitts nacionais

Palmira F. Silva

Num post magnifíco, a Irene reproduz alguns dos argumentos da «utopia dos valores» que me fazem votar PS nas próximas eleições e que tentarei elaborar em próximos posts. Foi por uma questão de valores, utópicos alguns certamente, que sempre votei à esquerda, mas num primeiro post importa recordar que nestas eleições se discutem igualmente valores distópicos, manifestos em «discursos pessimistas, raramente "flertando" com a esperança».   

 

E como a distopia dá título ao post, nada melhor que invocar Sinclair Lewis, o primeiro escritor americano a ser galardoado com o Nobel da Literatura, que ficou conhecido pelas suas distopias intemporais que, paradoxalmente ou não, continuam a ser excelentes caricaturas das sociedades actuais. De facto, em vésperas de eleições, algumas das intervenções laranja recordam-me o Babbitt (1922) - uma sátira à cultura de «massas».  Ou antes, fazem-me pensar nos Babbits nacionais, figuras insípidas e convencionais, rodeada de outras figuras insípidas e convencionais, que vivem em negação, perdidos entre dois mundos e não aceitando que o mundo que gostariam de impor aos outros está morto para sempre.

 

George F. Babbitt é um ignorante, e relativamente bem sucedido, empresário de uma cidade média. Acredita, com toda a força da ignorância, naquilo que pensa ser o «progresso», a «técnica», e, em particular, na grandeza e superioridade do «sistema» - que para ele se reduz à mundivisão do seu grupo económico e social. Lewis conduz o personagem central por um breve período de rebelião em que Babbitt tenta fugir à insipidez da sua vida monótona e enfadonha. Babbitt encontra uma amante. Viola a Lei Seca. O livro foi escrito pouco depois do dealbar do projecto do novo liberalismo, que na altura não adquirira ainda a esquerdista conotoção actual, e é delicioso ler o que é quiçá o melhor exemplo da excelência acérbica e satírica do autor quando Lewis descreve como vários Babbitts se declaram liberais num afã  de serem considerados «modernos». Assim, Babbitt  junta-se à entourage de Seneca Doane e seu grupo de radicais. Babbit chega ao ponto de «quase transformação». Mas retrocede e regressa ao conforto das verdades feitas e mastigadas que evitam o penoso uso das sinapses para pensar.

 

O livro permite-nos ainda um vislumbre do anti-intelectualismo que seria aprofundado noutras obras, nomeadamente o anti-intelectualismo latente naqueles que, como Babbit, acreditam, igualmente com toda a força da ignorância, que uma estadia numa universidade os transformou em iluminados ecléticos e pensadores independentes quando na realidade apenas seguem acefalamente a «manada», por exemplo quando declaram convictamente ser necessário silenciar radicais e acabar com a imigração.

 

O parágrafo inicial de Babbitt poderia ser facilmente o paráfrafo que introduz demasiados políticos e fazedores de opinião  nacionais, que, eivados de um  maniqueísmo político medieval, nada fazem a não ser criticar e rasgar a obra alheia, sem construirem nem proporem nada em alternativa.

«O seu nome é George F. Babbitt. Ele tem 46 anos agora, em Abril de 1920, e não faz nada em particular, nem manteiga, nem sapatos ou poesia, mas é muito eficaz em vender casas por mais dinheiro  que as pessoas podem pagar».

O Babbitt de Sinclair Lewis foi fonte de inspiração para muitos, em particular para outro nome grande da literatura, Philip Roth. Roth, que escreveu versões actualizadas sortidas do Babbitt de Lewis - um personagem de Roth em «A marca humana», pergunta-se mesmo «Será que ninguém leu Babbitt?» -, inspirou-se numa obra mais tardia de Lewis, publicada em 1936, para o seu The Plot Against America.

Embora considerada uma obra menor de Lewis, It Can’t Happen Here (disponível no projecto Gutenberg), é talvez a obra mais interessante para ler nos meses que antecedem as eleições que decidirão o próximo governo nacional.

O livro descreve o que acontece numa América alternativa em que nas eleições de 1936 foi eleito o demagogo e populista Berzelius "Buzz" Windrip.

Escrito em apenas alguns meses, «Não podia acontecer na América» conta-nos a história focada no editor do jornal de uma pequena cidade do Vermont, Doremus Jessup, a voz do liberalismo - e da consciência - na sua área.  "Buzz" Windrip concorre com um programa indisfarçavelmente totalitário, racista e chauvinista, que os homens de bom senso, como Jessup, acreditavam não ter hipóteses de enganar ninguém. No entanto, Buzz ganha a eleição facilmente e a América, a terra dos homens livres, transforma-se numa ditadura no espaço de dias.

Há quatro anos, por ocasião da reedição da obra de Lewis nos Estados Unidos, Joe Keohane escreveu uma coluna no Boston Globe que vale a pena ler na íntegra e de que o excerto que transcrevo, não sei porquê me recordou o último livro de Primo Levi , «Os afogados e os sobreviventes»...

«Mas para Lewis a culpa  [do descalabro que se seguiu à eleição do populista Buzz ] não é totalmente daqueles que queriam acabar com os valores por que a América se segue. A culpa também recai na multidão que pensava "isso não pode acontecer aqui"».

Para que isso, o retrocesso - amplamente anunciado em rasgos estridentes - que nos espera se o PSD vencer as eleições, não aconteça aqui, irei votar PS nas próximas eleições. Porque o good old George [Babbitt] pode causar-nos angústia. Mas os Babbits nacionais votam e são candidatos... e podem vencer!

 

em stereo na jugular.

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