Por João Galamba | Domingo, 26 Julho , 2009, 03:43

Neste post, o Miguel Morgado transforma as diferentes esquerdas numa super-entidade chamada A Esquerda, e confunde vontade de transformação política com uma espécie de plano quinquenal revolucionário. Para além da aglutinação pouco rigorosa das diferentes esquerdas, a crítica do Miguel é, sobretudo, uma apologia acrítica do conservadorismo — ou daquele liberalismo que reduz toda e qualquer intervenção do estado a um proto-totalitarismo.

 

O Miguel recorre a um velho truque da direita: tenta encostar a esquerda reformista à esquerda revolucionária. Segundo esta narrativa, a transformação social não é mais do que uma versão soft e reciclada das velhas utopias da esquerda revolucionária. Ou seja, a esquerda é toda igual: jacobina e perigosa.  Mas a crítica a uma visão estritamente revolucionária e voluntarista da política também tem uma enorme tradição de esquerda. A esquerda social democrata, por exemplo, sempre defendeu o reformismo gradual, sem necessidade de abandonar um horizonte utópico. Basta recordar a posição alguém como Habermas, que é fortemente progressista e rejeita categoricamente o conservadorismo que o Miguel implicitamente propõe.

 

O problema é que o Miguel parte de uma falsa dicotomia. O discussão relevante não é aquela que se limita a discutir abstracções formais como "transformar" vs. "conservar" ou "estado" vs. "sociedade civil". Se aceitássemos esta posição dicotómica, não saberíamos como distinguir entre investir numa vacina para curar a pólio e arregimentar a classe operária para implementar o comunismo, nem entre conceder subsídios para investir em energia e nacionalizar todo o aparelho produtivo, nem entre investir em educação e abolir a família burguesa. A questão que divide a esquerda reformista e a direita não pode ser aquela que o Miguel pretende, pois toda a política — e a de direita não é excepção — comporta necessariamente uma dimensão instrumental: algo tem de ser feito. Ou seja, não há acção política sem transformação social.

 

Contrariamente à sugestão do Miguel, aquilo que se opõe a uma visão tecnológica e burocrática do poder não é  um certo tipo de conservadorismo; é a democracia. (cont.)


Inês Costa a 26 de Julho de 2009 às 12:47
Ora, quem diria! Afinal, ainda há portugueses optimistas! :)
Concordo imensamente consigo quando fala do "bota-baixismo". Honestamente, estou cansada de tantos opinion-makers e de tanta opinião escusa e sem contrapartidas ou consequências. Cansa, esgota e impacienta.
Oxalá a coisa mude com a minha geração.

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