Por Irene Pimentel | Sábado, 25 Julho , 2009, 14:03

 

 

Para além da acutilância revelada ao descortinar no texto críptico de Rui Tavares a tentativa de fazer crer que não há diferenças entre PS e PSD, o excelente post do MVA fez-me pensar. Em particular quando se propõe como objectivo tentar estabelecer «pontes e diálogos entre o PS (…) e as muitas e diversas pessoas que se situam politicamente entre o PS e os partidos à sua esquerda (…), parte delas alheias já a essa velha história que medeia entre o 25 de Abril e o 25 de Novembro».

Repentina e recentemente, alguns e algumas passaram a votar BE, reclamando-se precisamente de serem «derrotados do 25 de Novembro» e a criticarem votantes do PS de terem abandonado a «utopia». Não me referindo ao argumento frequentemente usado de que votam no BE, por este partido não ter hipóteses de ganhar as eleições, bem como ao facto de se julgarem proprietários da pureza ideológica, árbitros do «politicamente correcto» e donos até do pensamento de quem criticam, gostaria de lhes mostrar como estão equivocados relativamente ao que pensam que os outros pensam.

Veio-me desde logo à memória o distante ano em que Mário Soares ganhou a segunda volta das eleições presidenciais contra o candidato Freitas do Amaral, fazendo o quase pleno do que se considera «esquerda» (deixo para outra ocasião observações sobre a nomenclatura), alguma da qual teve que «engolir» o chamado «sapo». Eu não engoli sapo nenhum e fui então comemorar essa vitória para a rua. Nos dias seguintes, alguns surgiram a criticar o voto em Soares, muito contentes por serem «consequentes» e, suspeito, aliviados em segredo com o resultado eleitoral. Tendo vivido o 25 de Abril, o PREC e o 25 de Novembro, não me considero derrotada de nada. Ainda bem que as coisas correram como correram!

Quanto à «utopia», como se sabe célebre título da obra publicada por Thomas More, que remete para a raiz grega topos (local), precedido pelo prefixo de negação «u» ou «eu», significando «bem», foi entendida por esse autor simultaneamente como um lugar inexistente, ou «não lugar», e um «bom lugar». A República utópica não está em nenhum lugar porque é perfeita e a perfeição não é realizável na terra, embora possa sê-lo, na ordem política, em resultado da vontade e da acção do homem. Por exemplo, a enorme diminuição da mortalidade infantil em Portugal desde o 25 de Abril era uma utopia, mas que (só) foi possibilitada pela democracia.

Na Revolução Francesa, o modelo de pensar utópico ancorou-se na noção de que era possível o imediato triunfo da liberdade, igualdade e fraternidade, fazendo tábua rasa do passado. Sabe-se como esse momento crucial descambou por isso no terror e no total sacrifício de um dos objectivos, a liberdade, prefigurando aliás o totalitarismo do século XX. Na medida em que pretenderam situar a utopia num local determinado e num momento preciso, através transformação da humanidade e da fabricação de um Homem Novo (de raça ou classe pura), Hitler e Estaline criaram um inferno sobre a terra em que os piores crimes (meios) eram justificados em nome desse magno propósito (fim).

Desde o século XIX, a palavra passou por vezes a designar, de forma negativa, um projecto político ou social que não tinha em conta a realidade e era irrealizável ou irrealista, mas diversos autores deram-lhe porém uma conotação positiva: por exemplo, Lamartine disse que «as utopias são frequentemente verdades prematuras». Para entender as interpretações opostas – positiva e negativa – de utopia, há que situá-la relativamente ao «ideal» e à «ideologia», que tal como a «utopia» tem um lado positivo e outro negativo. Estes opostos podem porém complementar-se e a imaginação utópica pode ser ela própria o remédio para a patologia do pensamento ideológico, cego e estreito, devido à incapacidade deste conceber um «não lugar».

À «utopia dos factos», de natureza totalitária, porque reduz a existência complexa e contraditória dos homens a um programa redutor, pode-se contrapor a «utopia dos valores», que mantém «os ideais» como horizonte. Não estando ao alcance e podendo até não ser atingíveis, estes arrastam os homens para a acção. Embora consciente de que, ao pensar-se dessa forma a «utopia», se pode votar em diversos (mas não em todos) partidos candidatos às Legislativas, deixarei para um futuro «post» os argumentos, relacionados com a forma como se atinge (?) a liberdade, igualdade e solidariedade, que me fazem votar no PS.

 

 

 

 


weber a 25 de Julho de 2009 às 15:47
Enganei-me a comentar e coloquei-o num poste ao lado.
Recoloco-o aqui.
Na Utopia de Morus há um aspecto, que se sabe porquê, mas para o efeito do post da historiadora Irene Pimentel é relevante, também: o personagem central da narrativa do renascentista amigo de Damião de Góis é um português e marinheiro.
J.A.

Valter Marques a 25 de Julho de 2009 às 16:09
Querer comparar o PS ao PSD é pura demagogia dos partidos de esquerda, que querem roubar votos ao PS. Só não percebe isso quem não quer, quem não tem argumentos para criticar Sócrates e o PS.
Até porque tenho a certeza que o PSD também irá defender o casamento entre homossexuais.
Parabéns por este novo espaço!!

Valter Marques

www.esquerdismosliberais.blogspot.com

jojoratazana a 25 de Julho de 2009 às 16:51
Quer comparar o PS do tempo da Candidatura de Mário Soares com o actual?
Basta ver este caso:
Não tenham duvidas o P.S. actual não merece o Manuel Alegre e não foi ele que mudou.
Não se esqueçam do que se passou na quinta feira antes das eleições presidenciais em que todas as sondagens davam uma segunda volta entre Cavaco e Manuel Alegre, o actual governo a mando da oligarquia que o comanda resolveu aumentar na seta feira antes do acto eleitoral o imposto sobre os combustíveis em 0,30 cêntimos a fim de garantir a vitória do actual PR sem haver 2ª volta esta foi evitada por menos de 30.000 votos.
Tem tudo a ver não tem?

Miguel RM a 25 de Julho de 2009 às 18:43
Parabéns, Irene, maravilhoso texto de quem sabe do que está a falar. Também perdi há muito a paciência para aturar marxistas "proprietários da pureza ideológica".

José Manuel Faria a 25 de Julho de 2009 às 21:32
PS sem vergonha nega convite a Joana A Dias!

João Galamba a 26 de Julho de 2009 às 05:11
Irene,

Este post está magnífico.

Miguel RM a 26 de Julho de 2009 às 07:28
2 comentários a comentários aqui feitos:
1 - "Querer comparar o PS ao PSD é pura demagogia dos partidos de esquerda, que querem roubar votos ao PS". Pois não me parece. É normalíssimo que sejam comparados estes dois partidos, que são os pilares da 3ª República. Ambos se pretendem social-democratas e, provavelmente, nenhum o será, embora o PS seja um bocadinho mais. O facto indesmentível de haver cerca de 20% do eleitorado (no qual me incluo) que oscila entre estes dois partidos é a prova de que a comparação é legítima (note-se, 20%, tanto quanto a CDU e o BE gostariam de ter conjuntamente). O PS e o PSD, mais do que partidos, na acepção ideológica do termo, são grandes frentes eleitorais, tal como a CDU, o BE e o CDS são pequenas frentes eleitorais. Eu também gostaria que o PS fosse mais social-democrata e que o PSD fosse mais liberal/conservador (infelizmente o nome PPD ficou queimado por ter sido raptado por Alberto João Jardim e Pedro Santana Lopes; seria um nome bem melhor, mas não se pode refazer a História e Sá Carneiro, talvez por influência sueca, legou-nos essa infeliz designação para a frente eleitoral do centro-direita).
- Sobre o pretenso convite a Joana Amaral Dias, estou encantado com a indignação bloquista. Ontem, Louçã parecia uma virgem ofendida a falar sobre o assunto. E eu que julgava que o marxismo era uma doutrina revolucionária, que os superiores interesses da Revolução justificavam que se usasse quase todos os meios possíveis para alcançar esse fim supremo. Não sei se é verdade ou não que a convidaram (já houve desmentidos), mas o episódio já serviu para revelar a sonsice de Louçã

José Manuel a 26 de Julho de 2009 às 08:50
Este blog é extraordinário. Quem o lê fica convencido que este governo nunca existiu e que o PS não teve uma maioria absoluta nos últimos quatro anos, sobre a qual deve prestar contas aos portugueses. E o resultado é que hoje estamos bastante pior do que há quatro anos atrás(à excepção dos apaniguados que orbitam à volta do governo).

Na realidade o blog devia chamar-se antes "OMO lava mais branco", porque tudo aqui tem um objectivo branqueador das nódoas deste governo.


Maria Ângela Pires a 27 de Julho de 2009 às 01:13
Este muito lúcido post de Irene Pimentel - que vai lá atrás buscar o sentido lógico do entendimento político no Portugal pós-25 de Abril, por exemplo à eleição de M.Soares contra F.Amaral sem sapos engolidos nem sentimentos de derrotas - faz-me também recordar a revista Raiz e Utopia, na qual participei, e onde António J.Saraiva e Carlos Medeiros escrevem em comentário no nº 2 (Verão de 1977) o seguinte: "Estes exemplos (Buda,Jesus, F.Assis, Ghandi) e outros atestam a infinitude do Homem, são a presença viva da Utopia que talvez não caiba nos limites das sociedades organizadas. Mas a transcendência que aceitamos não é uma imposição exterior. O Homem é ponto de chegada e de convergência da nova reflexão, não o ponto de partida, como na filosofia naturalista. Simplesmente sabemos que o homem é dentro de si infinito e se transcende a si próprio. Para citar Pascal, "l'homme passe l'homme". Não há possibilidade de dizer onde ele acaba.

Somente esta achega ao tema da Utopia, que vai ser mt invocada a propósito da decisão realista de votar no PS, permitindo a possibilidade (e não a destruição) de um caminho aberto ao passo de quem deseja andar...

Nascimento a 31 de Julho de 2009 às 14:12
Boas qual é a"IDEOLOGIA DOS VALORES",do Sr Engenheiro?Agora a sério, a Sra Irene sabe quais os
"valores", ideológicos claro ,DESTE P.S.???Sabe, é
que fica sempre bem quando chega o 25 de Dezembro,
nós acreditarmos no Pai Natal...

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