Por João Galamba | Terça-feira, 01 Setembro , 2009, 14:17

O Rodrigo Adão da Fonseca escreve hoje, no Diário Económico, um artigo importante para perceber a estratégia económica do PSD. E a estratégia é: o governo não deve ter qualquer estratégia de desenvolvimento. Simples e claro. Mas errado, tendo em conta a situação económica e os desequilibrios estruturais do país.

 

Escreve o Rodrigo: "O PSD defende um modelo económico que desonera as empresas, em especial, as PME, mas num plano de igualdade de oportunidades, com medidas transversais que aproveitam a todos". O meu problema com esta passagem é que ela é neutra entre soctores de actividade e entre opções estratégicas, isto é, torna-se irrelevante se apoiamos empresas que produzam bens de elevado valor acrescentado, sectores com elevado potencial exportador, industrias que apostem em baixos salários ou industrias que pretendam investir em capital humano e na qualificação dos seus trabalhadores. O que o Rodrigo diz — e o PSD também — é que, de um ponto de vista político, não interessa o que as empresas façam, desde que se comportem como empresas. Esta estratégia — cega, indiferenciada — não responde de forma minimamente satisfatória a um desafio fundamental: como contribuir para mudar o paradigma produtivo português, demasiado dependente de baixos salários e de produtos com baixo valor acrescentado que tem sido o principal responsável pelo nosso atraso económico?



 

O problema é que melhorar a tesouraria das empresas, isto é, dar mais dinheiro às empresas, apesar de importante, não altera os incentivos que as empresas actualmente enfrentam e, por isso, nada faz para contribuir para uma alteração estrutural da economia portuguesa. É natural que um liberal como o Rodrigo defenda isto. Mas ser natural não significa que seja correcto: a estratégia liberal está longe de responder de forma satisfatória aos desafios económicos do país. É preciso recordar que dar mais dinheiro às empresas, sem alterar os seus incentivos, não contribui para aumentar o investimento ou requalificar os trabalhadores; limita-se a dizer: as empresas que façam o que bem lhes apetecer, pois a estratégia económica não tem qualquer dimensão pública. Mas isto é falso, pois, do ponto de vista do país, não é indiferente que as empresas apostem em baixos salários, em produtos de elevado valor acrescentado ou em renovar a frota automóvel dos seus administradores — as decisões económicas das empresas têm sempre consequências para a empresa e para todos nós.  Um país tem de ter políticas públicas que interfiram com as acções actuais das empresas, promovendo certas escolhas em detrimento de outras. Para tal, é fundamental que, recorrendo às palavras do Rodrigo, haja algum "dirigismo" e "distorção do mercado". Corrigir a balança de pagamentos, abandonar o paradigma económico que nos põe a concorrer com países como a China e a índia têm uma dimensão empresarial e política. Empresarial porque as empresas agem enquanto empresas, isto é — simplificando — maximizam o lucro, e política porque o contexto  favorece sempre certos tipo de actividades e não outras. Por tudo isto, é fundamental que o Estado procure criar condições que promovam e apostem em certo tipo de escolhas e decisões empresariais. Se isso é dirigismo, então eu sou pelo dirigismo. Eu e grande parte dos governos mundiais, já agora.  


 

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