Por Miguel Abrantes | Quarta-feira, 26 Agosto , 2009, 18:08

Paulo Guinote tem publicado alguns posts que procuram desmascarar a alegada manipulação estatística que o Ministério da Educação teria realizado com os dados relativos ao insucesso escolar, apresentados na passada segunda-feira.

 

Que está realmente em causa?
 
1. Paulo Guinote contesta que o ano de referência para a comparação realizada pelo Ministério da Educação seja o ano lectivo de 1996/1997; se o ano fosse o de 1993/1994, afirma – e mostra com dados oficiais -, os ganhos no combate ao insucesso seriam bastante menores.

 

Ora, há uma razão muito simples e que o autor conhecerá bem: a introdução dos exames nacionais no ano lectivo de 1995/1996, e que fizeram subir as taxas de insucesso neste ciclo de ensino. Se é usado o ano de 1996/1997 é porque se trata do segundo ano de aplicação desses exames (o primeiro ano, como o autor recordará, foi excepcional porque existiu uma bonificação nos resultados dos exames).

 

Não fazia nenhum sentido comparar os dados mais recentes com o ano anterior à introdução dos exames nacionais, que corresponde a uma muito significativa mudança das regras do sistema de avaliação.
 
2. Paulo Guinote escreve como se tivesse descoberto a pólvora: afirma que os cursos CEF são “vias que são frequentadas maioritariamente por alunos que têm dificuldades em acompanhar o currículo comum e que, em regra, apresentavam à entrada nestes cursos um historial de maior insucesso com várias repetências”.

 

Ora, estes cursos visam, antes de mais, combater o insucesso escolar – uma prioridade do sistema educativo e aceite consensualmente por toda comunidade educativa, para não dizer todo o país -, ou seja, que os alunos deixassem a escola sem qualificações e fossem acabar no mercado de trabalho desqualificado para toda a vida. Mais: estes cursos foram sempre apresentados como tendo o objectivo acima exposto. Qual é exactamente o problema?

 

Manter os alunos na escola com aproveitamento em formações mais longas é muito mais útil e importante para eles e para a sociedade do que deixá-los sair precocemente para o mercado de trabalho. Ninguém pretende argumentar que estes alunos se tenham “tornado melhores alunos do que os das turmas regulares”. Os percursos são diferentes, e todos os sabem – professores, alunos, futuros empregadores e público.

 

A aposta nas vias profissionais do secundário – e quem lê Paulo Guinote fica com a impressão de que é um ensino secundário “anormal” - é vista pela comunidade educativa como um sucesso que peca apenas por ter vindo muito anos atrasado. Há coisas a melhorar? Há, sim. Mas só é possível melhorar aquilo que foi introduzido, resultado de uma inovação política de grande alcance no sistema. Há uns anos todos se queixavam que havia demasiado insucesso e abandono e não havia cursos profissionais que permitissem ajudar a estancar a saída de alunos do sistema. Agora há - o que é preciso é corrigir as insuficiências identificadas.

 

Para alguns, parece que seria preferível que milhares de alunos tivessem simplesmente continuado na rua, sem qualificações.


Paulo G. a 27 de Agosto de 2009 às 02:16
Manuel Teles, são comparáveis dados antes e depois do "regime de permeabilidade"?
Ou a sua crítica só funciona para mim?

Manuel Teles a 27 de Agosto de 2009 às 11:54
Está o Paulo Guinote a assumir que é tão manipulador quanto diz o Ministério da Educação ser?

Ricardo Antunes a 27 de Agosto de 2009 às 10:55
Todas as formas e medidas de combate ao insucesso e abandono serão positivas desde que sejam implementadas com rigor e seriedade. Para quem conhece a nova, ou a mais recente, forma de justificacação-eliminação de faltas de cefs e profissionais sabe perfeitamente que se está a preparar os alunos para uma perfeita e harmoniosa integração no mercado de trabalho. Passaremos a ter dos trabalhadores mais cumpridores do espaço da UE. Mas porque é que não nasci num pais onde todos fossem altos e loiros...

Joaquim Amado Lopes a 27 de Agosto de 2009 às 12:31
O Miguel refere (e muito bem) os exames nacionais. Naturalmente, a mudança no sistema de avaliação influencia os resultados. Mas é esse o número factor a considerar?
Qual foi a evolução dos programas? E do grau de exigência?
Com quantas negativas se podia passar antes e se pode passar agora?
Qual é a evolução das médias nas várias disciplinas?

As estatísticas dizem o que quisermos que digam. Basta escolher os indicadores e os períodos que mais interessam.

Numa apreciação completamente subjectiva, qual é a impressão do Miguel sobre os conhecimentos dos nossos jovens? Acha que saiem da escola com mais ou com menos conhecimentos do que há 10 anos, nas matérias básicas (leitura, escrita, matemática, ...)?

Armanda a 27 de Agosto de 2009 às 12:41
Em 1995/1996 houve bonificação nos resultados dos exames? Engraçado, já nessa altura corrigia exames e não me recordo disso! Adiante...
Há aqui mais um pormenorzito, coisa mínima, que eu gostaria de acrescentar ao debate. Já que se insiste tanto nos resultados dos exames - e é verdade que eles interferem no sucesso ou insucesso final - ainda não se deram conta que, a partir de 2006/2007, ano terminal dos primeiros alunos saídos dos cursos tecnológicos, acabaram-se os exames nacionais para estes alunos? E eles representam uma parte bem significativa...
Então, agora, estamos assim (e vamos lá comparar com qualquer ano anterior a 2004/2005):
1 - não há provas globais para ninguém;
2 - exames nacionais, no básico, só a Português e a Matemática e os alunos dos CEFs não fazem exame nenhum. Os outros, mesmo com várias negativas, podem autopropor-se a exames de escola e têm direito a aulas de apoio, durante a interrupção de Verão;
3 - os alunos dos cursos tecnológicos e dos cursos profissionais não têm exames nacionais para conclusão do curso. Só se quiserem ir para a universidade é que fazem os exames à disciplina específica para acesso ao superior (a maioria faz a Português, porque o programa é o mesmo para os diferentes cursos);
4 - nestes últimos 2 anos, todos os alunos dos cursos antigos com alguma(s) disciplina(s) em atraso, podem concluí-la(s), ao abrigo do Decreto-Lei nº 357/2007, em 3 épocas distintas por ano - Novembro, Fevereiro ou Maio - num exame a nível de escola, com direito a apoio dado por professores da disciplina. Além disso, e isto é mesmo giro, alguns alunos desses com os cursos inacabados , verificaram agora que, afinal, já têm o 12º concluído graças a umas equivalências quaisquer...

Joao Salvo a 27 de Agosto de 2009 às 14:07
Cara Armanda,

"Em 1995/1996 houve bonificação nos resultados dos exames? Engraçado, já nessa altura corrigia exames e não me recordo disso! Adiante..."

Vá ver...: http://www.saladosprofessores.com/index.php?option=com_smf&Itemid=62&action=printpage&topic=5621.0

BULIMUNDA a 27 de Agosto de 2009 às 12:44
A Queda

E eu que sou o rei de toda esta incoerência,
Eu próprio turbilhão, anseio por fixá-la
E giro até partir... Mas tudo me resvala
Em bruma e sonolência.

Se acaso em minhas mãos fica um pedaço de ouro,
Volve-se logo falso... ao longe o arremesso...
Eu morro de desdém em frente dum tesouro,
Morro á mingua, de excesso.

Alteio-me na côr à fôrça de quebranto,
Estendo os braços de alma - e nem um espasmo venço!...
Peneiro-me na sombra - em nada me condenso...
Agonias de luz eu vibro ainda entanto.

Não me pude vencer, mas posso-me esmagar,
- Vencer ás vezes é o mesmo que tombar -
E como inda sou luz, num grande retrocesso,
Em raivas ideais, ascendo até ao fim:
Olho do alto o gêlo, ao gêlo me arremesso...

. . . . . . . . . . . . . . .

Tombei...
E fico só esmagado sobre mim!...

Mário de Sá-CarneirO

Norberto Lopes a 27 de Agosto de 2009 às 17:35
Sou empresário.

Eu não quero alunos com um diploma profissional do 12º ano que mal saibam ler, escrever e contar. A minha empresa deu estágios a alunos dos CEF e a alunos dos cursos profissionais para técnicos de manutenção industrial (12º ano).

Os alunos dos cursos e formação e educação que eu apanhei nem quero falar. Desgraçados dos professores que trabalham com eles pois ensinar alunos que não querem aprender é um autêntico desperdício. Esses tipos de alunos deveriam ser acompanhados por técnicos de reinserção social (psicólogos, assistentes sociais) antes de irem para uma normal sala de aula. Não são os professores e os formadores que vão resolver estes problemas. Esta situação leva a que estes alunos prejudicam os muito poucos que frequentam estes cursos e que querem aprender alguma coisa.

Os meus estagiários dos cursos profissionais de manutenção industrial, não sabem interpretar um texto, não sabem fazer cálculos matemáticos básicos e mesmo na área da sua opção técnica valha-nos DEUS!

O PS quer resultados à força e sou testemunha de que este governo, através de técnicos das DRE's , pressiona os directores das escolas para que estes alunos obtenham um diploma à "pressão".

Deus nos livre da loucura deste 1º Ministro que anda a "dar", desculpem a expressão, diplomas de 9º ano e de 12º ano a alunos que mais tarde não terão lugar nas empresas.

Militantes do PS parem um momento para pensar!

Não se trata de política, trata-se de acordarem para a realidade.

Este tipo de alunos precisam em 1º lugar de estarem numa escola com uma disciplina rigorosa acompanhados de técnicos competentes que possam acudir a todo o género de traumas destes alunos desenquadrados afectiva e socialmente.

Já agora, por amor de Deus, parem a certificação do RVCC e os tais cursos EFA . Há milhares de pessoas a serem certificadas de competências, que lhes confere o diploma de 12º ano, mas que eu não as recruto para a minha empresa. O meu director de recursos humanos já lhes pergunta: "Tirou um 12º ano normal, ou um 12º nas novas oportunidades?"
Todos os alunos certificados com o 12º ano nas Novas Oportunidades que foram entrevistados na minha empresa mal sabem ler, escrever e contar. Entre colegas empresários até contamos anedotas sobre entrevistas dadas por estes alunos adultos que foram enganados com promessas de empregos para os quais eles não têm as devidas competências funcionais mínimas.

Em conclusão: coitados dos professores deste País, pois com tamanha loucura ninguém aguenta trabalhar.


Nina Abreu a 27 de Agosto de 2009 às 22:50
Estou absolutamente siderada com tanta barbaridade que acabei de ler. Há aqui comentadores que construiram ideias em cima de areias movediças. Lecciono há 26 anos, este ano tive 48 alunos do 12º ano ( para além de outros alunos de outros anos) que foram a exame nacional, disciplina de Português, e todos transitaram logo na 1ª fase. E debito isto para quê?! Para demonstrar que ao longo destes anos já "virei muitos frangos", passe o dito, a minha experiência, média ou boa, ninguém a porá em causa, ou sequer permitirei, no entanto, continuo absolutamente abismada com tanto desconhecimento aliado a tanta desfaçatez de alguns comentadores que, afinal, olham /conhecem a escola por cima do muro.
Esta gente nem saberá bem do que fala. Ideias feitas, frases feitas, pessoas cristalizadas em opiniões alheias.
Francamente, de há uns tempos a esta parte, catalizo toda a minha energia exclusivamente para os meus alunos: se o taxista opina, se o enfermeiro opina, se o gerente-nem-sei-de-quê opina, se o polícia opina, se o jornalista opina, se os peões de brega dos partidos opinam e por aí fora, qual a razão para "me" preocupar? A educação estará, por certo, em boas mentes.
Deixem-me, parafraseando o outro, mas é trabalhar, deixem-me fazer aquilo que aprendi ao longo de 5 anos na Universidade à custa do contributo da sociedade e mais 2 anos de estágio intensivo.
Tanta demagogia...

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