Por José Reis Santos | Quinta-feira, 20 Agosto , 2009, 18:10

 

Gostei de ler este recente texto do Pacheco Pereira na Sábado. Fala de blogosfera, spin, dirty tricks e tal. Nada de estranho, afinal temas bem caros ao candidato do PSD por Santarém. Adianta, para consolidar o seu argumento, que o recente sucesso do Simplex é mais um exemplo de como nos dias de hoje o combate político se deslocou para o espaço virtual. Aí estamos de acordo. Com o sucesso do Simplex, que hoje domina a blogosfera política; e de acordo com a importância das novas formas de comunicação na actividade política contemporânea.
Depois, Pacheco Pereira avança com a tese do profissionalismo. Do Simplex, entenda-se. Como um dos autores desse projecto colectivo, devo admitir a lisonja de receber um piropo desses do «Pai da blogosfera portuguesa». Eu também acho que estamos a fazer um bom trabalho, bem profissional, de que é exemplo o que temos publicado no blog e noutras publicações (como, por exemplo, o Diário Económico). De facto, caro Pacheco, aqui promovemos a qualidade, o bom discurso e a elevação do debate. Temos conseguido manter, é verdade, um nível bem elevado , o que é difícil de conseguir. Obrigado pela consideração.
Bem diferente foi a insinuação gratuita que deixa cair sobre os autores do Simplex, sugerindo que estaríamos todos a ser pagos. Bom, não sei que noção tem Pacheco Pereira da vida, mas – como devia ser facilmente perceptível, a quem olhasse com mais atenção - todos os «simplexes» encaixam na tipologia demográfica da «população activa», ou seja, pessoas maiores, não reformadas, que trabalham e recebem por isso. Sejam eles investigadores, bolseiros, advogados, professores, informáticos, escritores, art-directors, assessores ou outra coisa qualquer. Queria o Pacheco Pereira insinuar que devíamos deixar as nossas actividades profissionais para escrever num blog? Ou acha incompatível que algumas daquelas actividades profissionais escrevam? Tal seria uma grande imbecilidade, acho. E julgo que o próprio Pacheco Pereira concorda com tal afirmação, uma vez que é pago para escrever e para intervir politicamente em diversos meios de comunicação – jornais, revistas, televisão e net, pelo menos (não me recordo se agora assume algum programa de rádio). Eu não vejo nenhum problema de ele receber por disso. E questiono: não é universalmente aceite a noção de que um Homem deve ser recompensado pelo seu trabalho?
Agora, não sei se o JPP teve a oportunidade de ler este meu discreto texto, frequentemente reaquecido por alguma blogosfera aquando da questão dos «recursos» em política, mas se o ler com atenção – e a adenda que produzi – perceberá que existem diversas formas de recursos políticos aplicados no mundo virtual. Claro que parte deles são financeiros e são concentrados nos sites partidários e de campanha, e destes nós no Simplex nem vê-los. Mas na blogosfera, e com algumas excepções (remeto novamente para este e este texto), o principal recurso é a qualidade dos recursos humanos concentrados nos projectos e as dinâmicas de equipa que se conseguem construir. Foi o que o PSD conseguiu, de certa maneira, fazer em torno de Paulo Rangel nas recentes eleições europeias – e que estranhamente destruiu – e é o que o Simplex está a fazer. O nosso grande recurso, e perdoem-me a inconfidência, é a fantástica equipa que conseguimos reunir e a dinâmica que construímos, internamente. Este é o nosso maior recurso, não tenho disso a menor dúvida; e já se vê pelo que escreve Pacheco Pereira que falta ao Jamais estas características, que não há «equipa», o que se nota.
Aliás, estou convencido que o próprio Pacheco já deve ter feito essa leitura; o que explica o spin que procura fazer para justificar o sucesso do Simplex e a falência do Jamais. É, como bem sabemos, uma velha ambição do líder parlamentar cavaquista concentrar à nomeação de «Pai da blogosfera portuguesa» a de «Mestre do spin». E até já lhe deram, espaços televisivos para que essa honra não demore a chegar. O que foi bem simpático. Agora, meu caro (assim directo), actualize-se. Você que se pavoneia de ser uma pessoa bem informada – e que estuda os fenómenos da política há algum tempo -, tenha mais atenção às novas dinâmicas que estão a aparecer. Nem tudo encaixa nos seus pré-conceitos. E mais, quando acabar este périplo eleitoral, desafio-o mesmo a apresentarmos um paper conjunto com uma análise dos papéis dos blogs políticos colectivos neste ano eleitoral português.   
Enfim, já o vi escrever coisas bem mais interessantes.
[também publicado na Sábado]

Rafael Marques a 20 de Agosto de 2009 às 18:27

Caro José Reis Santos,

está tudo muito certo o que diz, menos a desactualização de JPP, que sabe muito bem, julgo eu, tudo aquilo que refere neste seu post.

Mas pode também responder a isto que JPP diz?


"Pergunto-me pois por que razão os blogues mais entusiastas de apoio ao governo, os blogues que fazem não só a propaganda do governo como disseminam informação e desinformação sobre seja quem for que ataque o governo (PSD, dissidentes do PS, BE, PCP, por esta ordem), estão cheios de gente com pseudónimos? Estamos a falar de blogues de política muito especializada, que fazem o acompanhamento em tempo quase real de tudo o que se diz e faz e não de meia dúzia de solitários nocturnos à pesca de companhia ou de trolls anarquistas ou de adolescentes imbecis que gostam de insultar tudo, a torto e a direito, ou de reformados enraivecidos com os políticos e que escrevem nostalgias salazaristas com maiúsculas. Estamos a falar de blogues que possuem acesso a revistas de imprensa e a ficheiros, capazes de ir desenterrar recortes em papel muito anteriores às edições electrónicas dos jornais ( e eu sei bem o trabalho de muitos anos que é preciso para ter um arquivo assim), e que varrem toda a internet política, ou seja dezenas de blogues, também quase em tempo real. Ou seja, estamos a falar de profissionais.



Porque só profissionais é que não podem revelar a sua condição, para não se perceber ao que andam e quem são. Porque só isso pode justificar tanto pseudónimo e nome falso. Na verdade, seria mais normal que os pseudónimos abundassem em quem não está do lado do poder, porque aí o pseudónimo teria como função proteger alguém cujas opiniões, se se conhecesse o seu autor, colocariam em risco a profissão e a carreira, mesmo a integridade física. Em certos municípios percebe-se bem. Mas aqui é ao contrário, é quem nada deve temer que assina disfarçado. Os tricky dickies dos gabinetes do governo, do grupo parlamentar do PS e de câmaras socialistas, podem explicar isso muito bem. Mas cuidem-se que isto é Portugal, e, a seu tempo, tudo se sabe. "

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