Por Palmira F. Silva | Quinta-feira, 20 Agosto , 2009, 11:47

Considero sempre muito interessantes as tentativas de exportação do léxico científico para o léxico do quotidiano. Infelizmente, estas são demasiadas vezes abusivas, em jeito de argumento de autoridade que valide as conclusões ou objectivos em causa, em particular quando são «forças» (ou a mecânica quântica) que estão na berlinda. Assim, nos últimos tempos temos assistido a um proliferar de forças espúrias,  desde «quintas forças» variadas a «forças vitais», «magnéticas» ou da «atracção», com charlatães sortidos a apropriarem-se da linguagem da Física para vender os maiores disparates, alguns dos quais eu, o Carlos Fiolhais e o Jorge Buescu, nos temos entretido nos últimos anos a desmontar no De Rerum Natura.

 

Tudo isto a propósito da edição de hoje do Diário Económico, na qual Sofia Vala Rocha utiliza metaforicamente as «leis» da Física para tentar mostrar que o «vector» Estado não tem «força» suficiente para alterar o estado de repouso da nossa economia. Para além de alguns detalhes que estragam a analogia,  pensando que se está falar no spin económico, importaria falar não em força «bruta» mas sim no momento da força. Ou seja, seria importante discutir o(s) ponto(s) onde se aplicaria essa força (ou o vector Estado) - eu, por exemplo, considero que são fulcrais os pontos que referi nas páginas do mesmo periódico - e, dadas as conclusões, não percebi se foi isso que a Sofia tentou fazer. Como também não percebi o que pretende com o penúltimo parágrafo, que me parece não fazer sentido no referencial inercial do texto.

 

Porque, acima de tudo, a autora esquece que, desde meados do século XIX, mais concretamente desde 1851, data em que o físico francês Jean Baptiste Leon Foucault  idealizou e montou um dos pêndulos que tem o seu nome na abóbada do Panthéon, em Paris, se sabe que a Terra é um referencial não inercial. E que só são válidas em referenciais inerciais as tais «mais elementares leis da física» de que fala, que são apenas as três leis, da física clássica, formuladas por Newton nos seus Principia. Assim, contrariamente ao que pensa, nem a física se restringe à física clássica nem os referenciais se esgotam nos de inércia. Mas, aparentemente, a inércia é o único referencial para o PSD...


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