Por Hugo Mendes | Quarta-feira, 19 Agosto , 2009, 00:46

A SIC passou ontem uma peça  longa onde se discute a medida do PS que motivou o debate, há umas semanas, sobre a "perseguição aos ricos". A peça é – surprise, surprise – incrivelmente negativa e tendenciosa, mas isso não é para aqui chamado. O que é verdadeiramente interessante é o argumentário apresentado pelo fiscalista de serviço entrevistado, Diogo Leite Campos. Este episódio serve que nem uma luva para testar as duas hipóteses que tinha colocado aqui há algumas semanas, onde havia escrito que os críticos (na altura referia-me a Miguel Frasquilho, mas isso não é importante aqui):

 

«compara[m] os rendimentos dos mais ricos cidadãos portugueses com a Europa e não com a população portuguesa. Aos mais ricos cidadãos portugueses não parece interessar muito que ganhem 10, 20, 30 vezes mais do que o meio milhão de portugueses que aufere o salário mínimo, mas que ganham menos que os mais ricos cidadãos franceses, ingleses, ou alemães.» [1ª hipótese]
E que:
«não deve[m] ter uma ideia muito clara da distribuição de rendimentos na sociedade portuguesa» [2ª hipótese]

O fiscalista de serviço prova que eu tinha razão. Sobre a primeira hipótese, afirma com a maior das calmas que «5800 euros por mês em qualquer pais europeu é classe média baixa». A privação relativa dos ricos portugueses deve-se ao facto de não poderem ter a mesma vida que os seus colegas franceses, ingleses ou alemães.

 

Sobre a segunda, quando o entrevistado pergunta em modo retórico como vive uma pessoa que ganha 1000€/mês, responde de seguida que 1000€ não é «classe média», é «miséria». Apetece dizer que o senhor não sabe do que fala. O salário mediano em Portugal é de 700€ – significa que metade dos trabalhadores ganha menos, e a outra metade ganha mais. Se queremos um indicador muito simples de classe média, este é um bom candidato.
A certo momento da sua “aula”, Diogo Leite Campos considera que uma família de «classe média» ganha, no mínimo, 2000€ – este não é um valor absurdo (mas abaixo disto já se é «muito pobre»). Mas é quase cómica a forma como chega a este valor. Depois de nos informar que o salário mínimo anda «à volta dos 500 €» (estamos perante um fiscalista que não sabe o exacto valor do salário mínimo nacional. 500€ será o valor a atingir apenas em 2011, de acordo com o compromisso assinado em sede de concertação social; o valor actual é 450€, e convém recordar que era 365€ em 2004), afirma que uma família de 4 chega aos 2000€ multiplicando 500€ por 4! Qualquer pessoa de bom senso sabe que uma família de 4 significa 2 adultos + 2 crianças. Espera Diogo Leite Campos que as crianças também trabalhem?

Vale a pena dizer que, na definição do fiscalista, se uma família cujo rendimento anda à volta dos 1000€ está no patamar da «miséria» (e se aufere menos de 2000€ é «muito pobre»), então - se quiserem, regressem ao quadro que apresentei aqui -, porque cerca de 60% das declarações de IRS apresentavam em 2006 rendimentos brutos anuais inferiores a 13.500€, somos obrigados a concluir que metade das famílias em Portugal vive na «miséria». E neste país “miserável”, os que ganham entre 5 mil €/mês acham-se com legitimidade para se comparar com os profissionais de outros países bem mais ricos, e para protestar quando alguém os obriga a fazer algum reality check.

Deve ser isto a que Manuela Ferreira Leite chama "sensibilidade social".

Eu tenho uma proposta alternativa para o futuro Governo: em vez de taxar mais os 5% mais ricos portugueses – porque é disso que se trata -, devia-se taxar os 5% mais ricos alemães e franceses e ingleses. São estes, bastante mais abonados, que bem podiam ajudar os portugueses “miseráveis”. É so convencer a Merkel, o Sarkozy e o Brown.

Com um bocadinho de jeito, ainda chegamos a um imposto europeu.

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