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SIMplex

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16
Ago09

Sem discurso

João Constâncio

Na quinta-feira, quando saiu a notícia de que o PIB cresceu 0,3% no último trimestre, pensei que MFL iria ficar sem discurso. Até esse momento, o seu discurso tinha apenas quatro ideias: 1) Portugal está em crise, 2) A causa dessa crise são as políticas do Governo, 3) essa crise não tem nada que ver com a crise internacional, 4) Sócrates é um aldrabão. Como conciliar estas ideias com o facto de Portugal ter sido um dos únicos cinco países europeus a apresentar algum tipo de crescimento económico desde o afundamento geral em Setembro de 2008? Como negar toda e qualquer relação (mesmo que ténue) entre as políticas do Governo e o facto de Portugal ter sido um dos últimos países europeus a entrar em recessão económica e um dos primeiros a apresentar sinais de recuperação? Certamente MFL não ignora que haver crise resulta de não haver crescimento económico? Certamente também não ignora que o desemprego só baixará se passar a haver crescimento económico? Não, claro que não ignora — ela própria tem afirmado repetidamente que os problemas do País (incluindo o desemprego) só se resolvem quando forem criadas condições para que haja crescimento económico.  Como MFL não disse nada na quinta-feira, concluí que tinha ficado mesmo sem discurso. Só lhe restava a ideia de que Sócrates é um aldrabão. Não que isso seja pouco. Pelo menos enquanto o caso Lopes da Mota não estiver encerrado, há toda uma bolha mediática que pode continuar a ser explorada até ao dia das eleições. Mas ter apenas isso é diferente de dispor de um discurso que articule um raciocínio e que apele directamente à carteira dos Portugueses: “é do facto de Sócrates ser um aldrabão que resulta, infalivelmente, a crise em que o País se encontra”. Na sexta-feira, quando saiu a notícia de que o desemprego subiu para 9,1% no último trimestre, MFL falou. Sem dúvida que precisou de muito sangue frio. Não é qualquer um que consegue dizer que os números do PIB se explicam pela evolução da crise internacional, mas o números do desemprego se explicam pela evolução da crise nacional. MFL já estava habituada a insistir na ficção de que a crise internacional e a crise nacional são duas coisas separadas. Mas agora acrescenta que os números do PIB e os números do desemprego também são coisas separadas. E isto é realmente novo. Afinal, a nossa crise não tem nada que ver com o crescimento económico, visto que este flutua exclusivamente em função da crise internacional e diz respeito apenas à crise internacional. Afinal, a nossa crise é apenas uma crise de falta de emprego, que não está relacionada com a falta de crescimento económico (pois, se estivesse, estaria relacionada com a crise internacional). Afinal, não há qualquer relação entre o emprego e o crescimento económico. O facto de o desemprego ter aumentado menos neste trimestre do que no anterior é irrelevante; o facto de os números do desemprego tardarem sempre a acompanhar os do PIB, também (visto que nem há relação entre eles). Tudo isto configura uma teoria económica heterodoxa, e o Português em que MFL costuma exprimir-se também não ajuda a esclarecer a subtileza da sua análise, mas eu atrevo-me a dar uma ajuda. É assim: 1) Portugal está em crise, 2) A causa dessa crise são as políticas do Governo, 3) essa crise não tem nada que ver com a crise internacional, 4) Sócrates é um aldrabão.

Veja o vídeo: http://noticias.sapo.pt/info/artigo/1011745.html