Por Bruno Reis | Quinta-feira, 23 Julho , 2009, 12:06

O meu primeiro poste suscitou reacções tão fortes e tão interessantes que merece encore um poste. Especialmente porque aparentemente pelo menos dois eleitores potenciais do PS podem ter sido "perdidos" por essa causa, o que é assumir pesada responsabilidade.

 
Lamento sinceramente ter desiludido a M. Albertina e não ter chegado à inteligência da Teresa Krusse, mas…. qualificar partidos de extrema-esquerda de reaccionários é um desrespeito? É algo para rir?
 
Depois de mais de três décadas em que o PCP e o resto da extrema esquerda chamaram isso e muito mais ao PS, e de passagem militantes ou simpatizantes da dita agrediram fisicamente Mário Soares e Vital Moreira talvez não seja caso para tanta susceptibilidade! O PCP e o BE reagiram contra todas ou quase todas as reformas feitas pelo PS para tornar o Estado Social mais sustentável e mais eficaz. Na crise actual revelaram que, no fundo, o que querem é o regresso ao PREC de 1975. Ora isso não é progressismo, é – objectivamente – reaccionarismo. Claro que não são reaccionários em tudo, têm algumas propostas progressistas. E, claro, que há muitas razões (mais ou menos progressistas) para votar em diferentes partidos, no PS ou nos outros. A extrema-esquerda é que parece ter dificuldade em reconhecer qualquer progressismo no voto no PS.
A Teresa decreta ainda que não vivemos numa democracia; na “sua” democracia nós SIMplexmente não estaríamos a ser “escutados e gravados”. Ora ainda bem que avisa (que eu nem sabia que éramos escutados e gravados). Mas deixe que lhe diga que essa sua democracia (para mim) parece muito uma ditadura (com censura e tudo). Ora isso jamais.
 
O LAM acusa-me de merceeiro. Lamento desapontá-lo mas no meu léxico isso não é insulto, é profissão. E, já agora, receber lições de estilo de quem não é capaz de melhores insultos – tenha paciência – é que jamais!
 
Sobretudo, Carlos Cidrais cansa-se do que diz ser tanta propaganda (esqueceu-se de dizer se isso incluía nisso a notícia de primeira página sobre o negócio com a Nissan no Financial Times para que fiz linque, ou se era só mesmo o meu poste). Felizmente ainda lhe sobrou força para voltar à carga e argumentar coisas a que vale a pena discutir mais a fundo.
 
Diz que aumentou a emigração  “desta vez pior que todas as outras por ser emigração qualificada”. Não sei em que dados se baseia, mas mesmo que assim seja, é sinal de que há maiores qualificações para emigrar, o que não é de somenos. Conheço vários “emigrantes” qualificados de que fala e eles não se vêm necessariamente como emigrantes, trabalham agora fora do país como podem regressar quando convier. Sobretudo o que mais poderia ter feito o governo, quando nunca como nestes quatro anos cresceu tanto o investimento público e privado em investigação?
 
Diz o Carlos que aumentou a criminalidade – em geral não creio que seja o caso, mas há (parece) mais criminalidade violenta. O governo tentou combater o problema com mais polícias, mais meios e uma nova lei das armas. Quais são as melhores alternativas?
 
Aumentou a dívida pública diz o Carlos – pois, por cá e por quase todo o lado. Mas se o governo não tivesse feito um esforço enorme de redução do deficit orçamental (o tão atacado economicismo) ao mesmo tempo que conseguiu aumentar a despesa social ainda teria sido pior, ou não? Isso também permitiu que num contexto de crise como o actual o Estado possa investir agora mais (contra-ciclicamente, como deve ser).
 
Continua o Carlos alegando a continuação do “caos na justiça, educação e saúde”. Eu por acaso, infelizmente, ainda recentemente tive oportunidade de verificar que a nossa saúde pública continua de boa saúde, é mesmo do melhor que há. Mais, a saúde nunca teve reforma tão estrutural como a de Correia de Campos que (quase) acabou com a vergonhosa política do campanário hospitalar eleitoralista, e fechou maternidades sem condições de acordo com a… Organização Mundial de Saúde.
Começou a implementar-se a reforma do mapa judicial e aprofundou-se a informatização. Criou-se um sistema de avaliação dos professores. Claro que estas são reformas complexas em áreas complicadas, em que inevitavelmente há ajustes a fazer, e há que reconhecer que para os envolvidas estas épocas de transição são sempre chatas como-ó-caraças, mas pelo menos fez-se alguma coisa. Há que fazer mais e melhor? Claro. Mas também há que não desfazer tudo. Isso jamais.
 
Aumentou o desemprego diz o Carlos. Mas que mais podia ter feito o governo senão continuar a apostar em novas tecnologias, novas energias, novos investimentos (como agora com a Nissan) e no empenho a fundo do governo em promover novos mercados de exportação. Alguém acha que é com um governo que não vai investir (aparentemente) nada como o PSD ou com as guerras de classe do BE e do PCP que se vai criar mais emprego? Creio que jamais.
 
Continuação e agravamento das “negociatas” afirma o Carlos, sem dúvidas. Eu teria mais dúvidas sobre essas "estatísticas". Sociedade sem corrupção é coisa que não existe. Portugal está longe de estar no fundo da tabela internacional. Se há crimes que sejam punidos. Mas creio que ainda não se fez democracias sem presunção de inocência.
O governo encomendou um estudo para saber como – sem populismos – combater melhor a corrupção. Isso é a forma séria de lidar com o assunto.
A não ser que queira uma política só feita por políticos profissionais (e funcionários públicos) teremos de ter algumas pessoas do mundo das negociatas – também conhecido como economia de mercado que é onde, por sinal, se criam os tais empregos que fazem falta para o pessoal não terem emigrar. O essencial é, claro, que o mercado seja bem regulado e bem fomentado pelo Estado. A direita fará isso? Não creio, pelo menos passou anos antes da crise a dizer que jamais, o mercado tinha de ser deixado quanto mais à solta melhor!! 
 
Há, diz o Carlos, “inúmeros escândalos rodeando o primeiro ministro”. Pois, eu também reparei que têm surgido muitas alegações por provar neste último ano e tal. As únicas três coisas provadas relativamente a José Sócrates são que: primeiro, tem fortuna pessoal que tornaria o seu envolvimento em corrupção pior do que um crime, uma grande estupidez (numa altura em que toda a gente já previa que viesse um dia a ser primeiro-ministro); segundo, relativamente ao caso Freeport, pelo que li e percebi, até agora só se provou que por alturas das anteriores eleições legislativas houve encontros entre PJs, Procuradores, Jornalistas e um assessor ou algo parecido do então PM Santana Lopes para fabricar provas para incriminar Sócrates; terceiro, Sócrates estudou engenharia numa das melhores Universidades Públicas, fechou a universidade privada onde se matriculou (um ano) quando entendeu que devia ser fechada, e tem um MBA em Gestão por uma das melhores escolas do país nessa área. (E já agora conhece muita gente que se intitule bacharel em engenharia? Quanto doutores portugueses é que são na verdade licenciados ? É por isto que se rege a sua política?)
.
O Carlos ainda diz que “até seria capaz de "perdoar tudo isto se a atitude pública do PS ( no qual aliás votei em 2005 ) fosse a de humildemente reconhecer que Portugal esta pior do que estava quando tomou posse e muito pior do que o que deveria” Pois eu, caro Carlos, que também votei como você, não estou desiludido – mas nunca espero muito da política para não me desiludir. Em todo caso, mesmo que não concorde com tudo (claro!) Sócrates e o PS excederam o empenho reformista e o compromisso social que eu esperava. E lamento ter de lhe perguntar se leu o anterior programa eleitoral – é que estavam lá as reformas que foram feitas.
 
Por fim, não percebo como é que depois de uma avaliação tão negativa o Carlos estaria disposto a perdoar o PS se o partido se mostrasse penitente. Isso pare mim não é sinal de socialismo mas sim de masoquismo (lamento ter de lho dizer, pois foi um prazer argumentar consigo) ou isso, ou reconhecimento, afinal, de que as alternativas são piores.
Espero, sinceramente, Carlos (e outros) que mudem de ideias, e aceitem que o que há que fazer é continuar o esforço ao nível das políticas sociais, e não destruir as reformas feitas, em nome dos interesses particulares - isso jamais - mas sim rever e fazer ainda melhor.

Carlos Cidrais a 23 de Julho de 2009 às 21:16
Agradeco o cuidado em rebater-me pornto por ponto.
Se me permite, vou continuar o exercicio.
Eu sou dos tais emigrantes qualificados, como alias a minha namorada, e muitos dos meus amigos. Achei tambem interessante a mencao do investimento na investigacao.
Parece que adinhou que fui investigador durante dois anos em Portugal. Infelizmente conheci por dentro a investigacao portuguesa, e principalmente o modo como sao aplicados dinheiros publicos nos diversos projectos. Nao me peca para entrar em detalhes.
No entretanto estou mesmo emigrado e infelizmente sem perspectivas de voltar. Adorava dizer que era desses tais emigrantes que " se encontram a trabalhar fora do pais ", mas a verdade e que nao estou muitos furos acima dos lava pratos e operarios de outrora. Mas olhe la tenho uma licenciatura e mestrado por uma das melhores universidade privadas do pais. Um mimo.
Nao me rebateu no aumento da criminalidade e na divida publica, de modo que escuso de comentar por agora.
Ambos os meus pais sao medicos ja agora, conheco algo do SNS, dizer que e do melhor que ha so pode ser para rir. Claro que um sistema de saude universal e gratuito e uma conquista, mas conhecendo pessoas que nele trabalham nao posso dizer que estejam propriamente contentes. Porque as tais reformas implicam exclusividade, imposicao de horarios, adiamento da idade de reforma, obrigacao de abdicar da clinica privada para se dedicar ao publico. Implicam mais responsabilidades, menos dinheiro, mais anos de trabalho do que os que lhes tinham sido prometidos quando ingressaram na carreira.
quanto ao fecho de maternidades, centros de saude e hospitais, voce deve viver no Porto ou Lisboa. Passe uma temporada a viver em tras os montes ou no alentejo e veja se nao muda de opiniao.
Ha quem diga que se estao a queixar de barriga cheia, os medicos, quando tantos estao no desemprego, e eu ate concordo. Como os professores, que aparentemente no final de carreira sao dos mais bem remunerados da UE ( isto num pais que tem em tras os montes a regiao mais pobre da UE...estas contas devem fazer um sentido que eu desconheco ). Mas uma coisa e certa, nunca houve tanta contestacao a politica da educacao na historia da democracia portuguesa.
Ja agora , deposito tanta confianca nesses dados sobre a corrupcao quanto deposito nos numeros oficiais do desemprego.
E olha, eu, francamente acho que o peso do Estado e mesmo execessivo em Portugal. Ha pouca iniciativa privada, demasiada promiscuidade do estado com o sector privado e interferncia do mesm em sectores aonde deveria exitir concorrencia, estrangulamento fiscal, descredito da justica.
Tive a infeliz ideia de criar uma (pequena ) empresa de audiovisual no Porto e o que passei nesse ano nao desejo a ninguem. Talvez outros tenham mais sorte.
Tenho neste momento actividade liberal em Londres e apesar da crise, as coisas correm me como nunca poderiam correr em Portugal. Por essas razoes lamento ( e lamento-me ), mas nao acho que com este PS o pais va aonde eu gostava que fosse. Em direccao a um progresso sustentado e responsavel.
Quanto a Socrates, por amor de Deus homem, mas o que vi nestes anos chegou. Basta. Venha outro, ou outra. Se nao for serio, ao menos que o aparente.
Quando digo que seria capaz de perdoar ao PS, nao me entenda mal...nao disse que voltaria a votar no PS.
Mas ao menos teria sido passada uma mensagem de que as pessoas nao estao na politica para se servirem mas para servirem o pais. Talvez eu seja antiquado...
Sim, li o programa eleitoral. Ha muitas medidas com as quais concordei, outras das quis discordei. Mas pesando tudo tomei a minha opcao com os dados que disunha. hoje os dados que disponho sao outros. E assim tomarei a minha opcao, como o resto dos Portugueses.
Cumprimentos e agradeco a atencao que me dispensou e aos meus argumentos.

Bruno Reis a 24 de Julho de 2009 às 20:30
Caro Carlos
Não tem que agradecer. Lamento que esteja em Londres forçado, ainda bem que gosta. Eu vivi aí três anos e, gostando alguma coisa - tento aproveitar o melhor possível o sítio onde estou - sempre lhe digo que acho a cidade duríssima e caríssima.
Quanto a números, se quer realmente discuti-las a sério veja as estatísticas que aqui têm sido publicadas.
Saúde só em Lisboa e má? Será opinião sua e dos seus pais, mas os indicadores mostram que Portugal está entre os países com melhor saúde no mundo. Casos anedóticos e queixas particulares há muitas. Deixe-me contar-lhe uma, a de uma pessoa que estudou em Londres foi lá internado num hospital universitário, tinha um tumor no coração que não lhe foi detectado. Voltou a Portugal o tumor foi detectado e removido com sucesso num par de semanas.
Saúde só em Lisboa? Eu por acaso nasci e cresci na "província", é lá que vive a maior parte da minha família. Como imagina importo-me com a sua saúde. Mas sei dessa experiência que o temor de muitos provincianos é terem de passar por um hospital ou maternidade sem condições e sem médicos qualificados em vez de irem para Coimbra ou Lisboa. As maternidades foram fechadas de acordo com critérios da OMS, os seus país e você podem discordar, mas parece-me uma base razoável para fazer escolhas políticas.
Creionão errar se disser que o seu voto está pré-decidido, mas nem por isso desgostei da troca de opiniões. Não acredito nem espero políticos ou políticas perfeitas, mas não vou penalizar quem se esforçou por mudar as coisas para melho, depois de anos desastrados e desastrosos.

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