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SIMplex

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14
Ago09

Do carreirismo na blogosfera

José Reis Santos

O sucesso do Simplex e a recente moda das blogconf levou recentemente a que a imprensa tradicional dedicasse mais atenção ao ocorre na blogosfera. O interesse não é de agora, entenda-se (basta recordar a quantidade de articulistas da praça que vieram dos blogues). Agora é apenas mais intenso e complexo. Hoje promovem-se conferências políticas só para blogues, com transmissão online. Hoje há blogues que preenchem páginas de jornais diários, alguns de grande responsabilidade – como o caso do Diário Económico; e foram já várias as reportagens especiais publicadas sobre o tema, do Diário de Notícias à Sábado ou ao Expresso. A verdade é que está na moda explorar a blogosfera política.

Foi isso que a revista Visão fez, no seu último número, e para tal requereu alguns comentários junto de um conjunto alargado e plural de jovens intelectuais (e blogers). Entre eles estava o Rui Tavares, e as suas declarações caíram mal a alguns. Vamos por partes.

Em teoria, o que o Rui disse é verdade. Há realmente quem se aproveite do espaço que conquista na blogosfera para promoção pessoal. Há também quem não se consiga afastar dos discursos oficiais dos partidos que representam ou dizem/julgam representar. Há ainda quem goste tanto do som da sua voz, da cor da sua escrita que – esses sim – devem escrever e declamar rodeados de espelhos e acólitos. Há ainda quem não encaixe em nenhuma destas tipologias, e se limite a «ser ele mesmo», e escrever sobre o que lhe interessa. Há de tudo, portanto. É uma questão de cabeça e de carapuça, e de interpretação.

Eu pessoalmente estou convencido que o Rui tinha um alvo definido quando lhe foi solicitada a opinião. Diz o artigo da Visão, citando o Rui Tavares: «os blogues de apoio a partidos têm "a doença comum do aparelhismo partidário": "São escritos por pessoas interessadas nas suas carreiras políticas e destinam-se a ser lidos como a voz do dono, transformando vozes próprias em deputados de terceira fila."». Referia-se, como me parece óbvio, ao caso do Jamais. Eles sim, simples correias de transmissão, mal oleada, de uma voz se nexo e propósito. Eles sim, representam a interpretação primária da política 2.0. Reúnem um conjunto de acólitos em torno de um não-projecto.

Aqui no Simplex, tocamos numa outra partitura. Aqui a qualidade da nossa pluralidade é mandamento. Não obstante irmos todos votar PS em Setembro, são muito poucas as vidas que daqui se cruzam com a do Partido (e eu até sou uma dessas). Por isso não entendi, na altura, o que o Rogério escreveu sobre o Rui; assim como não entendo o que o Bruno hoje escreve, sobre o mesmo assunto. Não entendo a necessidade que tiverem de se virem justificar, não entendo como não decifraram o destinatário da declaração, e não entendo ainda como não vem na pessoa (e na personna) do Rui um elemento nosso, e o trataram como um «deles» (sejam «eles» o que forem).

O Rui, e com isto termino, faz parte da um grupo sociológico cada vez mais consistente que gravita entre a «ala direita» do bloco e a «ala esquerda» do PS. Um grupo progressista - se quisermos - que procura promover em Portugal, como um discurso de exigência, as reformas necessárias que permitam que mais gente viva melhor, com mais igualdade de oportunidades, mais direitos, liberdade e cosmopolitismo (frase do Miguel Vale de Almeida, segunda-feira no DE). O Rui é, portanto, um dos nossos, e não «deles». Pode não ir votar PS, mas não me importo. Importo-me mais com o que tenho com ele em comum (que é muito), do que dele me separa (que, por vezes, nem é assim tanto).

Bem sei que ainda somos uma democracia jovem, uma meia-democracia, como refere o Bruno Reis, mas temos de perder a mania de por tudo nos picarmos e de tudo nos defendermos. São muitos os casos em que – em política – nos agarramos ao que nos separa, e não ao que nos une; e, apesar da política partidária viver em torno do que nos afasta, a política para o país tem de ser construída em torno do que nos agrega. No resto, venha de lá essa carapuça.

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