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SIMplex

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23
Jul09

Pessoas com a mesma informação chegam necessariamente às mesmas conclusões

João Galamba

No blog da SEDES, Vítor Bento acusa os defensores do TGV de praticarem Voodoo Economics nas suas análises custo-benefício. O que é o Voodoo Economics? É uma projecção que carece de objectividade. No caso do TGV — e, por implicação, em grande parte dos investimentos proposto pelo PS —o problema é que parte da rentabilidade esperada do projecto depende "de componentes da mais pura e arbitrária subjectividade”, como os "benefícios obtidos com a redução do tempo médio de viagem das travessias sobre o Tejo" , a "redução dos custos operacionais dos carros que dessa forma se consegue e pelo impacto positivo em termos ambientais", o "aumento de produtividade". Ficamos a saber que intangível e dificilmente quantificável são sinónimos de pura arbitrariedade. E ficamos também a saber que Vítor Bento defende uma bizarra e misteriosa metodologia  de análise de projectos, pois todas as avaliações dependem de interpretações subjectivas.


Vítor Bento exige objectividade quando ela é impossível. Investir implica uma visão do futuro, e o futuro, por definição, não é objectivo. Podemos tentar antecipá-lo, é certo; mas a certeza que a objectividade exige será sempre uma ilusão. Se só agíssemos na absoluta certeza de que controlamos todas as variáveis, a acção seria impossível. É verdade que podemos procurar gerir o risco, mas este depende de uma noção de regularidade estatística — esse consolo existencial — dificilmente aplicável à realidade económica actual. É verdade que há riscos excessivos, mas aqui entramos necessariamente no campo dos juízos valorativos. Vítor Bento pode não gostar, mas a política não é física. Não digo que não se deva estudar e tentar prever. Digo apenas que estes estudos não podem substituir aquilo que no final são, e serão sempre, decisões políticas fundamentadas numa interpretação da realidade que é tudo menos objectiva.

Em rigor, Vítor Bento devia substituir objectividade por prudência, pois os seus conselhos não são científicos, são exortações morais baseadas numa interpretação — a sua — daquilo que é a realidade. Isto não é necessariamente uma crítica, desde que ele reconheça esse facto e saiba tirar daí as devidas conclusões. Mas tirar daí as devidas conclusões implica avançar para uma discussão política sobre o futuro de Portugal, e apresentar alternativas. E implicaria, sobretudo, falar dos riscos de não fazer certas escolhas. No entanto, Vítor Bento colocou-se numa posição a partir da qual tal se afigura impossível: uma discussão política pressupõe uma visão de futuro, e esta requer uma boa dose de "componentes da mais pura e arbitrária subjectividade”. A conclusão lógica das críticas de Vítor Bento é: urge abandonar de vez todos os pressupostos optimistas que não respeitam a nossa realidade! Reconheço que é uma opção possível, mas tem um problema: se não se procura construir o futuro, ele acontece-nos. Para quem pensa assim, é natural relacionar aumentos de produtividade com redução de salários.
 

 

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