Por Hugo Mendes | Terça-feira, 11 Agosto , 2009, 00:18

O Diário Económico publicou esta segunda-feira uma entrevista com José Gil, um dos "25 pensadores sistemáticos mais importantes de todo o mundo", como lembra a entrevistadora. Aparentemente, José Gil lançou recentemente um livro intitulado "Em busca da identidade, o desnorte".

 

A frase escolhida como título da peça no interior do jornal é esta: «O chico-espertismo é uma característica de Portugal». Depois de ler a entrevista, sai reforçada a ideia que tinha do autor. Pode ser um filósofo extraordinário, mas diz coisas sobre a sociedade portuguesa que são verdadeiras banalidades, no melhor dos casos, e preconceitos preguiçosos, no pior.

 

Todo o discurso sobre o "chico-espertismo" é verdadeiramente espantoso. Porque a entrevista não está on-line, vale a pena transcrever um excerto:

 

«P - É difícil crescer em Portugal?

R - Não há estímulos exteriores. O Nietzsche fala dos "pequenos prazeres", termo que se aplica a nós. Gostamos do lazer, o que é bom porque não sofremos o 'stress' do trabalho. Mas porque é que os portugueses gostam tanto da inércia?

 

P - Explique-me.

R - É o pequeno gozo das coisas materiais, aquilo a que chamo chico-espertismo. Trata-se de uma forma de fuga ao trabalho e, paradoxalmente, de afirmação. Por essência, o portugues não é preguiçoso - quando emigra é dos melhores trabalhadores. Mas cá ainda vivemos numa espécie de mundo onde o lazer está na ordem das preferências.

 

P - Fale-me desse chico-espertismo.

R - O prazer do lazer e do não trabalho é um traço que vem do chico-espertismo. De certa maneira, acontece porque vivemos numa sociedade que nos empurra para isso. (...)»

 

A única coisa que me apetece dizer quando leio este discurso é que talvez valesse a pena José Gil para fazer um périplo durante umas semanas por algumas empresas no "país real" com um caderno de notas e 3 ou 4 livros de sociologia (e filosofia) do trabalho na mochila.

 

Talvez então se apercebesse que o "chico-espertismo", onde e quando existe, é facilmente explicado e compreendido pela forma como se trabalha em tantos sítios em Portugal: sob que relações de autoridade, a troco de que salário, com que compensações simbólicas, com que opções de subir na "carreira", com que possibilidade de articular a vida privada com a profissional, etc.

 

Talvez percebesse que é em ambientes laborais cooperativos, onde os salários não são de miséria, onde as pessoas não são mal-tratadas ou humilhadas (ou assediadas sexualmente), onde há perspectiva de ser recompensado no futuro pelo que se dá à organização, etc., que as pessoas tendem a estar motivadas e aceitam ser "workaholics".

 

Talvez percebesse como a reciprocidade e o respeito mútuo - para além das qualificações e competências, claro - são alavancas da produtividade (infelizmente, ignoradas ou esquecidas não apenas por empregadores com o 6.º ano da escolaridade, mas pelos grandes filósofos vivos do planeta também).

 

Talvez percebesse que os "pequenos prazeres", o "pequeno gozo das coisas materiais", é o espaço fora do trabalho, privado ou colectivo, que as pessoas conseguem construir para se proteger do não-reconhecimento material e simbólico de que tantas vezes sofrem dentro das empresas.

 

Talvez percebesse que não há "paradoxo" nenhum entre a tal "fuga ao trabalho" e a tal "afirmação" individual. As pessoas tendem a afirmar-se fora do trabalho quando não encontram reconhecimento e compensação simbólica e material no e através do trabalho.

 

Se percebesse isto, em vez de lhe chamar "chico-espertismo", talvez lhe chamasse - um pouco mais hegelianamente - a luta pelo reconhecimento e pela dignidade que milhões de portugueses só encontram fora da esfera laboral.

 

José Gil pode ser um dos 25 "pensadores sistemáticos mais importantes do mundo", mas nos domínios da antropologia, da sociologia e da psicologia do trabalho o que diz está ao mesmo nível pedestre da conversa dos cartazes do CDS. Isto é um pensamento um bocadinho preguiçoso, ou melhor, um pensamento chico-esperto.

 

 

P.S: - Uns anos antes da sua morte, John K.Galbraith escreveu algumas linhas excelentes para perceber o que está em causa:

 

The problem is that work is a radically different experience for different people. For many - and this is the common circumstance - it is compelled by the most basic command of life: It is what human beings must do, even suffer, to have a livelihood and its diverse components. It provides life's enjoyments and against its grave discomforts or something worse. Though often repetitive, exhausting, without any mental challenge, it is endured to have the necessities and some of the pleasures of living. Also a certain community repute. Enjoyment of life comes when working hours or the workweek is over. Then and then only is there escape from fatigue, boredom, the discipline of the machine, that of the workplace generally or of the managerial authority. It is frequently said that work is enjoyed; that common assertion is mostly applied to the feelings of others. The good worker is much celebrated; the celebration comes extensively from those who have escaped similar exertion, who are safely above the physical effort.

Here is the paradox. The word 'work' embraces equally those for whom it is exhausting, boring, disagreeable, and those for whom it is a clear pleasure with no sense of the obligatory. There may be a satisfactory feeling of personal importance or the acknowledged superiority of having others under one's command. 'Work' describes both what is compelled and what is the source of the prestige and pay that others seek ardently and enjoy.

But that is not all. Those who most enjoy work - and this should be emphasised - are all but universally the best paid. This is accepted. Low wage scales are for those in repetitive, tedious, painful toil. Those who least need compensation for their effort, could best survive without it, are paid the most. The wages, or more precisely their salaries, bonuses and stock options, are the most munificent at the top, where work is a pleasure. This evokes no seriously adverse response. (...) That the most generous pay should be for those most enjoying their work has been fully accepted.

(...)

The extent and depth of the fraud inherent in the word "work" is evident. However, little criticism or correction comes from scholarly precincts. Professors in all reputable universities limit their hourly teaching and seek and receive their time off for research, writing or rewarding thought during sabbatical years. This escape from work, as for some it is, comes with no sense of guilt.» (págs.17-20)  

 

Este livrinho de 60 páginas é precioso, e ensina-nos mais sobre o trabalho do que tudo o que José Gil poderia provavelmente escrever sobre o assunto.



Vera Santana a 11 de Agosto de 2009 às 10:26
O que o Hugo Mendes postou da entrevista com José Gil pode aplicar-se (noção demasiado mecânica) ao Brasil onde, ao que parece, o stress é bastante reduzido e o samba e o churrasquinho muito importantes. Pode aplicar-se a vários grupos sociais. Pode aplicar-se a grupos sociais de países do norte europeu onde o lazer semanal de beber uns valentes copos é o prazer nacional.

No entanto, gostaria de relembrar os conceitos de Hoffstede no que respeita a traços culturais que distinguem os países entre si: um Sul onde os valores predominantes serão a sociabilidade e a socialidade, um Norte onde predominam os valores de sucesso pelo trabalho.

Creio que as interpretações de José Gil não são psicologizantes, uma vez que ele refere que se não trata de características intrínsecas dos portugueses, uma vez que, fora de Portugal, os comportamentos perante o trabalho mudam. Assim, trata-se de uma explicação de natureza sociológica: é neste país que se verificam estas atitudes de amor ao lazer dos portugueses.

Na base destas afirmações estarão, provavelmente, conceitos de Weber sobre a "cultura" protestante e o desenvolvimento do capitalismo, tese escrita em 1905 e que ainda tem, grosso modo, validade. É necessário fazer entrar no quadro explicativo outros factores.

De então par cá muito se exaltaram prazer e lazer, nomeadamente com o movimento do Maio de 68 e o impacto do mesmo sobre a Europa ocidental e capitalista. O desejo de prazer imediato tem um impacto colectivo a partir daquele movimento.

Resumindo, julgo que é preciso operar mudanças nas organizações de trabalho, no sentido de uma maior participação e de um real reconhecimento de cada trabalhador; julgo que é preciso mudar instituições que regem o mundo laboral, pois não se pode exigir a trabalhadores precários que "vistam a camisola da empresa". Julgo que é preciso reconhecer os traços específicos dos países do Sul e, com base neles, reforçar formas de solidariedade e de coesão social.

Não é preciso lançar José Gil à fogueira.

Voltarei ao assunto,

Vera

Hugo Mendes a 11 de Agosto de 2009 às 12:11
Cara Vera,

As explicações de José Gil não são bem "sociológicas", embora apelem para uma entidade abstracta que é suposto explicar porque as pessoas agem como agem ("porque vivemos numa sociedade que nos empurra para isso"). Isto não tem grande coisa de sociologia, mas tem muito de senso comum.

Quanto à tese de Weber, não estou nada convencido que, 100 anos depois e com todo o conhecimento histórico que temos da formação do capitalismo, ela continue a ter grande validade. Eu não sou grande adepto do culturalismo, que me parece uma forma fácil de encaixotar os países e os valores e comportamentos das pessoas sem ter que fazer pesquisa empírica (tirando a que é feita via inqúeritos atitudinais) - como José Gil, manifestamente não fez, nem me parece que conheça a que exista.

Quanto à exaltação do lazer e do prazer pós.Maio 68, quem exultou com isso? Os operários? Os empregados de caixa do supermercado? Os agricultores? A mim parece-me que quem se libertou foram os estudantes universitários que, há 50 anos, eram, na sua maioria, filhos de famílias relativamente abastadas.

O seu último parágrafo toca, a meu ver, no essencial. E é aquilo que José Gil nem sequer sonha em mencionar, porque a sua sensibilidade hermenêutica para compreender como e porque as pessoas agem parece-me extremamente reduzida.

E quando um dos "grandes filósofos vivos" tem um discurso gratuito, arbitrário e ignorante sobre um dos grandes temas da actualidade política e da vida das pessoas, não me parece que haja grande problema em lançá-lo à fogueira :)

cumprimentos
Hugo

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