Por João Constâncio | Terça-feira, 18 Agosto , 2009, 17:00

No texto A arte de ter sempre razão, Schopenhauer faz uma distinção bastante interessante. Uma coisa é argumentar ad hominem, outra é argumentar ad personam. A primeira consiste em partir das proposições aceites pelo oponente e procurar demonstrar que estão em contradição com outras proposições que ele já concedeu, ou que têm consequências absurdas, ou que são desmentidas por um exemplum in contrarium, ou que simplesmente não são prova do que ele pretende provar. Isso é diferente de argumentar ad rem, ou seja, de procurar a verdade sobre um dado tema independentemente das concessões do oponente com quem se discute.  Mas argumentar ad personam é ainda outra coisa diferente: neste caso, trata-se de renunciar a todo o tipo de argumentação racional (mesmo que sofística) e atacar simplesmente a pessoa que se pretende levar de vencida. A relação entre o assunto em causa e as características dessa pessoa é obviamente acidental. Pode até tratar-se da pior pessoa do mundo — isso, por si só, nunca implica que não tenha razão. Mas o estratagema de argumentar ad personam consiste precisamente em fazer crer nesse tipo de implicação — em fazer crer que do facto de uma pessoa ter estas ou aquelas características (comprovadas ou não) resulta necessariamente que ela não pode ter razão no assunto que se está a discutir. A desonestidade intelectual desta forma de argumentar não impede aqueles que a praticam de falar em nome da “ética”. Infelizmente, estou convencido de que até ao dia das eleições a oposição, e em especial o PSD, vai apostar tudo na argumentação ad personam. Que já abdicou há muito de qualquer tipo de argumentação ad rem, vê-se claramente no facto de basear o seu discurso na absurda ficção de que não há relação entre a crise internacional e a crise nacional. Como a “Política de Verdade” tem esse extraordinário ponto de partida, não restam dúvidas: vamos ter insinuações sobre o Freeport até ao dia 27 — e, além disso, apenas o que alguma comunicação social for capaz de inventar. Os mais recentes posts do Dr. Pacheco Pereira no Jamais e a notícia de capa do Público de hoje deixam bem claro o que aí vem. 


Por João Constâncio | Domingo, 16 Agosto , 2009, 18:44

Um tal João Gonçalves (que não sei quem é, e que certamente também não me conhece) anunciou há pouco no Jamais que me caracterizo por ser “filho do outro”. Isto indigna-o, ao passo que a mim me orgulha. Ambas as coisas são, no entanto, irrelevantes. Gostava só de comunicar aos interessados que tenho 38 anos e sou docente universitário desde 1996. Não sou uma criança, nem estou propriamente desacostumado de pensar pela minha própria cabeça. Devo notar também que não escrevo nem pretendo escrever como especialista em economia. Acho apenas que os dados divulgados esta semana são muito importantes, e que a reacção da oposição, especialmente a de MFL, implica um grau de demagogia verdadeiramente chocante. Não é preciso saber muito de economia para perceber isso. Quase basta saber um pouco de lógica. Por fim, quero só acrescentar que os meus posts no SIMplex não estão abertos a comentários precisamente por haver tantas pessoas acostumadas a praticar assassínios de carácter sumários, e menos a comentar o conteúdo de textos. 


Por João Constâncio | Domingo, 16 Agosto , 2009, 12:00

Na quinta-feira, quando saiu a notícia de que o PIB cresceu 0,3% no último trimestre, pensei que MFL iria ficar sem discurso. Até esse momento, o seu discurso tinha apenas quatro ideias: 1) Portugal está em crise, 2) A causa dessa crise são as políticas do Governo, 3) essa crise não tem nada que ver com a crise internacional, 4) Sócrates é um aldrabão. Como conciliar estas ideias com o facto de Portugal ter sido um dos únicos cinco países europeus a apresentar algum tipo de crescimento económico desde o afundamento geral em Setembro de 2008? Como negar toda e qualquer relação (mesmo que ténue) entre as políticas do Governo e o facto de Portugal ter sido um dos últimos países europeus a entrar em recessão económica e um dos primeiros a apresentar sinais de recuperação? Certamente MFL não ignora que haver crise resulta de não haver crescimento económico? Certamente também não ignora que o desemprego só baixará se passar a haver crescimento económico? Não, claro que não ignora — ela própria tem afirmado repetidamente que os problemas do País (incluindo o desemprego) só se resolvem quando forem criadas condições para que haja crescimento económico.  Como MFL não disse nada na quinta-feira, concluí que tinha ficado mesmo sem discurso. Só lhe restava a ideia de que Sócrates é um aldrabão. Não que isso seja pouco. Pelo menos enquanto o caso Lopes da Mota não estiver encerrado, há toda uma bolha mediática que pode continuar a ser explorada até ao dia das eleições. Mas ter apenas isso é diferente de dispor de um discurso que articule um raciocínio e que apele directamente à carteira dos Portugueses: “é do facto de Sócrates ser um aldrabão que resulta, infalivelmente, a crise em que o País se encontra”. Na sexta-feira, quando saiu a notícia de que o desemprego subiu para 9,1% no último trimestre, MFL falou. Sem dúvida que precisou de muito sangue frio. Não é qualquer um que consegue dizer que os números do PIB se explicam pela evolução da crise internacional, mas o números do desemprego se explicam pela evolução da crise nacional. MFL já estava habituada a insistir na ficção de que a crise internacional e a crise nacional são duas coisas separadas. Mas agora acrescenta que os números do PIB e os números do desemprego também são coisas separadas. E isto é realmente novo. Afinal, a nossa crise não tem nada que ver com o crescimento económico, visto que este flutua exclusivamente em função da crise internacional e diz respeito apenas à crise internacional. Afinal, a nossa crise é apenas uma crise de falta de emprego, que não está relacionada com a falta de crescimento económico (pois, se estivesse, estaria relacionada com a crise internacional). Afinal, não há qualquer relação entre o emprego e o crescimento económico. O facto de o desemprego ter aumentado menos neste trimestre do que no anterior é irrelevante; o facto de os números do desemprego tardarem sempre a acompanhar os do PIB, também (visto que nem há relação entre eles). Tudo isto configura uma teoria económica heterodoxa, e o Português em que MFL costuma exprimir-se também não ajuda a esclarecer a subtileza da sua análise, mas eu atrevo-me a dar uma ajuda. É assim: 1) Portugal está em crise, 2) A causa dessa crise são as políticas do Governo, 3) essa crise não tem nada que ver com a crise internacional, 4) Sócrates é um aldrabão.

Veja o vídeo: http://noticias.sapo.pt/info/artigo/1011745.html

 


Por João Constâncio | Sábado, 15 Agosto , 2009, 12:42

Na reacção aos números do desemprego no último trimestre, todos os partidos da oposição estiveram de acordo: esses números “desmentem” o Primeiro Ministro. Com pequenas diferenças de forma, esta ideia foi formulada assim: “o PM afirmou na quinta-feira que o crescimento de 0,3% do PIB representava o princípio do fim da crise, e no entanto a revelação, na sexta-feira, dos números do desemprego deixou claro que, afinal, a crise ainda não acabou”. Na verdade, o PM disse expressamente que o crescimento de 0,3% não representava o fim da crise. Mas, mesmo que não tivesse dito, a própria expressão “o princípio do fim da crise” implica que se trata de uma crise que ainda não acabou. Dizer que começou um processo que pode conduzir ao fim de uma crise não é o mesmo que dizer que esse processo está concluído e que, portanto, a crise já passou. Mas pode parecer que é o mesmo — e se várias pessoas repetirem muitas vezes que é o mesmo, pode ser que muitas outras pessoas acreditem que é o mesmo. Pois, pois pode...


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Estou numa dúvida: a oposição não foi eleita para ...
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