Tem surgido, um pouco por todo a parte, na senda neoclássica, e vividas as experiências (controladas e localizadas) dos anos oitenta, a ideia de que é unicamente com a descida de impostos que a economia voltará a funcionar, pelo choque da oferta agregada. Sucede, porém, que, para além da mencionada oferta, a procura efectiva global não é uma abstracção. Daí que John M. Keynes tenha dito que não há um só equilíbrio na economia, como pretendia Léon Walras. E o que acontece ainda hoje é que há quem continue a pensar que o velho e estático equilíbrio geral walrasiano ainda existe. Nas palavras de Irving Fisher, “é absurdo assumir que, no longo prazo, as variáveis económicas, total ou parcialmente, possam permanecer estáveis, em perfeito equilíbrio, assim como poder alguma vez ver o Oceano Atlântico sem ondas” (The Debt-Deflation Theory of Great Depressions, 1933).
É verdade que os modelos até aos anos setenta reconheciam que as expectativas influenciavam o comportamento dos agentes económicos, mas que não as incorporavam explicitamente. Robert Lucas assumiu, contudo, que os modelos apenas capturavam as relações entre as variáveis económicas no passado, tendo em conta as políticas pretéritas. Ora, sempre que as políticas mudavam, as expectativas dos agentes económicos deveriam mudar e, consequentemente, as simulações macroeconómicas deveriam passar a ter isso em consideração.
É preciso dizê-lo com muita clareza: perante a ameaça do desemprego (que corrói a coesão social, a confiança e as expectativas dos agentes) é fundamental não ficar pelo wishfull thinking do redimensionamento abstracto do Estado, nem pela ilusão do equilíbrio económico único. Só essa tentação pode levar a acreditar na varinha mágica dos desagravamentos fiscais inconsistentes e sem limites (à espera do milagre da multiplicação dos pães.
Franklin D. Roosevelt, adorador do mercado como o único regulador, na liberal América, percebeu que a coesão social exigia que o Estado assumisse responsabilidades transitórias, mas claras. E hoje sabemos que não podemos cometer o erro antigo de tentar seguir Keynes esquecendo que foi o mesmo que nos ensinou que, num caso de desemprego como o actual, e existindo ainda um grande potencial de requalificação da economia portuguesa, não há alternativa se a sociedade não investir.
As medidas de redução de receitas cegas e tomadas de modo indiferenciado sem atender à conjuntura do emprego conduzem ao desastre certo… como no dia em que o Oceano Atlântico deixasse de ter ondas…
(artigo publicado no Diário Económico)