Por Eduardo Pitta | Sexta-feira, 25 Setembro , 2009, 20:22

Na recta final da campanha permito-me ser pleonástico. Domingo é preciso votar no Partido Socialista. Não vou falar das razões de natureza económica ou fiscal. Este blogue reúne contributos mais do que suficientes para esgotar o tema. E quem diz economia e fiscalidade diz saúde, educação, justiça, ambiente, energias renováveis, política externa, cultura, investigação e ensino superior.

 

Vou antes lembrar o óbvio: as questões civilizacionais. Aquilo a que a opinião de direita, com trejeitos maliciosos, chama questões fracturantes. Coisas simples de que depende a dignidade e o progresso das sociedades. Estou a pensar na possibilidade dos casais inférteis poderem recorrer à procriação medicamente assistida; em leis que acautelem os direitos de quem vive em união de facto; no casamento entre pessoas do mesmo sexo; na possibilidade de divórcios não litigiosos; na integração social dos imigrantes; nas leis da paridade, etc. Nenhum país moderno pode viver ao arrepio das mudanças civilizacionais.

 

Há cem anos, o divórcio era um anátema. Hoje é um lugar-comum. Há 35 anos, uma mulher não atravessava a fronteira sem o consentimento do marido. Há 35 anos, a polícia prendia homossexuais acusando-os de vagabundagem. Há 35 anos, o casamento religioso era indissolúvel. Felizmente, tudo isso ficou para trás.

 

Em 35 anos de democracia, muita coisa mudou. Mas, se pudesse, a direita punha um travão no que ainda falta mudar. Votar no Partido Socialista é apostar numa sociedade mais justa.

 


Por Eduardo Pitta | Quinta-feira, 24 Setembro , 2009, 16:53

Quando Manuela Moura Guedes foi afastada do Jornal Nacional, Pacheco Pereira protestou. Fez bem. O afastamento da apresentadora era um sinal claro de “asfixia democrática”, disse.

 

A semana passada, o Diário de Notícias divulgou os contornos de uma cabala política, com epicentro na Casa Civil do Presidente da República, visando desacreditar o governo. O assessor responsável (o silêncio do PR cauciona o raciocínio) foi demitido. Pacheco Pereira desafiou o Chefe de Estado a explicar-se antes das eleições. Fez bem. Afinal de contas, o silêncio autoriza as piores suposições. E contaminou a campanha eleitoral.

 

Não contente, Pacheco Pereira descobriu uma Operação Diário de Notícias. O DN é acusado de enfraquecer o Presidente da República e de violar todas as regras do jornalismo: «para obter um efeito político deliberado [o DN] cometeu vários crimes».

 

Não é extraordinário? E eu a pensar que Pacheco Pereira era um defensor acérrimo do tipo de jornalismo que justamente celebrizou Bob Woodward e Carl Bernstein. Enganei-me. Do lado de cá do Atlântico o escrutínio independente é crime. É pena.

 

 


Por Eduardo Pitta | Quarta-feira, 23 Setembro , 2009, 20:57

A direita, em particular o PSD, diabolizou o computador Magalhães. Engodo, trafulhice, contrafacção, negócio escuro, propaganda, tudo serviu de pauta. As crianças assim, as crianças assado. Comentadores conspícuos escreveram artigos e deram entrevistas de que um dia vão ter vergonha. A mim, por ter escrito que a iniciativa de distribuir computadores pelas escolas teria efeitos equivalentes ao de uma campanha de alfabetização maciça que tivesse sido feita em 1900 (não foi, o que explica o nosso atraso endémico), chamaram-me os nomes do costume.

 

Eis senão... que hoje se soube que os computadores previstos para distribuir no presente ano lectivo vão chegar com algumas semanas de atraso, isto é, na vigência do próximo governo (as eleições são daqui a quatro dias). E não é que caiu o Carmo e a Trindade?

 

Pode lá ser, grita o PSD, gritam os professores da Fenprof, gritam os sindicalistas social-democratas, gritam todos à vez. A engenhoca, que ainda há 24 horas não servia para nada, mobiliza a oposição de direita: as crianças estão em transe, os pais viram as expectativas goradas, o melhor mesmo é suster o ano lectivo! Dirigentes do PSD falam de «desculpas de mau pagador» para justificar o inadmissível atraso.

 

Ainda me lembro das manchetes aleivosas, corroboradas na televisão por gente respeitável... «Magalhães à venda na Feira da Ladra» / «Os miúdos estragam aquilo e depois vão vender à Feira da Ladra». Bora portanto ao Campo de Santa Clara!

 


Por Eduardo Pitta | Quarta-feira, 23 Setembro , 2009, 13:12

O assunto já aqui foi trazido (e bem) pelo Porfírio Silva. Mas nunca é demais insistir.

 

 

A generalidade dos media anda há dias a martelar uma decisão do Conselho Superior da Magistratura. Porquê? Porque essa decisão afecta o juiz Rui Teixeira. Manipulando factos, há quem fale de “carreira congelada”. E todos apontam o dedo a três membros do CSM nomeados pelo Partido Socialista: Alexandra Leitão, Carlos Ferreira de Almeida e Rui Patrício.

 

Sucede que a proposta de suspensão da avaliação do juiz Rui Teixeira partiu de Laborinho Lúcio, nomeado pelo Presidente da República para o CSM.

 

Laborinho Lúcio fez a proposta antes das férias judiciais. A recomendação foi aprovada com nove votos a favor, dois contra e uma abstenção. Foi o antigo ministro da Justiça de dois governos de Cavaco Silva quem propôs ainda “avocar ao Plenário” o processo de inspecção ordinária do juiz Rui Teixeira.

 

Afinal, está pendente um processo contra o juiz Rui Teixeira: o pedido de indemnização ao Estado feito por Paulo Pedroso, por prisão ilegal. Enquanto esse processo não transitar em julgado, é natural que o CSM suspenda a avaliação do referido juiz. De outro modo, seria fazer tábua rasa da Lei n.º 31/2008, de 17 de Julho, que regula o Regime da Responsabilidade Civil Extracontratual do Estado e Demais Entidades Públicas. Ou queriam que a Lei fosse só para inglês ver?

 

Originalmente publicado aqui, com retrato.

 

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Por Eduardo Pitta | Terça-feira, 22 Setembro , 2009, 00:40

No Jornal da Meia Noite da SIC-Notícias, o único que vi, passam imagens de uma conversa de Maria João Avillez com Mário Crespo, repescada do Jornal das Nove. Maria João Avillez é peremptória: no alegado caso das escutas, Fernando Lima não foi a única fonte do Público. Outro membro da Casa Civil do Presidente da República teria feito a sua parte. Crespo pergunta: «Tem a certeza?» A biógrafa de Cavaco Silva faz voto de confiança nas suas próprias fontes.

 

Isto serviu para quê? Para tentar ilibar Cavaco? Ou para dar da Casa Civil do PR a imagem de uma caterva de alcoviteiros?

 

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Por Eduardo Pitta | Segunda-feira, 21 Setembro , 2009, 15:20

Não conseguindo passar uma ideia do que pretende para o futuro do país, o PSD agita o fantasma de uma hipotética coligação do Partido Socialista com o BE. O próprio Louçã dá uma mãozinha ao PSD quando fala de Alegre como de coutada sua. Afinal de contas, por alturas da Primavera, o BE convenceu-se, e quis convencer a opinião pública, de que tinha Alegre do seu lado. A ideia saiu reforçada com o jejum de Alegre nas Europeias. E mais ainda quando Alegre, por opção sua, ficou fora das listas de deputados. Agora, Alegre trocou-lhes as voltas. Estando em jogo a escolha entre direita e esquerda, Alegre apela ao voto no partido que ajudou a fundar. Não tem ilusões: votos de protesto como os do BE apenas contribuem para dar de bandeja o poder à direita. Alegre não brinca em serviço. Nem confunde eleições com saraus de Aula Magna. Portanto, não tergiversou.

 

Mário Soares e Ana Gomes vêem com bons olhos eventuais acordos parlamentares entre o PS e o BE? E daí? Quantos barões do PSD não advogaram já, sem meias palavras, o regresso ao Bloco Central? Significa isso que Manuela Ferreira Leite quer o Bloco Central? Não. Do mesmo modo que uma coisa são as opiniões de Soares e Ana Gomes, naturais em quem se habituou a pensar pela sua cabeça, outra bem diferente os desígnios de Sócrates.

 

O propósito é claro. Assustar os indecisos com a possibilidade de um PREC pós-moderno. Bem pode Paulo Rangel fazer hula hoop, que os portugueses não são parvos.

 

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Por Eduardo Pitta | Domingo, 20 Setembro , 2009, 13:25

As cartas de Valmont a madame de Merteuil, uma vez na posse da marquesa (cf. Les Liaisons Dangereuses, Choderlos de Laclos, 1782), eram propriedade dele ou dela?

 

Hoje não se escrevem cartas assim. Escrevem-se e-mails. Se eu escrevo a alguém e esse alguém publica o meu e-mail, de natureza privada, no seu (dele) blogue, como já aconteceu, está a fazer uso de propriedade sua. Um uso errado, mas isso é outra conversa.

 

Os mesmos que aplaudiram a publicação de um e-mail meu num blogue, estão agora agoniados com a divulgação pública do e-mail de um jornalista para um colega, não obstante o conteúdo do e-mail desse jornalista envolver questões de Estado. Ou seja, questões que dizem respeito à Res publica. Enfim, vou ler outra vez o Laclos.

 


Por Eduardo Pitta | Sábado, 19 Setembro , 2009, 19:18

No domínio da cultura, a direita tem como prioridade o património e a esquerda a criação. São realidades distintas. Verdade que não podemos deixar os monumentos ruir. Do mesmo modo que as artes performativas não podem ficar por conta do arbítrio. Em Portugal criou-se o mito dos subsídios. A opinião pública de direita exige subsídios à agricultura, mesmo sabendo que nabos e hortaliças têm mercado garantido. Mas arranca os cabelos se o Estado criar condições para levar o Emmanuel Nunes a Braga ou a Évora, que por acaso até são cidades universitárias. E quem diz o Emmanuel Nunes diz a Olga Roriz ou o Ângelo. Num país como o nosso, a música, o bailado e a pintura são privilégios das elites. E de elites em sentido muito estrito.

 

O que a experência nos mostra é que os governos do Partido Socialista têm tido o bom senso de equilibrar uma coisa e outra. Nem o património é abandonado à sua sorte, nem a criação fica nas mãos do mecenato privado. Seria fácil comparar números, pois na cultura o investimento dos governos de direita é sempre residual. Mas nem é aí que reside o problema. Trata-se de educar pelo hábito quem não pode ir a Glyndebourne ou ao MOMA. A educação tem custos. Antes de ser outra coisa, a cultura é o resultado de uma educação.

 

Hoje no Económico.

 


Por Eduardo Pitta | Sábado, 19 Setembro , 2009, 12:34

João Marcelino, Um silêncio suspeito (Parte II), hoje no Diário de Notícias.  Excertos:

 


«[...] A reacção de Cavaco Silva é preocupante para a democracia portuguesa.
[...]

 

Um PR não se pode prestar a estes papéis. Ou tem certezas e age, com coragem; ou não tem certezas, e averigua calado. Ora Cavaco Silva não apresentou nenhuma queixa na Procuradoria, não pediu esclarecimentos ao SIS, não demitiu o Governo. De forma irresponsável, permitiu mesmo que se acendesse a fogueira da dúvida.

 

Enquanto não negar responsabilidades pessoais no comportamento do seu colaborador de 20 anos, o PR é suspeito de acusar sem provas, de lançar a instabilidade no País.

 

Acresce um outro aspecto: depois de 27 de Setembro, data em que começará a “averiguar”, já estará eleito um outro primeiro-ministro, que pode ser o mesmo, legitimado pelo voto popular apesar das suspeitas presidenciais sobre ele. Esta não é uma questão de pormenor. Vai com certeza introduzir ainda mais instabilidade num quadro partidário que pode não vir a ter uma solução estável para quatro anos. [...]»

 


Por Eduardo Pitta | Quinta-feira, 17 Setembro , 2009, 16:30

Em regra, nas campanhas eleitorais discute-se tudo menos ideias. Para contrariar o hábito, as Edições Nelson de Matos acabam de lançar uma colectânea de ensaios, Onde Pára o Estado?, coordenada por Renato Miguel do Carmo e João Rodrigues. Sobre diversos temas, escrevem João Galamba, Ricardo Paes Mamede, Marisa Matias, Hugo Mendes, Tiago Barbosa Ribeiro, Filipe Carreira da Silva e Nuno Teles. Ou seja, em vez de esmiuçar as fraquezas ou incoerências de terceiros, os autores dão a conhecer o seu ponto de vista...

 

Ler o resto aqui.

 


Por Eduardo Pitta | Quarta-feira, 16 Setembro , 2009, 17:41

A direita anda nervosa. Melhor dito: a opinião pública de direita, se por tal considerarmos os comentadores encartados, os bloggers oficiosos e alguns profissionais de comunicação. Não deixa de surpreender. Se o país está no estado em que dizem, e a legislatura que agora finda foi o que pintam, não vejo a razão do nervosismo e do azedume. Caramba, só faltam onze dias para as noites que cantam (as manhãs já deram o que deram). Porquê o cepticismo?

 

No fundo, a direita não acredita na exequibilidade imediata do seu projecto. O PSD reedita o discurso da tanga em versão gás paralisante. No limite, propõe uma legislatura de decretos-lei, reduzindo o Parlamento a um berloque para UE ver. O CDS-PP ensaia um justicialismo de feira com eco provável em lares da terceira idade. Nada disto convence os jovens turcos que fazem a opinião pública da direita. Eles leram, estudaram, viajaram, compararam, teorizaram. No fundo, não se revêem na salvação que lhes prometem. Daí à melancolia é um passo. Em períodos de campanha, a melancolia tende ao rancor. Bem ou mal, sabem que é do outro lado que o mundo pula e avança.

 


Por Eduardo Pitta | Terça-feira, 15 Setembro , 2009, 13:01

Faz hoje um ano que faliu o Lehman Brothers, arrastando consigo as economias ocidentais, afectando os oligarcas russos e pondo um fim abrupto ao paradigma de consumo dos últimos 20 anos. Só na UE, governos de todos os quadrantes foram obrigados a nacionalizar 60 bancos (um em Portugal). Dito de outro modo, faz hoje um ano que a crise se instalou de forma inequívoca. Não é todos os dias que, num passe de mágica, desaparecem trinta mil milhões de euros de fundos bolsistas. Os nossos netos vão ser obrigados a estudar o 15 de Setembro de 2008. Nós não precisamos de estudar. Estamos a senti-lo na pele.

 

Contudo, quem ouve os líderes do PSD, do BE, do PCP e do CDS-PP, fica com a sensação que a crise começou há poucos meses, e por responsabilidade directa de Sócrates. Um bocado de decoro não lhes ficava mal.

 

 


Por Eduardo Pitta | Domingo, 13 Setembro , 2009, 11:17

Vou agora começar a ler a imprensa diária. Estou curioso de verificar se alguém pegou na espantosa afirmação de Manuela Ferreira Leite à saída do debate com Sócrates: O que este país precisa não é de mais leis. E sublinhou, preto no branco, que as medidas necessárias não passavam pela Assembleia da República. Isto no momento em que foi inquirida sobre se governaria em minoria. Como forma de subalternização do Parlamento nunca ouvi nada tão assertivo.

 

Não curo de saber das razões do ponto de vista de MFL. Afinal, um governo, qualquer governo, deve obedecer aos seus princípios. Mas supunha que ainda não tínhamos chegado à Madeira.

 


Por Eduardo Pitta | Domingo, 13 Setembro , 2009, 01:55

No debate com Sócrates, perguntada sobre credibilidade,  Manuela Ferreira Leite falou de «uma vida de estudo, uma vida académica, uma vida profissional, muitas conferências, artigos, experiência governativa», etc. Assim se constrói a credibilidade, disse. Mas o país está cheio de mamíferos com igual currículo, e eu não os queria a presidir à Junta de Freguesia do meu bairro, quanto mais à frente do governo! A líder do PSD quer um cheque em branco. Convinha explicar o que quer fazer com ele.

 


Por Eduardo Pitta | Sábado, 12 Setembro , 2009, 13:11

Quando, em Portugal, o reconhecimento das identidades sexuais serve de pretexto a todos os equívocos (mau grado os esforços do actual governo em prol da igualdade e da não discriminação), é bom saber que há nações onde a homossexualidade não é uma coisa qualquer. Em nome do governo de Sua Majestade, Gordon Brown fez ontem um statement pedindo desculpas públicas, post mortem, ao matemático Alan Turing (1912-1954), responsável pela descodificação do código alemão Enigma e, não obstante, internado à força em 1952 por ser... homossexual. Pensar duas vezes, quando se fala de causas fracturantes, com o esgar de repulsa de quem fala de peúgas sujas.

 


Por Eduardo Pitta | Quinta-feira, 10 Setembro , 2009, 11:36

O projecto do BE nunca me interessou. Sou dos que têm idade para se lembrar da UDP e do PSR. Et pour cause. Mas nunca mudei de canal quando Louçã falava. O estilo evangelista perdeu eficácia com a erosão do tempo, mas Louçã tinha-nos habituado a um módico de rigor. Isso acabou. As sondagens fizeram-no perder o pé. [...]

 

Ler o resto aqui.

 


Por Eduardo Pitta | Quarta-feira, 09 Setembro , 2009, 12:24

Para os trabalhadores por conta de outrem, que representam o grosso da população activa, o retorno do imposto retido na fonte, que ocorre todos os anos pelo Verão, é uma espécie de 15.º mês. «Estou à espera do IRS para mudar o frigorífico» / «Assim que o IRS chegar marco viagem para Porto de Galinhas». E outras mil variantes. Entre dívidas por liquidar e pequenas extravagâncias para fazer esquecer onze meses de chumbo, a classe média-baixa (e não tanto a média-média, que é composta por médicos, advogados, arquitectos, docentes universitários, políticos, apresentadores de televisão, etc.) habituou-se a esse retorno. As deduções com despesas de saúde e educação criaram esse pé de meia pós-moderno. Já ninguém passa sem «receber o IRS». Pequenas empresas de contabilidade especializaram-se nesse nicho. A engenharia da devolução do imposto não conhece limites. Cá para mim, que não sou economista, isso traduz uma retenção excessiva na fonte. Mas eu sou um leigo. A maioria das pessoas gosta dessa economia forçada.

 

Ontem ficou a saber-se o impensável. O Bloco de Esquerda propõe a abolição dessas deduções. Dessas, e ainda a dos planos poupança reforma (os famosos PPR que Bagão Félix, quando foi ministro das Finanças de Santana Lopes, também excluiu dos benefícios fiscais). Lá se vai o soi disant 15.º mês.

 

Argumenta o BE: havendo «oferta pública», o recurso ao «privado» é opcional. Nessa medida não faria sentido deduzir despesas com educação e saúde. No tocante à saúde, por exemplo, toda a gente sabe que a «oferta pública» não cobre, em tempo útil (salvo urgências concretas), as necessidades da população. E uma grande parte dela vê-se obrigada a recorrer ao privado. Vejamos o caso dos funcionários públicos, classe que inclui os professores: o médico de família, quando existe, tem uma longa lista de espera; o médico privado surge como solução; a consulta custa, digamos, 90 euros (num médico modesto); esses 90 euros são pagos em cash; o recibo é enviado para a ADSE; ao fim de 60 dias a ADSE reembolsa uma pequena percentagem desse valor (nunca recebi mais de 12 euros por consulta); no fim do ano, a ADSE envia declaração para efeito de dedução no IRS com indicação do valor creditado; os funcionários (e os professores, etc.) deduzem a diferença de forma a obter o retorno devido. O BE quer acabar com isso. Esqueceu-se foi de pôr a proposta nos outdoors. Era bom que o fizesse. Ou trata-se de agenda oculta?

 

Os nossos liberais devem estar exultantes. Finalmente um partido reconheceu as suas propostas. A operação significa esmifrar a classe média-baixa em mil milhões de euros? Mas o que é isso para as vanguardas revolucionárias?

  

 


Por Eduardo Pitta | Terça-feira, 08 Setembro , 2009, 16:00

A entrevista de Louçã ao Público é deveras esclarecedora: «Sou socialista. E sou contra o capitalismo. O socialismo em Portugal, para nós, é um projecto anticapitalista, com todo o gosto pelas palavras e com toda a clareza.» O coordenador do BE, doublé de grande federador da esquerda, quer partir o PS ao meio. A parte boa ficava com ele. Os outros fizessem o que quisessem. A política deve ser reconfigurada à imagem do Die Linke alemão, afirma. Caso contrário acabamos como a Itália.

 

Discurso directo: «Para mim é sempre inexplicável como é que um país como a Itália pode ter um senhor como Berlusconi a federar a direita italiana.» Pois a mim parece-me de meridiana clareza... Se, a pretexto de ódios fulanizados e de interesses corporativos continuarmos a votar contra em vez de o fazer a favor de, acabaremos com uma versão indígena de Berlusconi. É muito simples. Ao contrário da lenda, a história repete-se sempre.

 

Um pouco mais à frente, rejeitando a política de terra queimada, diz que «dar a Ferreira Leite e a Paulo Portas o governo era o mesmo que pôr Dias Loureiro à frente do Banco de Portugal.» E remata: «o PSD é um partido tentacular de negócios que foram protagonizados pelos seus maiores. Foi a estrutura essencial da governação cavaquista que fez o negócio do BPN.»

 

Trata-se, portanto, de reconfigurar a esquerda, de modo a incluir «quem, na altura, fizer parte de uma grande confluência por um programa político que responda ao país.» Ficção por ficção, mais depressa veríamos um governo de iniciativa presidencial, com Eduardo Catroga (PM), Alexandre Relvas (adjunto do PM), Medina Carreira (Finanças), Bagão Félix (Segurança Social), Rui Machete (Justiça), Miguel Cadilhe (Economia), João Carlos Espada (Educação), João Lobo Antunes (Saúde), Marcelo Rebelo de Sousa (Defesa), Joaquim Aguiar (Administração Interna), Martins da Cruz (Negócios Estrangeiros), António Carrapatoso (Obras Públicas), António Borges (Reforma do Estado), Miguel Frasquilho (Agricultura), Maria José Nogueira Pinto (Cultura), Paulo Rangel (Assuntos Parlamentares), etc. E o Nuno Melo à frente do Banco de Portugal, pois claro! Ficção, naturalmente. O pior é que o voto fútil transforma quase sempre a ficção em realidade.

 


Por Eduardo Pitta | Segunda-feira, 07 Setembro , 2009, 19:15

Num país de 11 milhões de habitantes, onde a tiragem dos jornais diários (não estou a contar com os desportivos) é inferior a 350 mil exemplares, quantas pessoas os lêem? E quantas frequentam a blogosfera? Cinco mil? Admitamos que sim. Já agora, qual a percentagem das que não mudam de canal quando chega a hora dos debates?

 

Quando Soares e Cunhal fizeram o deles, o país parou. Mas também parava com a Gabriela. Eram tempos de canal único e a geração que fez o 25 de Abril tinha menos 35 anos do que tem hoje.

 

Agora tudo mudou. O excesso de "análise" e de comentaristas banalizou o debate de ideias e só pequenas minorias urbanas se interessam pela condução da Res publica. Visto de Lisboa ou do Porto, da janela dos blogues e dos restaurantes do costume, o país parece bipolarizado em torno de ideias. Erro crasso. Em Julho de 1975, quando a liberdade esteve por um triz, Soares levou à Alameda meio milhão de pessoas. Nessa altura, quase toda a gente percebeu o que estava em causa.

 

Bem pode o dr. Aguiar-Branco decretar luto nacional pelo encerramento do Jornal de Sexta, e o CDS pedir a convocação da comissão permanente da Assembleia da República pelo mesmo motivo. Se eles soubessem que tinham a opinião pública (a opinião pública não se confunde com meia dúzia de comentaristas nem com os quinhentos fanáticos, em regra anónimos, das caixas de comentários) do lado deles, já tinham convocado uma manifestação em Belém. Em vez disso, Mário Crespo diz (e ainda bem que o pode fazer) que o primeiro-ministro talvez servisse para governar Angola ou a Líbia, mas não serve para governar Portugal. Tem bom remédio: não se esqueça de ir votar no próximo dia 27.

 


Por Eduardo Pitta | Sexta-feira, 04 Setembro , 2009, 11:47

Juan Luis Cebrián, patrão da Prisa, empresa espanhola que detém a TVI, terá mandado acabar com o Jornal Nacional que MMG fazia às sextas. O director-geral da TVI opôs-se, mas não levou a melhor. A ter sido assim, como afirmam os media nacionais, foi uma interferência directa e abusiva na campanha eleitoral portuguesa. Verdade que nenhum patrão admite que um subalterno lhe chame estúpido. Mas uma acção disciplinar não pode traduzir-se em interferências editoriais. Isto tem de ser explicado.

 

Se é verdade que a TVI tem prontas peças jornalísticas sobre novos desenvolvimentos do caso Freeport, ou sobre o que seja, devia tê-las posto ontem no ar. No limite, caso a hierarquia o impedisse, essas cachas deviam ter sido passadas à concorrência. Não podem é dizer: a Manuela não está, as notícias ficam na gaveta. A TVI não é uma banda rock de garagem que fica inibida de ensaiar porque o pai do baterista, irritado com o barulho, desligou a corrente.

 

Estamos todos à espera de ver essas cachas. Nem que seja no You Tube.

 


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