Por Bruno Reis | Sexta-feira, 25 Setembro , 2009, 23:00

Só o PS pode guarantir uma vitória da esquerda nas eleições legislativas.Claro que o PCP e o BE e muita comunicação social e “comentadores” dizem que o PS não é de esquerda.

 
Curiosamente na noite das eleições europeias o BE e o PCP vieram lembrar ao PSD que afinal quem tinha ganho a eleições não era o dito partido, mas sim o conjunto “da esquerda”. Portanto e para esse efeito o PS já era, afinal, de esquerda.
 
Mas o problema de fundo não são palavras de esquerda mas actos. Não se trata de saber quem fala mais ou menos de esquerda, mas quem faz mais. O PS tem uma linha de rumo clara nas últimas décadas e sobretudo nestes quatro anos – modernizar o país, e procurando criar mais riqueza e progredir economicamente, financiar de forma sustentada políticas de apoio aos trabalhadores e aos mais pobres.
 
Nunca a desigualdade cai tanto em democracia como nestes quatro anos de governo PS.
 
Nunca o salário mínimo subiu tanto em democracia como nestes quatro anos de governo de José Sócrates.
 
É verdade que a importância que o PS dá ao Estado como serviço público exigiu um esforço adicional a magistrados, professores e outros funcionários públicos.
 
É verdade que garantir um Estado solvente, exigiu contenção nos salários da administração pública. É normal que não fiquemos (individualmente) satisfeitos com isso. Ou até que defendamos alguns ajustamentos.
 
Mas reformas como a promoção pelo mérito, a loja do cidadão, ou o complemento solidário para idosos são actos (e não meros slogans) de esquerda; de quem quer guarantir melhores serviços públicos para todos; de quem quer faz uma opção preferencial pelos mais pobres e pelos trabalhadores com salários mínimos, mesmo sabendo que segundo os politólogos os pobres votam pouco.
 
Há quem fale muito de esquerda para ganhar votos. E há o PS que faz muita coisa de esquerda mesmo que isso custe votos. Resta saber se aqueles que se dizem de esquerda estão dispostos a ter a coragem das suas convicções e não se deixam levar pelas suas conveniências corporativas.

Por João Galamba | Quinta-feira, 24 Setembro , 2009, 18:37

(Texto da autoria de Gonçalo Marcelo, doutorando em Filosofia na Universidade Nova de Lisboa)

 

Nenhum político pode aspirar à melhoria real da sociedade de cujos destinos se encarrega se considerar o exercício do poder como sendo a manutenção do status quo. Em certo sentido, um bom político tem que ser optimista, é certo, mas também insatisfeito; deve sentir em si a força motriz do progresso, da mudança em direcção a algo de melhor. E deve lutar por isso. Talvez seja esta mistura de confiança e optimismo, mas também de insatisfação e capacidade de luta, aliada aos dons naturais de comunicação que faz com que Obama seja o incrível político que mostra ser.

 

É nesse sentido que a política tem de ser, até certo ponto, utópica – isto é, tem de poder ser atraída pela possibilidade do diferente, pela representação do melhor, que é remetido para um tempo futuro mas que, em última instância, só pode ser obtido através da acção no presente.

 

Certos utópicos constroem sistemas de ideias perfeitas, ou escrevem sobre cidades que realmente não têm lugar. Por vezes, desiludidos com a distância que vai do aqui e agora até à projecção imaginada, desistem da realidade, fogem perante as dificuldades empíricas. Esta é a lógica do tudo ou nada, que a nada mais corresponde que a uma contaminação da realidade pela hipérbole do ideal. É uma má utilização da utopia, que corresponde a uma lógica de fuga. A utopia produtiva, se assim lhe quisermos chamar, é como uma ideia reguladora. Não tem de existir para produzir efeitos. E não tem de ser absolutamente obtida, em todos os seus contornos de projecção ideal, para que nos aproximemos o mais possível dela.



Por João Paulo Pedrosa | Quinta-feira, 24 Setembro , 2009, 00:55

Com o PSD a afundar-se nas sondagens dia após dia, comprometendo, irremediavelmente, as suas possibilidades de vitória, resta-nos agora a atitude política que evite a ingovernabilidade do país, reforçando a votação no PS.

Apelo, por isso, aos nossos vizinhos um gesto patriótico, pois todos sabemos que a vossa intervenção pública é (quase exclusivamente) ditada por razões de carácter patriótico. Aliás, como nunca se esquecem de nos lembrar, a acção patriótica é uma das marcas distintivas entre a vossa direita e a nossa esquerda. 

Chegou a altura de o demonstrarem. 

 


Por Ana Paula Fitas | Sábado, 19 Setembro , 2009, 23:21

Hoje, em Coimbra, no comício do Partido Socialista, Manuel Alegre confrontou o país com a demagogia inerente ao artifício demagógico de Manuela Ferreira Leite que se tem insurgido contra uma "asfixia democrática" que o olhar da líder do PSD reconhece em Portugal e não vê na acção de Alberto João Jardim... seria ingénuo pensar que o recente slogan de Manuela Ferreira Leite não resultara de um cálculo político elementar que tomara em consideração a presumida desavença de Manuel Alegre em relação ao PS... porque foi Manuel Alegre quem, num outro contexto e em relação a realidades específicas e datadas, evocara um certo "clima de medo" que só uma estratégia partidária de direita, com débeis fundamentos e paupérrimo gosto, poderia pensar em evocar para sua defesa contra a Esquerda... Por isso, foi importante a intervenção de Manuel Alegre que ergueu, poética e forte, a sua voz poderosa contra a manipulação... De forma clarividente, Manuel Alegre foi a Coimbra dizer que Portugal foi grande quando foi universal e não quando esteve "orgulhosamente só" e explicou, de forma clara e oportuna, que a asfixia democrática é, nada mais nada menos, do que a asfixia social a que conduz a pobreza resultante da aplicação de políticas de direita, valorizadoras do liberalismo e redutoras da acção social do Estado. Por isso e porque "quando se esvazia um direito social, estão a enfraquecer-se os direitos políticos", defendeu que  "Portugal precisa de um governo de esquerda e a esquerda possível é o Governo PS"  contra "a direita dos interesses", enunciando o desafio que se nos coloca nas eleições que se aproximam: "Recusar um Estado mínimo para os pobres e um Estado máximo para os poderosos"... desta intervenção deveria o PSD retirar uma lição: a de que o plágio, nomeadamente descontextualizado, é abusivo e pode fazer com que "o feitiço se volte contra o feiticeiro" porque só o original sabe defender com lisura as suas deduções porque só ele conhece a intencionalidade da sua enunciação... e é à Esquerda, com o Partido Socialista, que, neste momento, se impede a sujeição dos portugueses à anunciada asfixia democrática que tanta experiência de uso tem já na Ilha da Madeira. 

 

(Este post tem publicação simultânea no A Nossa Candeia e no Público-Eleições 2009)


Por João Galamba | Quarta-feira, 09 Setembro , 2009, 14:15

Para o Bloco, a solução para a pobreza e para as desigualdades é muito simples: estamos perante um problema de redistribuição da riqueza. É o estafado: existem pobres porque existem ricos. Há quem ache que se deve ir por aqui. Eu discordo. Ou melhor: a redistribuição e necessária, mas não chega. É uma fantasia achar que se resolve o problma da pobreza e das desigualdades criando um escalão de 45% de IRS e um imposto sobre as grandes fortunas. Os nossos problemas também não se resolvem nacionalizando a banca, os seguros e o sector energético — e muitos menos se resolvem introduzindo mecanismos de controlo administrativo e burocratico dos juros.


Por Luis Novaes Tito | Quarta-feira, 12 Agosto , 2009, 14:23

EstalineEspreitando em diagonal o missal vermelho (ed.2009)  ficamos a saber que a direita começa no PS e termina no CDS.

 

A epístola reza que a esquerda é o PCP e a CDU (como se não fossem a mesma coisa) e fica no limbo a categorização do BE.

 

Em diagonal, como disse, ficou lido que há por aí uma ruptura patriótica por fazer, mas não se percebe se Jerónimo pede uma maioria absoluta dado que a ruptura é contra tudo e contra todos.


Por João Galamba | Sexta-feira, 07 Agosto , 2009, 19:26

A interpretação da crise actual avançada pelo Bloco ajuda-nos a perceber uma coisa fundamental sobre aquilo que é a sua esquerda. Para o Bloco, o significado desta crise é evidente: estamos perante a falência do neoliberalismo e, consequentemente, uma vitória da esquerda. Posto assim, parece verdadeiro; mas trata-se de uma verdade parcial. Dizer que o neoliberalismo faliu é apenas uma negação, não determina nem afirma nada.

 

Para o Bloco, esta crise demonstrou, na prática, aquilo que já todos sabiam em teoria: o neoliberalismo foi um erro, um nada, um desvio, uma anormalidade — e algo com o qual a sua ideologia nada tem a aprender. A ideia que esta crise nos ensina apenas uma coisa coloca a esquerda do Bloco fora da história, como se esta demonstrasse apenas a ascensão e queda do neoliberalismo — o que é obviamente falso. Se a crise iniciada em 2008 nos ensina muita coisa, é preciso não esquecer que 1989 também existiu. A esquerda não pode apenas deleitar-se com o falhanço do neoliberaliismo; também tem de ser capaz de reconhecer e aprender com a sua própria história — história, essa, que está muito longe de ser imaculada.

 

Mas o Bloco pensa e age como se estivesse absolutamente certo da sua pureza. Por isso, a sua auto-afirmação exige simultaneamente uma diabolização absoluta do outro e uma visão angelical da sua própria inocência. Como disse Francisco Louçã, a política não é feita de compromissos. Daí o seu programa eleitoral descrever uma realidade sinistra criada pelas "políticas de direita" e pelo PS, partido que o Bloco considera estar na vanguarda do projecto neoliberal. O inferno são necessariamente apenas os outros. É por isso que o Bloco é necessariamente conspirativo e moralista: os problemas não são verdadeiros problemas; são defeitos, negociatas, roubos feitos por outros que não o Bloco. Os nossos problemas têm apenas uma causa: o facto do Bloco nunca ter sido poder, esquecendo, convenientemente, que quando esquerdas parecidas com o Bloco tiveram o poder a coisa não correu bem. Mas nada disto interessa quando a história acabou de nos mostrar que o neoliberalismo falhou. Pensa o bloco — mas pensa mal....

 

(continua daqui a umas horas para a semana)

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Por João Galamba | Terça-feira, 04 Agosto , 2009, 03:06

"O governo do PS foi um dos fiéis seguidores da ideologia neoliberal que promove um Estado minimalista. No momento da crise, no entanto, predominou a nacionalização do prejuízo. O capital quer a receita de sempre: espoliação do Estado e esmagamento dos direitos dos mais desprotegidos. Chega a hora de o governo prestar contas pelo aumento do desemprego e da precariedade, pela redução dos salários e pensões, por um código do trabalho que aprofundou o retrocesso civilizacional iniciado por Bagão Félix, pelas privatizações, pelas desigualdades sociais e pela degradação dos serviços públicos. Passados quatro anos de governação, temos um país mais desigual e socialmente mais inseguro, onde o medo impera em muitas empresas e serviços" (Programa do Bloco de Esquerda para as legislativas, pp. 11)


 


Por Ana Paula Fitas | Segunda-feira, 03 Agosto , 2009, 21:13

Vale a pena ler a notícia que, exemplificando um cada vez mais raro mas, precioso, altruísmo político, anuncia mais um significativo apoio à candidatura conjunta da esquerda à CML. AQUI


Por João Galamba | Segunda-feira, 03 Agosto , 2009, 02:55

O combate às desigualdades é uma bandeira histórica da esquerda. O problema do BE e do PCP é o de terem transformado este objectivo político num absoluto que determina toda a sua acção política, esquecendo-se que, sem uma política que também aposte e promova o crescimento económico, uma estratégia de puro combate às desigualdades redunda necessariamente em empobrecimento colectivo. A nossa experiência historica não começou em 2008 — é preciso continuar a ter presente que o socialismo real foi uma tragédia; a sua repetição seria desastrosa. A extrema esquerda tem de ser capaz de reconhecer que as suas receitas tradicionais fracassaram e que um discurso de oposição e combate ao capitalismo não faz hoje qualquer sentido.


Por Ana Paula Fitas | Segunda-feira, 03 Agosto , 2009, 00:00

Em Portugal, como aliás por toda a Europa, problematiza-se, debate-se e equaciona-se a identidade política da Esquerda, processo com o qual a direita se regozija (o caso mais recente veio de Itália), proclamando a inexistência de um projecto europeu de esquerda para a União Europeia ou sequer para a governação nacional de cada um dos países que a constituem... um contributo para a reflexão pode ler-se AQUI.


Por Ana Paula Fitas | Quinta-feira, 30 Julho , 2009, 23:04

Temos ouvido falar pouco da Banda Larga da Esquerda. É pena!... A Banda Larga da Esquerda é essencial para a dinâmica de vitória destas eleições. Se a Convergência de Esquerda é um reforço da esperança para Lisboa, a Banda Larga da Esquerda é importante para que se não perca a mensagem, o desafio e o objectivo político de todos os que não duvidam do prejuízo nacional que resultaria de uma governação de direita... os sinais são mais assustadores e sintomáticos do que provavelmente gostariamos mas, de facto, não é preciso esforço algum para perceber quais as bandeiras da direita e desmistificá-las reduzindo-as à sua natureza demagógica, populista e manipuladora... sob o lema "uma política de verdade", Manuela Ferreira Leite assumiu já que, nem investimento público, nem políticas sociais integrarão o seu eixo de prioridades de acção, deixando claro que perspectiva a proporcionalidade da carga fiscal em função dos rendimentos, designadamente no que se refere aos que se situam muito acima da média, como algo que só se justificaria "se os ricos andassem p'raí a dizer que não sabem o que hão-de fazer ao dinheiro" -expressão de "redutio ad absurdum" do senso comum que se constitui como um atentado a uma democrática e eficaz forma de tentar encontrar respostas justas para a crise que o país atravessa... tal como Alberto João Jardim assumiu que, o que à direita interessa na próxima legislatura, é a revisão constitucional para proibir o comunismo e extinguir o Tribunal Constitucional (o qual, contudo, mereceu à direcção do PSD o maior apoio por ter dado razão a Cavaco Silva em casos polémicos que o próprio PSD votou favoravelmente!), secundado por Pacheco Pereira, Rangel e o silêncio dos restantes. Nesta senda da "verdade", a lógica da direita alcançou um momento alto da sua estratégia eleitoral com os mais recentes cartazes negros do CDS-PP em que se mistura o caso BPN com as PME's de forma a provocar básicas reacções de choque e em que, mais grave ainda, se acusam os desempregados e os pobres que carecem do subsídio social de inserção, de não "quererem" trabalhar! A pergunta que se coloca a uma Esquerda credível e responsável é a de saber se prefere ser cúmplice da tomada do poder político pela direita, em nome da conquista de mais um ou outro deputado que não irá alterar a correlação de forças parlamentar ou, se é capaz de se ultrapassar a si própria em nome do interesse nacional. A Esquerda em Banda Larga ou melhor, A Banda Larga da Esquerda deveria equacionar o problema com seriedade... porque ou se está na política com as pessoas, isto é, com os cidadãos... ou se está na política para servir corporativismos que, sendo legítimos, são, neste momento, dispensáveis e inoportunos... A demagogia exacerbada do olhar único, seja ele de que lado fôr, pode ser sedutora mas é, por certo, contraproducente. A  sensatez e o bem-comum sabem isso, por experiência. A  Banda Larga da Esquerda precisa de todos... e o país justifica o esforço. É isso que os cidadãos querem e merecem... 


Por GWOM | Quarta-feira, 29 Julho , 2009, 00:19

Sempre gostei de um bom debate de ideias, ademais no espaço blogoesférico que frequento, de forma intermitente, desde 2003. Com esta adesão ao blogue simplex, não interrompo a minha independência de opinião, nem pretendo (como qualquer um de nós aqui presente) simular a vinculação própria de uma disciplina de voto.

 

Entendo, contudo, que a hora é de reflexão. A crise financeira (primeiro) e a crise económica (depois), provocaram um rejuvenescimento das políticas financeiras discricionárias e revelaram novos tipos de intervenção do Estado, no curto prazo. Com este novo tipo de intervencionismo, a direita liberal, do Estado mínimo e confiante nos operadores económicos, entrou em crise, por tendencialmente ter encontrado fundamentos no entendimento errado de certos limites (como a consolidação orçamental, que é um meio e nunca um objectivo final das políticas financeiras).

 

É na compreensão da intervenção discricionária do Estado e no seu reforço de poderes no curto prazo, que reforço a minha adesão aos ideais da esquerda democrática. Num Estado sólido, reprodutivo, imune aos grupos de pressão, que assegure as expectativas presentes e futuras e que preencha o vazio da cruel selecção natural que é o facto de não escolhermos onde e quando nascemos.


Por André Couto | Segunda-feira, 27 Julho , 2009, 17:24

O Tiago Moreira Ramalho respondeu rápido ao meu post.

 

Mantenho a convicção que Hermínio da Palma Inácio é património histórico do Partido Socialista tal como é património do País, ao contrário do que diz o Tiago. Os Partidos são feitos por pessoas, não vislumbro o que mais possa ser seu património que os feitos dos seus militantes e daqueles que lutaram na sua estrutura.

O Tiago acusou-me de o associar ao PSD e de cair no soundbyte de ligar os democratas liberais ao fascismo. Estranho pois não falo sequer no PSD, não faço alusão a militância sua e nada do que escrevi se aproxima do tal soundbyte. Falo em inveja da direita, nada mais. Essa suspeita que muita direita tem é estranha, às vezes parece o enfiar de um barrete que nem é estendido. Neste ponto não é o caso do Tiago.

Mais desiludido fiquei quando o Tiago citou de forma perversamente parcial um período do meu post. Isso é feio. O que digo e repito é que, ao tempo, Hermínio da Palma Inácio merecia nomeação, eleição, bem como receber múltiplas honras (e não apenas nomeação) e a acompanhar fiz uma análise do contexto político pós-25 de Abril, período a que António de Almeida Santos se referiu. Repito que com o 25 de Abril se substituíram os governantes depostos por uma nova geração. Assumiram as rédeas do País aqueles que mais lutaram e pugnaram pela desejada mudança, aqueles que, por feitos heróicos ou persistente resistência, decisivamente contribuíram para a ansiada Revolução. Foi algo natural e dificilmente poderia ter sido doutra forma.

É neste contexto (omitido pelo Tiago) que defendo que Hermínio Palma Inácio merecia ter sido nomeado, eleito ou devidamente honrado, tal como muitos outros foram. Parece-me que alguém com o seu perfil se enquadraria, naquele contexto, em múltiplas áreas da governação do País e das suas instituições. Estou certo que o Tiago não acha que António de Almeida Santos se referia a tempos recentes, é que Hermínio da Palma Inácio faleceu há duas semanas, mas com 87 anos...

 

Por fim o Tiago diz que o Estado não é do Partido Socialista, e que Hermínio da Palma Inácio também não é património do Partido Socialista. Sendo Hermínio da Palma Inácio património do País, como defende, não será obrigação do Estado reconhecer os valorosos serviços por ele prestados, num dos períodos mais difíceis da nossa história?


Por João Galamba | Domingo, 26 Julho , 2009, 03:43

Neste post, o Miguel Morgado transforma as diferentes esquerdas numa super-entidade chamada A Esquerda, e confunde vontade de transformação política com uma espécie de plano quinquenal revolucionário. Para além da aglutinação pouco rigorosa das diferentes esquerdas, a crítica do Miguel é, sobretudo, uma apologia acrítica do conservadorismo — ou daquele liberalismo que reduz toda e qualquer intervenção do estado a um proto-totalitarismo.

 

O Miguel recorre a um velho truque da direita: tenta encostar a esquerda reformista à esquerda revolucionária. Segundo esta narrativa, a transformação social não é mais do que uma versão soft e reciclada das velhas utopias da esquerda revolucionária. Ou seja, a esquerda é toda igual: jacobina e perigosa.  Mas a crítica a uma visão estritamente revolucionária e voluntarista da política também tem uma enorme tradição de esquerda. A esquerda social democrata, por exemplo, sempre defendeu o reformismo gradual, sem necessidade de abandonar um horizonte utópico. Basta recordar a posição alguém como Habermas, que é fortemente progressista e rejeita categoricamente o conservadorismo que o Miguel implicitamente propõe.

 

O problema é que o Miguel parte de uma falsa dicotomia. O discussão relevante não é aquela que se limita a discutir abstracções formais como "transformar" vs. "conservar" ou "estado" vs. "sociedade civil". Se aceitássemos esta posição dicotómica, não saberíamos como distinguir entre investir numa vacina para curar a pólio e arregimentar a classe operária para implementar o comunismo, nem entre conceder subsídios para investir em energia e nacionalizar todo o aparelho produtivo, nem entre investir em educação e abolir a família burguesa. A questão que divide a esquerda reformista e a direita não pode ser aquela que o Miguel pretende, pois toda a política — e a de direita não é excepção — comporta necessariamente uma dimensão instrumental: algo tem de ser feito. Ou seja, não há acção política sem transformação social.

 

Contrariamente à sugestão do Miguel, aquilo que se opõe a uma visão tecnológica e burocrática do poder não é  um certo tipo de conservadorismo; é a democracia. (cont.)


Por Irene Pimentel | Sábado, 25 Julho , 2009, 14:03

 

 

Para além da acutilância revelada ao descortinar no texto críptico de Rui Tavares a tentativa de fazer crer que não há diferenças entre PS e PSD, o excelente post do MVA fez-me pensar. Em particular quando se propõe como objectivo tentar estabelecer «pontes e diálogos entre o PS (…) e as muitas e diversas pessoas que se situam politicamente entre o PS e os partidos à sua esquerda (…), parte delas alheias já a essa velha história que medeia entre o 25 de Abril e o 25 de Novembro».

Repentina e recentemente, alguns e algumas passaram a votar BE, reclamando-se precisamente de serem «derrotados do 25 de Novembro» e a criticarem votantes do PS de terem abandonado a «utopia». Não me referindo ao argumento frequentemente usado de que votam no BE, por este partido não ter hipóteses de ganhar as eleições, bem como ao facto de se julgarem proprietários da pureza ideológica, árbitros do «politicamente correcto» e donos até do pensamento de quem criticam, gostaria de lhes mostrar como estão equivocados relativamente ao que pensam que os outros pensam.

Veio-me desde logo à memória o distante ano em que Mário Soares ganhou a segunda volta das eleições presidenciais contra o candidato Freitas do Amaral, fazendo o quase pleno do que se considera «esquerda» (deixo para outra ocasião observações sobre a nomenclatura), alguma da qual teve que «engolir» o chamado «sapo». Eu não engoli sapo nenhum e fui então comemorar essa vitória para a rua. Nos dias seguintes, alguns surgiram a criticar o voto em Soares, muito contentes por serem «consequentes» e, suspeito, aliviados em segredo com o resultado eleitoral. Tendo vivido o 25 de Abril, o PREC e o 25 de Novembro, não me considero derrotada de nada. Ainda bem que as coisas correram como correram!

Quanto à «utopia», como se sabe célebre título da obra publicada por Thomas More, que remete para a raiz grega topos (local), precedido pelo prefixo de negação «u» ou «eu», significando «bem», foi entendida por esse autor simultaneamente como um lugar inexistente, ou «não lugar», e um «bom lugar». A República utópica não está em nenhum lugar porque é perfeita e a perfeição não é realizável na terra, embora possa sê-lo, na ordem política, em resultado da vontade e da acção do homem. Por exemplo, a enorme diminuição da mortalidade infantil em Portugal desde o 25 de Abril era uma utopia, mas que (só) foi possibilitada pela democracia.

Na Revolução Francesa, o modelo de pensar utópico ancorou-se na noção de que era possível o imediato triunfo da liberdade, igualdade e fraternidade, fazendo tábua rasa do passado. Sabe-se como esse momento crucial descambou por isso no terror e no total sacrifício de um dos objectivos, a liberdade, prefigurando aliás o totalitarismo do século XX. Na medida em que pretenderam situar a utopia num local determinado e num momento preciso, através transformação da humanidade e da fabricação de um Homem Novo (de raça ou classe pura), Hitler e Estaline criaram um inferno sobre a terra em que os piores crimes (meios) eram justificados em nome desse magno propósito (fim).

Desde o século XIX, a palavra passou por vezes a designar, de forma negativa, um projecto político ou social que não tinha em conta a realidade e era irrealizável ou irrealista, mas diversos autores deram-lhe porém uma conotação positiva: por exemplo, Lamartine disse que «as utopias são frequentemente verdades prematuras». Para entender as interpretações opostas – positiva e negativa – de utopia, há que situá-la relativamente ao «ideal» e à «ideologia», que tal como a «utopia» tem um lado positivo e outro negativo. Estes opostos podem porém complementar-se e a imaginação utópica pode ser ela própria o remédio para a patologia do pensamento ideológico, cego e estreito, devido à incapacidade deste conceber um «não lugar».

À «utopia dos factos», de natureza totalitária, porque reduz a existência complexa e contraditória dos homens a um programa redutor, pode-se contrapor a «utopia dos valores», que mantém «os ideais» como horizonte. Não estando ao alcance e podendo até não ser atingíveis, estes arrastam os homens para a acção. Embora consciente de que, ao pensar-se dessa forma a «utopia», se pode votar em diversos (mas não em todos) partidos candidatos às Legislativas, deixarei para um futuro «post» os argumentos, relacionados com a forma como se atinge (?) a liberdade, igualdade e solidariedade, que me fazem votar no PS.

 

 

 

 


Por Miguel Vale de Almeida | Quarta-feira, 22 Julho , 2009, 18:58

As crónicas de Rui Tavares são do melhor que a imprensa portuguesa oferece. Ele é mesmo uma das poucas vozes originais e inovadoras - além de escrever com uma clareza que não é comum. A crónica de hoje no Público, todavia, é quase críptica. Estranhei. Não é costume no Rui. Sendo um texto sobre a dinâmica psicológica dos debates políticos, sobre como a partir de um certo momento se exageram as posições antagónicas, numa guerra de posição em detrimento da discussão dos conteúdos, o subtexto é na realidade sobre como PS e PSD se parecem entre si; sobre como as distinções entre ambos serão meramente cosméticas e retoricamente exageradas durante a campanha eleitoral. Esta postura - a ideia da semelhança entre PS e PSD, em parte certeira mas em parte já ideia feita - deveria começar a ser pelo menos questionada. Ela dura há praticamente 30 anos, desde que, por alturas do 25 de Novembro, se deu a cisão entre o PS e o resto da esquerda. Se há críticas justas - e há - em relação ao PS, ao seu papel, ao centrão, etc., há também qualquer coisa de antigo na persistência acrítica desta visão do mundo político, desta classificação que estabelece a linha de ruptura entre o PS e os partidos à sua esquerda em vez de a estabelecer entre o PS e a direita. Não será já altura de questionarmos isto? Melhor: de fazermos algo? De se estabelecerems pontes e diálogos entre o PS (há muitos PS, e não só as facções e correntes organizadas, muitas pessoas diferentes) e as muitas e diversas pessoas que se situam politicamente entre o PS e os partidos à sua esquerda - partidos onde também há pessoas e correntes e sensibilidades muito diferentes, parte delas alheias já a essa velha história que medeia entre o 25 de Abril e o 25 de Novembro? Pessoas que criam, pensam, agem, intervêm, opinam, aderem a associações e movimentos sociais, ora simpatizam com certas propostas do Bloco, ora com algumas do PS, mas sempre sentem a frustração de que há uma clivagem velha entre ambos os campos - uma clivagem que não é só de políticas, é também de… “cultura”? Pela parte que me toca gostava de tentar ajudar a fazer isso. Mas sempre pensei que o Rui seria também uma excelente pessoa para o fazer - sobretudo agora que, com a crise, muita coisa há-de mudar nas práticas políticas das esquerdas. (em estereo)

 

Adenda: Tinha colocado o link errado. Já está corrigido.

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