Por Porfírio Silva | Quinta-feira, 06 Agosto , 2009, 17:57

Na secção "crime" da edição de hoje do i pode ler-se o título “Professor que matou os irmãos estava perturbado com o novo modelo de avaliação”. O professor que, segundo a notícia, matou os irmãos no quadro de uma discussão de heranças, há dez anos que era seguido por um psiquiatra, teria falta de tempo para as funções docentes (talvez por ter de gerir uma padaria com avultada dívida à Segurança Social), tendo chegado a contratar outra professora para fazer parte do seu trabalho docente durante vários meses (uma espécie de substabelecimento do "negócio"?). Mesmo assim, o título que o quotidiano acha apropriado é o que liga o crime à avaliação de desempenho dos professores.

Deveríamos achar extraordinário – se não evidenciasse quão longe foi a estratégia de infantilização dos professores, que alguns deles toleram vá lá saber-se porquê. A coisa não é nova. Daniel Sampaio (Pública, 16/11/08) escreveu que “a avaliação fomenta problemas interpessoais entre professores”, como se eles fossem incapazes de fazer da avaliação um exercício profissional (como fazem tantos outros profissionais altamente qualificados) e só pudessem cair na armadilha de fazer disso uma questão de conflito pessoal. Lídia Jorge (Público, 09/01/09), apesar de algumas considerações sábias, também achou que esta avaliação seria “um sistema que transforma cada profissional num polícia de todos os seus gestos, e dos gestos de todos os outros”. A confusão entre relações profissionais e relações pessoais, misturada com uma concepção paternalista das relações de trabalho, foi chamada a alimentar a revolta da classe profissional – como se alguma classe pudesse ser valorizada com atestados de menoridade.

A estratégia de infantilização serve estratégias de bloqueio, serve as coligações negativas assentes no medo e na recusa sem alternativa, serve a árvore que prefere secar a mover-se. A estratégia de infantilização serve para paralisar tanto o avanço como a verdadeira negociação e o compromisso e, como tal, é a estratégia do vespeiro (cf. Eduardo Pitta no Diário Económico de hoje). O problema dessa estratégia é que o vespeiro em fúria voa em círculos mas não avança. E precisamos mesmo de continuar a avançar.


rui david a 6 de Agosto de 2009 às 19:12
eu não percebo nada da avaliação dos professores.até pode ser mesmo muito mázinha.
mas daí a culpá-la por crimes de faca e alguidar, francamente. Faz-me lembrar quando um professor do Técnico um dia perguntou a um aluno a razão de uma qualquer anomalia que se verificava na leitura de um osciloscópio. O aluno começou a titubear... "é a reacção..." balbuciou. O prof explodiu: "bolas pá não me venha dizer que isto também é por culpa da reacção."

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