Por João Galamba | Quinta-feira, 06 Agosto , 2009, 01:31

Os apoiantes de Ferreira Leite podem aplaudir a lista apresentada pelo PSD. Também podem dizer que é decepcionante — a crítica não é incompatível o estatuto de apoiante. O que não podem é dizer que é irrelevante e escrever, como o João Gonçalves, assumindo o papel de vanguarda (iluminada, claro) da plebe: "Experimente perguntar às pessoas fora deste circuito mediático-intelectual em que todos nós mais ou menos navegamos, o que é que as pessoas pensam do Parlamento e da deputação nacional". Defender que as listas (e o programa) são irrelevantes porque "o povo está-se nas tintas para essas coisas",  é todo um programa. E é um programa que qualquer democrata tem a obrigação de repudiar de forma veemente. Aqui não há a posição do partido A ou B: para um democrata, certas instituições são sagradas. A pergunta que a Sofia deixou ao João Gonçalves (e a todos que pensam como ele), é fundamental:  "Se descrê do regime, porque pactua activamente?"

 

Antecipando uma crítica: os ironistas e os cínicos vêem em toda a reacção apaixonada um exemplo de histeria.  Mas, para um democrata, o compromisso para com as instituições constitutivas da vida democrática não é compatível com ironia ou com cinismo para com essas mesmas instituições. Sei que o João Gonçalves gosta muito de Richard Rorty e de Peter Sloterdjik; tenho a certeza que nunca os entendeu.


José Gomes André a 6 de Agosto de 2009 às 03:38
Caro João, a disputa entre si e o João Gonçalves interessa-me zero, como deve imaginar. Mas esta sua tendência para 1) inferir de qualquer minudência "todo um programa" e 2) decidir o que é que as pessoas "podem dizer" e "não podem dizer" começa a ser francamente insuportável. Cumprimentos...

João Galamba a 7 de Agosto de 2009 às 02:46
José,

"nferir de qualquer minudência "todo um programa"".

Vejo que desvalorizar a importância do parlamento é uma minudência. Bonito, sim senhor.

José Gomes André a 7 de Agosto de 2009 às 02:51
Caro João, a desvalorização do parlamento não tem que ver (pelo menos na minha opinião) com aquilo que o parlamento podia ser, mas com aquilo que ele é "de facto". Eu gostaria muito de ver o parlamento com mais poderes, mas na prática neste momento é um órgão totalmente desacreditado e quase inútil. Não escrutina o governo, não propõe quase nada de diferente do que o governo propõe, não tem uma agenda própria. É um campo minado, onde os deputados do partido no poder anuem, e a oposição vocifera. Sem efeitos práticos, ainda por cima, em cenários de maioria absoluta.
Cumprimentos!

Miguel Matos a 6 de Agosto de 2009 às 09:20
Insuportável, caríssimo, é que um partido queira usar um certo descontentamento com o governo de modo a promover a (in)democracia.

Se houvesse uma leitura estreita da Constituição, Manuela Ferreira Leite já tinha saído do PSD ou então o PSD já tinha sido banido devido à sua completa aversão pela democracia.

A democracia é uma instituição saudável que é em si a pedra central dum Arco forte que nos protege dos avassaladores terramotos despóticos e tiranos que nos tentam abalar.

A aversão à democracia do Partido Social Democrata, entendo pelas palavras de João Galamba, é algo perigosos que deve ser tomado pelo povo como um aviso que o povo não pode ignorar e que deve castigar.

Portugal sofreu meio século sobre uma ditadura retrógrada que sufocava a industrialização e que promovia um provincialismo que acorrentava Portugal a uma qualidade de vida comparável a países africanos do terceiro mundo.

Este despeito, este desprezo perante a democracia deve ser tomado como a pretensão do PSD pelo poder sem controlo, sem barreiras, sem fronteiras.
Manuela Ferreira Leite, colega de Cavaco Silva durante muito tempo no Banco de Portugal, aprendeu com certeza com ele os «posso, quero e mando(!)» que utilizou para excluir Pedro Passos Coelho e Miguel Relvas das listas e o (in)verdadeiro «raramente tenho dúvidas e nunca me engano» com o qual ela rasga e depois não rasga.

Nós vimos bem a reacção de Manuela Ferreira Leite ao poder. Para citar A bearbearia do senhor Luís no post 'Rasgar, repudiar e romper' (http://barbearialnt.blogspot.com/2009/06/rasgar-repudiar-e-romper.html): « Bastou-lhe [a Manuela Ferreira Leite] o cheiro do poder para perder a compostura de humildade ensaiada (...) »

Pela democracia - fruto daquela manhã de Abril que nos deu liberdades e direitos que jamais deveríamos esquecer - pela esperança de Abril, sei que dia 27 de Setembro VOTO (ou votava se pudesse) PS!

Juntos Conseguimos AVANÇAR PORTUGAL!!!

Ibm Erriq a 6 de Agosto de 2009 às 10:19
Olha quem fala!

João Gonçalves a 6 de Agosto de 2009 às 13:02
João: pessoas bointas como tu ou a Filipa Martins não devem ficar sem resposta. Como chegaste tão recentemente ao PS como à filosofia, recomendo-te Philosophy and Social Hope do Rorty (sim, eu sei que ele era um verdadeiro "social-democrata" norte-americano), da Penguin, e do Sloterdijk, as Regras para o parque humano, traduzido na Angelus. Podia, aliás, servir de manifesto deste blogue. Sempre é intelectualmente mais válido (e apropriado ao tema) do que o que lá está. Abraço. Quando à Sra. Dra. Sofia, o De Gaulle também acabou democraticamente com a IV República francesa. E não consta que Miterrand se tivesse dado mal com a Constituição de 58. Cumprimentos.

João Galamba a 6 de Agosto de 2009 às 13:10
A tua resposta não é uma resposta. Passando por cima do "chegaste tão recentemente ao PS como à filosofia", que me abstenho, obviamente, de comentar, mantenho o que disse: não perceste nada do que escreve o Rorty. E escusas de me recomendar livrinhos do senhor...Se quiseres ir po aí, podemos passar directamente à discussão de toda a sua obra. Queres começar já?

dutilleul a 8 de Agosto de 2009 às 03:08
Rorty é um saltinho e peras para quem ainda não resiste lá muito bem à tentação de envernizar lugares comuns com imperativos barrocos.
Badanices, não restam dúvidas.

José Barros a 6 de Agosto de 2009 às 13:59
não perceste nada do que escreve o Rorty - João Galamba

Isto é uma frase insuportavelmente arrogante, para mais quando não fundamentada.

É, aliás, muito típica das discussões teóricas em Portugal: ainda se não discutiu nada, já o interlocutor é confrontado com um terrorismo intelectual, assente em frases como "não leste o autor X", "não percebeste o autor Y" ou "mostras uma profunda ignorância da teoria Z". Enfim, maus hábitos intelectuais que a academia promove.

João Galamba a 6 de Agosto de 2009 às 15:30
José Barros,

O "não percebeste nada" não é mais do que uma constatação que alguém que revela doses significativas de cinismo político não se pode dizer um admirador de Rorty. Já agora, arrogância é exactamente aquilo que o João Gonçalves demonstra sempre que destrata e desqualifica toda a gente com os mimos que são a sua marca registada.

Mais: o João podia ter dito algo como, "o que gosto no Rorty é o seu lado estético" ou coisa que o valha. Mas não, o João preferiu mandar-me ler Rorty (coisa que eu não fiz) ignorando a crítica que eu lhe diz . Mais uma vez, a minha crítica foi: é difícil admirar Rorty e ser um cínico político.

Francisco Crispim a 6 de Agosto de 2009 às 15:41
Essa empáfia é coisa genética ou simplesmente filha da ignorância atrevida?

tric a 6 de Agosto de 2009 às 17:03
"(...)é difícil admirar Rorty e ser um cínico político."

conclusão: aqui no simplex é muito dificil serem admiradores de Rorty

Rui a 6 de Agosto de 2009 às 17:46
"Se houvesse uma leitura estreita da Constituição, Manuela Ferreira Leite já tinha saído do PSD ou então o PSD já tinha sido banido devido à sua completa aversão pela democracia"...

Espero que esteja a ser irónico, meu grande democrata!

José Barros a 7 de Agosto de 2009 às 04:17
Mais uma vez, a minha crítica foi: é difícil admirar Rorty e ser um cínico político. - João Galamba

Por acaso, não é nada difícil. Não temos que admirar filósofos com os quais concordamos. Eu admiro Rorty e politicamente estou muito afastado da esquerda liberal que ele representa.

Quanto ao resto, se o João Gonçalves foi igualmente arrogante, então o mesmo vale para ele. Naturalmente.

O jogo do name dropping é que não faz grande sentido. Para pretensiosismo já basta grande parte do debate cultural em Portugal, não é preciso estendê-lo à política.

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