Por Sofia Loureiro dos Santos | Quarta-feira, 05 Agosto , 2009, 21:26

 

As próximas eleições são para a Assembleia da República. Na nossa democracia representativa os partidos apresentam os seus candidatos, filiados ou simpatizantes, aqueles que os dirigentes partidários julgam mais capazes de defender os interesses e os projectos do seu partido.

 

Pode discutir-se a reforma do sistema eleitoral, a representatividade dos partidos, a obrigatoriedade do voto. Podemos ser mais idealistas, pensando que é apenas o interesse dos cidadãos que importa aos dirigentes partidários. Podemos ser mais cínicos, achando que há muito mais interesse pessoal que público, corporativo, económico, etc. Podemos balançar entre estes dois extremos, aplaudindo uns e desiludindo-nos com outros.

 

Mas não me parece aceitável que alguém que apoie um partido concorrente a estas eleições parlamentares escarneça da importância do parlamento, o defina como uma excrescência desnecessária, transformando os anseios e os problemas dos eleitores, da tal sociedade civil que se agrupa, que faz campanha, que debate, numa imensa brincadeira de mau gosto. Mesmo sabendo que há muitos deputados incumpridores, faltosos, oportunistas, venais, há muitos que levam a sério os seus mandatos.

 

Também não me parece aceitável que alguém com responsabilidades políticas se esqueça do que é viver num país sem liberdade de imprensa, sem liberdade de manifestação, com partido único, com polícia política, em que se podia ser preso, despedido, exilado, perseguido, por se dizer o que se pensava, clame agora contra a falta de liberdade que se vive em Portugal. Há muitos outros fenómenos que não existiam há 40 anos, há outras ameaças à liberdade. Mas é precisamente por isso que a confusão entre a falta de liberdade e os desafios que se nos colocam à sua defesa não devem ser confundidos.

 

Teremos eleições legislativas a 27 de Setembro. O mínimo da coerência de quem se candidata e de quem apoia candidatos é respeitar o regime constitucional que vigora e a democracia representativa que, com todos os seus defeitos e qualidades, é a nossa. Quem não se revê nesta ordem constitucional, ela é suficientemente generosa para permitir outras opções.
 

Nota: também aqui.


Nicolae a 5 de Agosto de 2009 às 22:35
Na mouche " Sofia. Claramente o melhor post dos últimos tempos. Ver esquerdistas e direitistas ultra-montanos pré-cognitivos a espalhar o seu ódio pela democracia "burguesa e liberal" não é nada de novo. Ver responsáveis políticos de um partido que se pretende um dos fundadores e esteiros do nosso regime a desvalorizar e menosprezar o papel do Parlamento e dos eleitos para esse Parlamento soa a terrivelmente oportunista e a politicamente débil, para além de democraticamente desonesto.
A mensagem que passa é uma e só uma, estão dispostos a denegrir as instituições básicas da República como forma de disfarçar as atenções para listas de candidatos que não incentivam ninguém a neles votar.
Um dos grandes dramas das Democracias é procurar armas para as defender dos que as usam para as subverter. As opiniões que bem citaste demonstram que no espírito de muitos o ataque à Democracia é passível de ser usado por quem quer atacar os que governam por decisão dos que são governados.
Melhor serviço prestariam se opinassem sobre o funcionamento da Assembleia da República, se dessem a sua opinião sobre a reforma do Parlamento feita nesta legislatura, se apresentassem propostas sobre o mecanismo de eleição e substituição dos Deputados, mas para isso era necessário ter opiniões, o que claramente não abunda para os lados onde se sentam.
Não há nada a que dêem claramente valor a não ser as "punch lines" que lhes podem valer 5 minutos de atenção. O drama é que ainda não perceberam que é só a fama que dura 5 minutos, a infâmia dura muito mais.

João Gonçalves a 5 de Agosto de 2009 às 23:20
Minha Senhora, com o devido respeito, o seu post, afinal, é um post sobre o respeitinho e não um post sobre o alegado respeito que a AR lhe merece. Experimente perguntar às pessoas fora deste circuito mediático-intelectual em que todos nós mais ou menos navegamos, o que é que as pessoas pensam do Parlamento e da deputação nacional. Veja o recente caso do Estatuto do sr. César onde tantos juristas de todos os partidos, par delicatesse regional de ocasião (as eleições), fizeram uma triste figura. Ou acha que os deputados "emanam" mesmo de si e representam mesmo a sua vontade? Cumprimentos.

Sofia Loureiro dos Santos a 5 de Agosto de 2009 às 23:26
João Gonçalves

O meu respeito é por todas as instituições democráticas da República e, antes de mais, pelo próprio regime democrático. Aquilo que não compreendo é que o João Gonçalves desrespeite a Assembleia da República e, simultaneamente, apoie um partido nas eleições para a mesma Assembleia. Se descrê do regime, porque pactua activamente?

Miguel Matos a 6 de Agosto de 2009 às 09:59
No artigo 152º da nossa Constituição da Républica Portuguesa, aprovada também pelo PSD, diz na sua 2ª alínea:
«Os Deputados representam todo o país e não os círculos por que são eleitos.»

Também diz na cláusula c) da alínea 1. do Artigo 160º que Perdem o mandato os Deputados que «Se inscrevam em partido diverso daquele pelo qual foram apresentados a sufrágio.»

Por essas duas razões, um deputado fica acorrentado ao seu partido e às suas políticas.

Pelo menos é isso o que me parece.

Nicolae a 5 de Agosto de 2009 às 23:45
Meu Senhor
Presente-nos com algumas das suas opiniões sobre a forma de inverter a falta de reconhecimento que os Portugueses têm nos seus Parlamentares. Seria sem sombra de dúvida mais útil do que se encostar a essa triste realidade para desvalorizar o Papel do Parlamento numa Democracia Parlamentar.

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