Por Gonçalo Pires | Quarta-feira, 05 Agosto , 2009, 15:21

O ruído de fundo que se ouve há muitos anos em Portugal decreta, por fatal incompetência, um miserável destino ao povo Português. Somos mais pobres, pouco qualificados, não queremos trabalhar e estamos sempre muito endividados. A voz da consciência crítica Portuguesa é muito lesta no diagnóstico e ainda mais expedita a apontar os responsáveis. Os nossos políticos são incompetentes. 

 

Não se deve exigir aos nossos marretas que apontem caminhos, que encontrem soluções ou que resolvam os nossos problemas. No entanto, dever-se-á exigir que sejam um pouco mais desenvoltos a explicar ao povo os méritos de algumas das políticas públicas mais inovadoras perseguidas por Portugal nas últimas décadas. Falo das energias renováveis, do choque tecnológico, especialmente na educação, e da mais recente aposta no carro eléctrico.     

 

Confesso, gostava de ouvir o Medina Carreira falar do impacto das renováveis no nosso deficit externo, gostava de ouvir dos nossos 28 economistas credíveis uma explicação sobre a importância de um provável sucesso do carro eléctrico na economia Portuguesa, sobre a importância da aposta do choque tecnológico na educação para um crescimento mais qualificado nas próximas décadas, gostava de os ouvir a criticar estas políticas como ouvimos em tempos uns miserabilistas assumidos a criticar o investimento em comboios no século XIX.

 

Tudo isto por causa dos últimos textos da Palmira que tocam num ponto fundamental. Quando se faz algo de inovador, arrojado, que envolve mais risco que certezas, está-se exposto às críticas dos cépticos profissionais, imortalizados pela nossa história como os velhos do Restelo.  Ridicularizar os projectos que não podem ser suportados pelas melhores práticas, simplesmente porque não existem exemplos para guiar a nossa acção, podem até ser acertadas, mas excluem o mérito de quem tenta chegar primeiro, crítica fundadora de quem tenta explicar o nosso miserável destino.    

 

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Ze dos Reis a 5 de Agosto de 2009 às 16:42
Sabes o que me entristece?
É a possibilidade de tudo isto, mais o desenvolvemento tecnológico, as infraestruturas ferroviárias, etc, etc, serem abandonado a partir de outubro.
O futuro trocado pelo modelo de desenvolvimento cubano, tudo a toda a gente até ninguém ter nada.
Emprego, reforma, saude, habitação, tudo garantido, e a pouco e pouco o emprego deteriora-se, a reforma vai minguando, o acesso à saude degrada-se (excepto para os estrangeiros) , a habitação envelhece - veja-se o que aconteceu com o congelamento das rendas, paga-se pouco mas a casa transforma-se numa merda.
Acaba-se a importar 84% do que se come. Como em Cuba. Viveremos do mercado negro dos turistas dos países capitalistas. Sim, dos coitados explorados pelo capitalismo selvagem, na Alemanha, em França, no Reino Unido, etc. Todos terão inveja de nós que viveremos mal mas explorados isso não.
Mas que importa isto, o importante é derrotar Socrates.

JPP a 5 de Agosto de 2009 às 16:52
Há uma diferença entre ser céptico e realista. O Medina Carreira parece-me ser mais um realista do que um céptico. Aliás, o facto é que até agora ninguém desmentiu as suas análises. O gráfico que ele costuma mostrar com o crescimento médio do PIB demonstra claramente que a taxa de crescimento tem decrescido de década para década. Nesse sentido, não se percebe onde é que está o cepticismo. Os dados são bem claros e apontam claramente para a hipótese de declínio económico do país. O que não invalida o facto do "Leaf" ser uma boa notícia para Portugal.

henrique pereira dos santos a 5 de Agosto de 2009 às 17:13
Visto que o único comentador do post da Palmira para que remete este fui eu, e visto que já apresentei quer em comentários a posts de Carlos Santos, quer a outro post da Palmira, objecções de fundo a que nenhum se dignou responder pode ser que aqui o autor do post queira ter a maçada de me responder.
As energias renováveis não devem ser analisadas como se fossem uma entidade homogénea porque incluem a hídrica (perfeitamente dominada e competitiva mas com impactos ambientais não negligenciáveis), a água quente solar (perfeitamente dominada e competitiva), a eólica (comercialmente madura e com algum déficit de competitividade que é razoavelmente suportado nas tarifas se os governos quiserem), a fotovoltaica (dominada mas muito pouco competitiva, sobretudo em grandes centrais e não em produção descentralizada) e várias outras.
Produzir muita energia a partir de fontes renováveis não tem nada de inovador: é uma questão de preço de compra ao produtor. O que este Governo fez (aliás na sequência, sobretudo em relação à eólica, dos três ou quatro governos anteriores) foi subir os preços ao produtor, induzindo investimento e produção.
Ao mesmo tempo, e este é um problema de fundo, impediu administrativamente que este maior preço na produção se reflectisse totalmente no preço que paga o consumidor o que, para além de agravar o problema que já existia do défice tarifário, impediu os ganhos de eficiência a que os preços altos dão origem.
Ou seja, e seria preciso fazer as contas para saber o que verdadeiramente está a acontecer, temos uma vantagem na diminuição de importação de produtos petrolíferos que vai em paralelo com uma diminuição de competitividade dos nossos outros produtos, que decorre de uma energia mais cara.
Por mim, que sempre defendi a utilização de energias renováveis, a política energética deste governo está errada ao preferir subsidiar a produção, em especial eólica, em detrimento da eficiência energética e da água quente solar (para a qual acordou em fim de mandato, o que já não é mau).
Mas estando errada neste aspecto (e na proibição de fazer reflectir no preço do consumidor o preço real de produção) é positiva no que diz respeito à eólica (penso que há uma discussão de razoabilidade de limites na sua subsidiação, mas enfim...).
Ora o carro eléctrico não tem nada com isto, nem com o ambiente.
O carro eléctrico, nos termos em que foi feito, não enquanto conceito, é uma opção feita pelo Governo para captar um investimento industrial, pagando em assumpção de riscos empresariais. Exactamente o mesmo que o Estado fez com as pilhas de hidrogéneo (cuja fábrica fechou sem abrir) e com a Quimonda.
Por mim discordo da vocação do Estado enquanto tomador de riscos empresariais.
É uma concepção do Estado, não tem nada com velhos do Restelo, inovação e essas coisas todas.
henrique pereira dos santos

Gonçalo Pires a 6 de Agosto de 2009 às 09:14
Caro amigo,
. As energias renováveis são uma aposta decisiva deste governo e não sou eu que o digo, são as análises comparativas feitas aos países europeus que destacam Portugal como um país de referência.
. Parece concordar com o mérito desta aposta apenas tem alguma relutância em qualificar a aposta de inovadora. Imagina-se à quatro anos, quando a aposta foi feita, a fazer o mesmo comentário? Acho que não.
. Subsidiar o produtor é fundamental para incentivar o crescimento da capacidade instalada. À medida que as diferentes formas de gerar energia vão maturando, os prémios de risco do investimento nessa capacidade instalada vão descendo e o subsídio também. Veja-se o caso da energia eólica. Logo, o subsídio à produção (via deficit tarifário) acompanha as condições de mercado e o willingness to invest dos produtores.
. Não sendo um especialista, parece-me que o subsídio na energia solar, que tem a sua preferência, é maior que na eólica.
. O deficit tarifário terá que ser pago pelo consumidor ou pelas empresas ou pelo estado. Parece-me inevitável que o consumidor verá, mais tarde ou mais cedo, o impacto na tarifa. Esquece-se no entanto, que o país ganha com um pool de energia menos poluente. Principalmente se admitirmos um sistema de cap and trade europeu.
. O carro eléctrico é uma opção feita por este governo. Nisso está certo. Mas não porque seja o governo a produzir os carros. Apenas porque existe uma aposta POLÍTICA na promoção de veículos não poluentes. Mas também porque se conseguirmos induzir o consumo, não atrairemos apenas investimento directo estrangeiro (exemplo baterias da Nissan) mas uma industria PORTUGUESA que beneficiará da aproximação desse pólo industrial e de inovação. Muito do que se fará na industria do carro eléctrico ainda poderá não estar inventado. O governo ao apostar no carro eléctrico beneficia não só o país (consumo de petróleo, poluição) mas também uma industria que será (se resultar) no futuro de grande dimensão, mas também os produtores de energia que Portugueses que substituirão as bombas de gasolina.

Um abraço,
Gonçalo

henrique pereira dos santos a 6 de Agosto de 2009 às 09:51
Agradeço-lhe que tenha não só respondido como se tenha concentrado nos argumentos e não no argumentador, o que vai sendo raro.
1) A questão de fundo sobre chamada aposta nas energias renováveis é uma questão a montante da produção e a que não respondeu: a prioridade das prioridades em política energética e ambiental é a redução do consumo ou, no mínimo, a melhoria da eficiência.
O que dá a Portugal esse papel de referência na produção de energias renováveis é o facto de se ter optado por um modelo totalmente desequilibrado de actuação em que os recursos são totalmente empenhados na produção e a eficiência energética é praticamente esquecida.
É de facto uma opção singular, que torna Portugal uma boa referência na óptica sectorial da produção a partir de fontes renováveis (o que aliás sempre foi por causa da hídrica) mas infelizmente é uma opção ineficiente e muito pesada para a competitividade da economia.
2) Não é de facto uma aposta inovadora (Portugal não está na frente da investigação no aproveitamento de nenhuma das novas fontes de energia, está apenas na dimensão da produção com tecnologias desenvolvidas noutros países) e muito menos tem quatro anos. Se quiser atribuir mérito ao PS atribua-o justamente à equipa do Ministério da Economia Braga da Cruz/ Oliveira Fernandes, no governo Guterres, que foi continuada e aprofundada por todos os outros governos no que diz respeito à eólica e não foi continuada por nenhum no que diz respeito à eficiência energética e à água quente solar.
O que este Governo fez foi deixar de se preocupar com o custo para a economia de ter energia cara porque isso lhe permitia estimular investimento imediato sem afectar o défice, o que nos conduz à situação actual, que é de claro desequilíbrio (embora sectorialmente vantajosa quando analisada estritamente do ponto de vista da produção de energia a partir de fontes renováveis).
3) Subsidiar o produtor é de facto fundamental quando existe, como é o caso das energias renováveis, uma falha de mercado que não permite ter a capacidade instalada a responder à volatilidade dos preços do petróleo. Mas isso não justifica qualquer nível de subsidiação. Por isso o critério não pode ser só o sucesso na produção sem consideração do seu custo para a economia, que existe e não pode ser omitido.
4) A minha preferência pela água quente solar não tem nada com a subsidiação do solar fotovoltaico (sobretudo em grandes instalações concentradas e não na dispersão da produção da fotovoltaica, uma das suas grandes vantagens, aproximando produção de consumo). A água quente solar nem precisa de grande subsidiação e no caso das grandes instalações do Estado (como quarteis, hospitais, escolas, instalações desportivas) até custo eficiente sem subsidiação. Simplesmente o investimento pesa no défice ao contrário de subsidiar pela tarifa o investimento de terceiros, que é o que explica a opção menos eficiente que o Governo fez. Talvez cortando o tabuleiro rodoviário da terceira ponte sobre Tejo em Lisboa houvesse dinheiro para pôr paineis em todos os edifícios púiblicos com a vantagem ambiental de em vez de se estar a financiar a entrada de carros privados em Lisboa, e respectiva indução de consumo de combustiveis, se estar a financiar uma verdadeira poupança energética com efeitos reais numa produção industrial em que Portugal é competitivo (sem necessidade de coutar mercados, como fez o Governo com a solução que arranjou agora, em fim de mandato, para aumentar o uso de água quente solar).
5) Com certeza que o défice tarifário um dia será pago por alguém, mas a opção do actual Governo foi a de evitar aumentos agora (indutores de racionalidade no uso) para pôr alguém a pagar no futuro. É a mesma solução das concessões das estradas e outros investimentos públicos. Quem vier atrás que feche a porta.
6) A aposta política no carro eléctrico não tem pouco com questões ambientais. Se essa fosse a questão estaríamos a investir nos transportes públicos e calmamente esperando que o mercado dos outros países fosse reduzindo o preço e dando maturidade tecnológica aos carros eléctricos que têm uma relativa importância do ponto de vista ambiental. Essa aposta política traduz-se em comprar um investimento industrial num tecnologia inexistente através da assumpção de parte do risco.

Ricardo a 5 de Agosto de 2009 às 19:51
Desculpe lá,

Mas desde quando é que o carro eléctrico é o resultado de uma política pública?

Foi o Estado que desenvolveu o carro eléctrico ou foi a Nissan?

Este governo passou o mandato inteiro a tentar apropriar-se de méritos que não são seus. Não é mérito do Governo o investimento do sector privado nos carros eléctricos, não é mérito do Governo o investimento da Sonae em Troia, não é mérito do Governo o investimento da Pescanova, etc...

A César o que é de César. Se o Governo tem realmente méritos, não precisa roubar os méritos alheios.

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