Por Palmira F. Silva | Segunda-feira, 03 Agosto , 2009, 18:42

No dia em que o Diário Económico desvenda alguns detalhes sobre o LEAF, o carro eléctrico da Nissan que rodará em breve com baterias made in Portugal, numa notícia aparentemente não relacionada dá-nos igualmente conta de um aviso da Agência Internacional de Energia. De acordo com o economista-chefe da AIE,  uma «catastrófica» crise energética pende sobre a retoma da economia mundial devido ao facto de estarmos a atingir o peak oil, isto é, a capacidade máxima de produção de petróleo.

 

A relação que encontro entre ambas as notícias é explicada por um artigo de Paul Ames no Global Post, reproduzido pela Reuters,  intitulado «Has Portugal solved the electric car problem?» O artigo, que refere o grande investimento do governo Sócrates em energias alternativas, descreve igualmente o plano arrojado que pretende evitar que estes carros eléctricos sofram  o destino dos seus antecessores, descrito num documentário de 2006 - que conta a história da «morte» dos carros eléctricos nos Estados Unidos,  nomeadamente do General Motors EV1  (ou do Ford Ranger EV, ou do Honda EV Plus e do Toyota RAV4 EV). E o que matou o carro eléctrico foi a inexistência de uma rede de abastecimento de base eléctrica.

 

Assim, Portugal será o tubo de ensaio de uma experiência que o alerta da AIE sugere não poder ser adiada e que será um passo indispensável à ruptura em relação ao actual paradigma energético, completamente dependente do petróleo (o que por seu lado implica uma dependência dos países produtores de petróleo). Esta dependência tem como consequências, para além das questões ambientais, aquelas de que há um ano sentimos os efeitos, nomeadamente a instabilidade política e a crise económica que se seguiram ao aumento do preço do petróleo e ao efeito cascata que despoletou: aumento dos preços, da inflação e das taxas de juro, que por sua vez levaram a uma diminuição do consumo por parte dos particulares e do investimento por parte das empresas, para além de terem reduzido a factura energética cobrada pelo estado.

 

Este «abanão» corroborou o que muitos aprenderam com aqueloutro suscitado pelo primeiro choque petrolífero de 1973/74 e que foi de certa forma traduzido para o público em geral como a necessidade de um desenvolvimento sustentável, o tal «development that meets the needs of the present without compromising the ability of future generations to meet their own needs» que apontava em 1987 o Brundtland Report

 

O 2º choque petrolífero mostrou a enorme vulnerabilidade da economia portuguesa face ao petróleo e a urgência na alteração de paradigma energético cá do burgo, que mais que preocupações ambientais terá como objectivo a redução dos custos médios da produção de energia directamente consumida pelos sectores produtivos da economia. Assim, é necessária uma visão energética de longo prazo que tem necessariamente a ver com o desenvolvimento e investimento numa panóplia de fontes de energia realmente alternativas face às previsões de consumo, como tem sido feito nos últimos 4 anos com a energia hídrica, fotovoltaica e eólica,

 

O que o João dizia hoje nas páginas do mesmo Diário Económico que nos brindou com este aviso, assume assim contornos catastróficos quando pensamos em políticas energéticas. Isto é, parar, adiar ou rasgar o que está planeado ou em execução nesta área é receita certa para o desastre e um luxo a que o país não se pode dar, a penas de se afundar num buraco estrutural de onde será muito complicado sair...


André Couto a 3 de Agosto de 2009 às 19:04
Esse título foi um grande momento de inspiração, Palmira! Sou fã desde que o li a primeira vez.

henrique pereira dos santos a 3 de Agosto de 2009 às 19:06
Se a motivação da opção pelas renováveis fosse ambiental e de independência energética o Governo teria começado pela eficiência energética e pela água quente solar.
Do ponto de vista estritamente ambiental não é líquido o balanço final entre ter muitos ou poucos carros eléctricos: se do ponto de vista local é inegável que os carros eléctricos diminuem as emissões e o ruído, do ponto de vista global o seu efeito ambiental positivo precisaria de ter resolvidas as questões das baterias e da produção eléctrica. Nenhuma delas está resolvida e existem muitas dúvidas sobre isso.
Já quanto à racionalidade económica a coisa é ainda mais duvidosa, já que as baterias, pelo menos as que se conhecem, precisarão de ser substituídas de cinco em cinco anos (mais coisa, menos coisa), sendo que custam tanto ou mais que um carro normal.
Ou seja, é possível, mas não se sabe se plausível, que um dia os carros eléctricos tenham os problemas básicos que os tornam incomportáveis para os clientes mais ricos mas é duvidoso que no horizonte esteja uma verdadeira massificação (repare nos números dos textos que cita).
Empenhar o dinheiro dos impostos (que é também o dinheiro dos pobres) numa roleta cheia de riscos para apoiar a compra de bens pelas pessoas mais abonadas é para mim uma coisa estranha e ainda mais estranho que seja um governo de Esquerda a promover isto.
Correr este tipo de riscos para satisfazer mercados diferenciados parece-me a mim ser claramente a função das empresas, não do Estado.
Se o que se pretende é mesmo o desempenho ambiental e o empenho do Estado para resolver o que o mercado não resolve nessa matéria, tenho pelo menos dez opções mais interessantes e menos arriscadas, começando pelas da eficiência energética, da água quente solar (que não é só para banhos, inclui aquecimento e lavagens em electrodomésticos) e ainda a racionalidade no uso dos transportes. Os mesmos milhões de incentivo ao carro eléctrico usados em transportes públicos não só eram incomparavelmente mais eficientes do ponto de vista ambiental como eram muitíssimo mais justos socialmente.
Confesso que me faz confusão como se alinha no chavão das energias renováveis e coisas que tal como se dentro desse conceito não estivessem coisas muito diferentes, umas boas soluções (alguma hídrica), outras soluções razoáveis e com custos aceitáveis (boa parte da eólica), outras que merecem apoio em ID (a fotovoltaica) e outras disparates completos como as centrais de biomassa tal como foram vendidas (mas não construídas) a propósito dos fogos.
henrique pereira dos santos

Palmira F. Silva a 3 de Agosto de 2009 às 19:26
Caro Henrique:

Em relação às baterias, não sei se sabe que o LEAF será equipado com baterias de lítio ião, assentes na mesma química (e electroquímica) que lhe alimenta o telemóvel ou o portátil. Aliás, será o primeiro carro a ter estas baterias pelo que os problemas que refere se aplicam às baterias actualmente utilizadas nos híbridos, que são baterias de níquel.

O lítio, o metal de número atómico 3, é o metal menos denso (mais «leve»), e com potencial normal mais baixo, isto é, permite o desenvolvimento de pilhas não só com a melhor razão energia/peso como com maior força electromotriz ou maior voltagem. Por outro lado, são baterias que não apresentam alguns dos problemas de carga que caracterizam as restantes.

Nem tudo são rosas com estas baterias, nomeadamente a nível de estabilidade térmica, o que levarou a Toyota a atrasar a instalação de baterias de lítio na terceira geração do Prius, que vem equipado com versões melhoradas das baterias de hidreto de níquel.

Mas tem-se apostado muito em I&D com estas baterias e conseguiram-se feitos notáveis, que começaram a vir a lume em particular depois de em 2007. Nesse ano, a ExxonMobil Chemical e a sua afiliada japonesa Tonen Chemical apresentarem um polímero revolucionário que permite melhorar a potência, segurança e estabilidade das baterias de lítio-ião.

Também na Alemanha, foi criado um consórcio, o Lithium-Ion Battery LIB 2015 que inclui a Volkswagen, a BASF e a Bosch, que pretende explorar as baterias de lítio-ião da firma Li-Tec, que em vez de um filme polimérico, a Li-Tec inventou uma membrana cerâmica muito flexível que separa como um papel os dois elementos de pilha e permite uma maior estabilidade térmica.

Há mais consórcios mas, já que estamos na Nissan, pode ver esta notícia num dos sites de nanotech que acompanho, que certamente contribuirá para lhe aliviar as angústias sobre as baterias que pensa irem tirar pão da boca dos pobres...

henrique pereira dos santos a 3 de Agosto de 2009 às 20:08
Concluindo, confirma o que eu disse: estamos a meter o dinheiro dos pobres (e dos outros) numa tecnologia não dominada (sim, os meus comentários já foram sabendo que são baterias como as que descreve mas não existem para a indústria automóvel) e que não se prevê que esteja massificada a breve prazo.
Ou seja, estamos a jogar na roleta.
De qualquer maneira não responde à minha questão: se a motivação é ambiental e social, por que razão não investimos os mesmos recursos nos transportes públicos?
henrique pereira dos santos

António da Costa a 3 de Agosto de 2009 às 19:44
O preço desta viatura rondará os 18.000 euros, bom preço, isto é sem baterias, quanto custará as baterias? qual o prazo de duração das baterias? quanto iremos pagar para a reciclagem das mesmas? considerando que mais de 90% dos carros são vendidos a crédito, ALD, Renting ou outro meio de financiamento urge perguntar se também existirá crédito para as baterias, é que não basta ser ecológico e barato para o povo aderir é também necessário que os meios de aquisição sejam efectivos.

Henrique Sousa a 3 de Agosto de 2009 às 20:58
Investiguei e escrevi vários artigos sobre os carros eléctricos no meu blog e concordo em absoluto com as opiniões de meu homónimo Henrique Pereira.
Como engenheiro electrotécnico, acho um perfeito disparate esta «aposta», bem como a «aposta» no fotovoltaico. O carro eléctrico não vai passar de um brinquedo caro condenado ao fracasso e vai sair-nos caro, a nós os pobres. Por um país mais pobre...

josé Vladimiro a 3 de Agosto de 2009 às 22:23
Uma cpnspiração trotkista para destruir o brilhante plano do eng. técnico sócrates! Será ele capaz de desmontar esta cabala?

Miguel Nogueira a 4 de Agosto de 2009 às 12:08
Concordo a 100% com os comentários de Henrique Pereira.
Como muitos dos projectos deste governo, as intenções são boas, a competência é má e fica refém dos interesses dos supostos salvadores (Nissan, o milhão de fabricantes de baterias de telemóveis, computadores que vêem aqui mais uma oportunidade dourada).

Os pontos de interrogação são tantos: reciclagem das baterias, duração das baterias, preço das baterias, extracção e transporte intercontinental das matérias-primas para fabrico das baterias [aviões com emissões zero?!]), aquisição das baterias, produção eléctrica "renovável" para carregamento das baterias...

Se vamos mudar de paradigma, não fará sentido apostar numa tecnologia que inerentemente tem tantas limitações/desvantagens?

Algo como o hidrogénio? Ainda que a solução possa estar a 10 anos de distância, o investimento em eficiência energética poderia suprir os danos desse período, ao invés de hipotecarmos gerações com uma solução deficiente, a eléctrica.

Palmira F. Silva a 4 de Agosto de 2009 às 12:47
A título de curiosidade, fica esta notícia de há 3 dias:

«The Energy Department is getting ready to hand out about $2 billion in grants to create a domestic industry for electric-car batteries, and 122 companies are scrambling to get pieces.

The companies range from small niche firms to giants such as Dow Chemical and Johnson Controls. All are promising a combination of innovation and ability to deliver new products on a commercial scale to prevent the United States from trading dependence on foreign oil or reliance on foreign-made batteries. (...)

Grants are expected to focus on lightweight lithium-ion batteries similar to those in laptops. They are the newest thing in a business that had not changed much since lead-acid batteries were invented a century and a half ago.»

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