Por João Galamba | Segunda-feira, 03 Agosto , 2009, 15:14

Na mesma semana em que o PS apresentou o seu programa político, a líder do PSD falou de iates, de perseguições aos ricos, e manteve a aposta na Verdade (assim, com maiúscula). Centremo-nos no único ponto passível de discussão: a Verdade. Para Ferreira Leite, a nossa verdade é o endividamento: não há dinheiro para nada e o PS, se insistir na sua política de investimentos, vai levar-nos à ruína. Dito assim, impressiona. Estamos perante uma reedição do discurso da tanga. Mas, e independentemente da nossa avaliação sobre a estratégia de desenvolvimento proposta pelo PS, a verdade, em si mesma, não é nem nunca poderá ser um programa político, pois um programa implica duas coisas: um diagnóstico sobre a situação do país e um compromisso com um plano de acção. Desde Aristóteles que a política é entendida como uma forma de acção, mas Ferreira Leite decidiu inovar e propõe uma alternativa: a resignação e a passividade estóica.

 

Assim não, diz a líder do PSD, sem nunca nos dizer o que fará com tanta e tão assustadora verdade. Pondo de parte a hipótese de auto-flagelação, o que nos resta? Será que Portugal tem de poupar mais? Baixar despesa? Reduzir impostos para estimular a actividade económica? Esperar que o "abalozinho" passe? Não sabemos. Sabemos apenas que, numa recessão onde existe um risco de deflação, isto é, num contexto onde não podemos recorrer à cartilha liberal de que as empresas não produzem porque o Estado não as deixa, nenhuma dessas opções parece fazer sentido. Tirando alguns liberais que já ninguém leva minimamente a sério, o consenso internacional é de que só o Estado pode desempenhar o papel de liderança que a situação exige - e isto requer investimento.

 

A "posição" de Ferreira Leite pode não aumentar o endividamento, mas não faz nada para o reduzir. Podemos evitar o desastre, mas não fazemos nada para alterar o status quo. Reconhecer um facto, parar, repensar e adiar, que eu saiba, não resolve problemas, porque não é agir nem assumir qualquer tipo de responsabilidade perante a nossa situação. O endividamento é um problema que carece de uma resposta política afirmativa. Só há duas soluções para o endividamento: crescimento ou diminuição da despesa, isto é, medidas expansionistas ou pró-cíclicas. De uma maneira ou de outra, algo tem de ser feito. Dado que Ferreira Leite não é liberal, ou seja, não acha que desmantelar o Estado assegura, só por si, crescimento futuro, e tendo em conta que, segundo a líder do PSD, não há dinheiro para nada, tenho alguma dificuldade em perceber o que a sua Verdade quer para Portugal e para os Portugueses.

 

(artigo publicado no Diário Económico)


Martinha a 3 de Agosto de 2009 às 16:33
- Concordo. Manuela F. L., Santana L. e Anibal C. são um bluf!!! Já tiveram oportunidade de mostrar o que valem.

João Cardiga a 3 de Agosto de 2009 às 17:27
Oi João,

Gostava de fazer um pequeno àparte:

Um liberal não é alguém que "acha que desmantelar o Estado assegura, só por si, crescimento futuro"

Sobre esse assunto escrevi no blogue do MLS cujo link deixo abaixo, caso queira comentar:

http://blog.liberal-social.org/mitos-criados

Núncio a 3 de Agosto de 2009 às 23:22
«(...) os partidos do poder não devem fazer promessas. Que mostrem a sua obra: essa é a maior proposta.»
(Nuno Rogeiro, "Maré de propostas", JN, 31-7-2009)

isabel a 4 de Agosto de 2009 às 10:19
excelente análise. sr. Galamaba. deu gosto ler.
não tenho fraca memória e lembro-me do que a 'nela não fez por portugal enquanto ministra (para quem fala de Verdade, esconde muita Mentira).
há que investir sim, nas pessoas, nos recursos e fazer o que é próprio de um Estado: intervir a favor do bem-estar de todos.

natália santos a 4 de Agosto de 2009 às 14:44

" E doente- de -Novo fui-me Deus, no grande rastro fulvo que me ardia" de Mário Sá Carneiro. Sigamos o Mário!

Portugal é um país pequeno e periférico, que tem de aproveitar esta oportunidade em que todos os paradigmas estão a mudar, para se afirmar em rumos que tentam encontrar um futuro sustentável. E MFL não é uma boa companheira,quanto mais uma líder, na procura desse futuro.
Uma coisa assustadora em MFL é que ela é completamente imobilista. As renováveis, o inglês para os miúdos, o Magalhães, os carros eléctricos, as células estaminais, o casamento de pessoas do mesmo sexo, tudo isso deve fazer uma confusão àquela cabeça.Nota-se , sente-se nela essa resistência ao Novo! Só que nós não temos culpa disso.
Quanto aos grandes investimentos, ou ajudar as PMEs a investir, isto não pode ser visto assim. A maioria das PMEs trabalham para as grandes empresas e estas investem nos grandes projectos, quer privados quer públicos.Qualquer um de nós que tenha trabalhado numa PME sabe como isto é verdade.
Com pouca construção no imobiliário, com o mercado da reconstrução ainda incipiente, onde vão as grandes empresas investir? Concordo com o perigo do endividamento, mas entre vários males, não será possível quantificar o menor, um meio termo entre parar a economia e fazer tudo ao mesmo tempo ?

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