Por Pedro Adão e Silva | Domingo, 02 Agosto , 2009, 18:04

      Durante muito tempo, a política portuguesa viveu assolada pelo espectro da indiferenciação: as opções do PSD e do PS para as políticas públicas pouco se distinguiam. Se alguma coisa resultou clara da conferência “Transformar Portugal” foi precisamente a consolidação do fim dos partidos fotocópias. José Sócrates e Manuel Ferreira Leite – e com eles PS e PSD – distinguem-se hoje bem mais do que no passado.

Antes de mais, no estilo. Podemos não saber exactamente que tipo de político preferem hoje os portugueses, mas enquanto Sócrates revelou uma notável desenvoltura formal na sua intervenção (falou de improviso), Ferreira Leite mostrou-se presa a um discurso escrito assente num conjunto de lugares comuns, tão pueris como facilmente partilháveis por todos.

Depois, nas opções estratégicas. Se é verdade que Ferreira Leite voltou a revelar muito pouco – ou rigorosamente quase nada – do que se propõe fazer se ganhar as eleições, é ainda assim possível intuir diferenças substantivas entre os dois candidatos.

Sócrates, ao mesmo tempo que fez uma defesa do seu executivo em duas áreas chaves (a educação e as renováveis), defendeu um aprofundamento das funções do Estado nas áreas sociais, designadamente respondendo aos trabalhadores de baixos salários, quer através de uma nova prestação, quer através da densificação das respostas de serviços às famílias. Ferreira Leite, ainda que tenha centrado a sua intervenção quase exclusivamente nas questões económicas e financeiras, não deixou de sugerir que as funções sociais do Estado devem ser supletivas.

No fim, ficou também a diferença sobre o papel da política fiscal. Enquanto para Ferreira Leite os impostos não devem estar ao serviço da equidade, Sócrates parece ter dado um passo no sentido de tornar a política fiscal mais relevante para as respostas sociais.

A dois meses das eleições, as diferenças entre os dois principais partidos são claras e é possível de facto escolher alternativas. A diferenciação é uma vantagem para a própria democracia, falta agora que o PSD seja capaz de transformar em medidas tangíveis o que até agora é apenas sugerido. Uma coisa é certa, ficamos todos a ganhar com o aprofundar das clivagens e da distinção programática.

 

Comentário às conferências "Transformar Portugal", publicado no Semanário Económico

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josé Vladimiro a 2 de Agosto de 2009 às 21:16
PS/PSD são dois partidos siameses!
Sócrates foi um zeloso militante do PSD, admirador de Sá Carneiro, que se travestiu de socialista, no tempo de antónio sócrates.
o objectivo é fazer um grande e único partido: o partido socrático.

Ibn Erriq a 2 de Agosto de 2009 às 21:35
Olha quem é ele, o famigerado Adão!
Pena é que não tenha nada de novo para dizer, por muito que tente não conseguirá tapar o sol com a peneira, ou seja, por muito que tente, não consegue provar o contrário, pois, sócrates e o PS são face da mesma moeda!

Esperemos que o PS nos deja devolvido, mas temo que tal só acontecerá que o sócrates for varrido!

Quanto a Vexa, aguardamos que tenha algo para nos dizer, ser caixa se ressonância não acrescenta nada!

Anónimo a 2 de Agosto de 2009 às 22:21
Caro Pedro Adão e Silva,
desculpe-me o anonimato, mas os tempos são o que são e eu não tenho o respaldo de partidos ou de lojas, ou do que for.
Mas no que diz respeito ao combate à corrupção, que é o que está a inquinar a sociedade portuguesa, o PS e o PSD não apresentam políticas diferentes já que são ambas nulas.
Ou o senhor não percebe por que razão o Bloco está e vai crescer tanto?
Quanto ao que o orçamento do Estado ainda vai permitindo, tenho sérias dúvidas.
Cumprimentos.

Núncio a 2 de Agosto de 2009 às 22:34
Embora não subscrevendo o tom áspero do leitor anterior, confesso que também gostaria de ler algo mais isento, menos comprometido, mais ousado.
Sei que o Pedro Adão e Silva seria capaz e não consigo perceber o que o inibe. Quem foi capaz durante o Guterrismo também o seria agora... ou está manietado?
O PS de Sócrates (tal como, em parte, o PSD de Cavaco) vai ter um pós-poder (seja em 2009, seja em 2013) muito doloroso, em grande medida porque não há massa auto-crítica. Com a agravante de o cavaquismo ter tido um Pacheco Pereira, um Marcelo, um Ângelo Correia ou um António Capucho e de a oposição no PS parecer estar reduzida a Manuel Alegre.

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