Por Hugo Mendes | Sexta-feira, 31 Julho , 2009, 17:18

No "Diário de Notícias" de hoje, o deputado do PSD Miguel Frasquilho diz que "em Portugal é-se considerado rico do ponto de vista fiscal com rendimentos relativamente baixos". Ou seja, uma família com cinco mil euros de rendimento mensal bruto fica rapidamente no último escalão do IRS, de 42%, o que, diz, "é muito elevado para os padrões europeus".

 

Depreendem-se duas coisas muito interessantes destas palavras :

 

1) que o deputado do PSD compara os rendimentos dos mais ricos cidadãos portugueses com a Europa e não com a população portuguesa. Aos mais ricos cidadãos portugueses não parece interessar muito que ganhem 10, 20, 30 vezes mais do que o meio milhão de portugueses que aufere o salário mínimo, mas que ganham menos que os mais ricos cidadãos franceses, ingleses, ou alemães. Portugal, como ponto de comparação, é para esquecer. Maldito país.

 

2) que Miguel Frasquilho não deve ter uma ideia muito clara da distribuição de rendimentos na sociedade portuguesa. Quem o lê, parece que há em Portugal assim uns milhões valentes de famílias a ganhar 5000 euros por mês.

 

Assim, atentemos nos rendimentos implícitos às declarações de rendimentos (brutos) em sede de IRS do ano de 2006 (clicar para aumentar).

 

 

 

 

Um agregado que ganhe cerca de 5000 euros por mês está no escalão  "50.000 a 100.000 euros/ano". São 4,4% das famílias. É com estas famílias - e talvez com o 1% de agregados que auferem valores superiores - que Miguel Frasquilho (e o PSD) parece(m) estar preocupado. É legítimo. Mas não é, decididamente, a "classe média".

 

Tenho a impressão que muita gente com responsabilidades políticas na direita não faz grande ideia de quanto ganha a maioria das famílias portuguesas.  

 


António Monteiro a 31 de Julho de 2009 às 17:40
Para acabar com as dúvidas e para conhecermos a posição oficial do PS, ilucide-nos o que consideram Vossas Excelências por classe média em Portugal.

Stran a 31 de Julho de 2009 às 18:03
Desculpem a minha ignorância, mas alguém aqui me pode explicar ou responder à seguinte questão:

- Como é que existem 2 agregados fiscais que recebem mais de 250.000,00 mas não têm liquidação de IRS???

Miguel a 31 de Julho de 2009 às 18:39
Sim..parece-me bem. Como são poucos é natural extorquir o mais possivel.
Afinal, os seus votos contam pouco.

Ficamos pelo seu post a saber que um casal em que cada um ganhe €2.200/mês..é rico. Riquissimo!

a questão que se coloca é porquê parar nos 42%. Porque não 60%? ou até 70%?
Seria uma boa forma de colocar estas familias abastadas com o mesmo rendimento de um caixa do continente.
È este o seu objectivo, não é?

Eu sempre votei PS e tenciono votar PS...mas este blog começa a contribuir para que tenha sérias dúvidas.

Miguel


Hugo Mendes a 1 de Agosto de 2009 às 02:39
Caro Miguel, não viu nem verá nunca uma proposta para taxas de imposto tão elevadas.

Mas se o post o fez pensar como é que vive um "caixa do continente", já fico satisfeito :) É que se os "ricos" têm dificuldades, imagine os outros.

cumprimentos
Hugo

Carlos Gomes Pinto a 1 de Agosto de 2009 às 19:32
Hugo,
Desculpe-me , mas como pode chamar rico a um casal que faz 5 mil brutos trás para casa uns 3 mil ,de rico?Ou na sua perspectiva temos todos que viver como os caixas ou os caixas viverem como quem ganha mais de 5 mil?

Hugo Mendes a 2 de Agosto de 2009 às 01:13
Caro Carlos,

Acho que é melhor abandonar a palavra "rico" nesta discussão, a não se que nos entendamos numa definição. O que é "rico" para uns não é "rico" para outros.

E não, na mihna perspectiva não têm todos de viver a mesma forma. A única coisa que está em causa é que se viver com 5 mil euros é dificil, imagem o portugueses quem vivem com muito menos. Mais: somos o pais com maiores desigualdades de rendimentos na UE. E o que marca a nossa diferença não é nossos "ricos" - lá estou eu usar a palavra - serem pouco ricos (veja este post: http://simplex.blogs.sapo.pt/54723.html; para o nível de riqueza média do país, os nossos "ricos" estão bem colocados.), mas é os nossos pobres serem dos mais pobres da Europa. Desculpe as minhas prioridades, mas é com estes que eu estou mais preocupado. Sobretudo na altura de crise em que vivemos.

cumprimentos,
Hugo

Carlos Gomes Pinto a 2 de Agosto de 2009 às 12:00
Caro Hugo,
Obrigado pela sua resposta, quero no entanto pedir-lhe que à luz e dimensão de Portugal defina rico .No País onde vivo o Belmiro seria considerado uma pessoa remediada.Prefere discutir os pobres , o que a luz da nossa realidade actual faz sentido.Agora o que me confunde é o facto de os ricos deste País serem os pobres de outros estados da UE e portanto termos que arranjar uma defenição mais Universal. Já agora os nossos pobres seriam ricos no Bangladesh,India,Africa toda etc.Ajude-me sff


Antonino a 31 de Julho de 2009 às 18:46
O meu caso de rico é o seguinte:
- Ordenados brutos: 77.000,00 EUR/ano
- Ordenados líquidos: 45.000,00 EUR/ano
- Ordenado mensal líquido: 3.300,00 EUR
- Prestação da casa V3 (até Fev 2009): 900,00 EUR
- Seguros casa e vida (obrigatório pelo banco): 210,00 EUR
- Prestação do carro: 350,00 EUR
- Propina mensal da universidade da filha: 350,00 EUR
- Deslocações, livros, alimentação, etc. da filha: 250,00 EUR/ média por mês
- Energia, gás e água: 100,00 EUR/mês
- Passe de transporte da cara metade: 50,00 EUR/mês
- Gásoleo: 150,00 EUR/mês
- Almoços de ambos os contribuintes (descontando os resp. subsídios): 140,00 EUR/mês
Seguro de saúde: 125,00 EUR
PPR: 50,00 EUR/mês
Imprevistos mensais: 100,00 EUR
Se não houber imprevistos ficamos com 625,00 EUR para comer, vestir, poupar (PPR), se possível férias na casa dos pais, etc.
Claro que há pessoas que tem de ordenado menos do que me sobra para comer, vestir etc. e não podem ter carro, filha na universidade etc.
Mas temos é que lutar para que esses (os mais desfavorecidos) possam vir a ter essas possibilidades e não fazer com que os que tem passem a deixar de ter.

Isto é ser rico em Portugal.

Toino

Hugo Mendes a 1 de Agosto de 2009 às 02:36
Quer tentar fazer o mesmo exercício se, onde tem 77.000 euros de rendimento bruto, tiver apenas 17.000?

Carlos Cidrais a 1 de Agosto de 2009 às 13:13
Mas agora quem trabalha, estuda, se esforca para pagar os compromissos que assumiu na vida tem que andar a subsidiar a miseria dos outros?
Realmente nao me consigo rever num partido que em pleno 2009 ainda tem como dogma a redistribuicao de rendimentos quando estes nao sao manifestamente de classe abastada.
Felizmente vivo no Reino Unido aonde pago substancialmente menos de impostos, e finalmente deixei de me sentir explorado por um Estado, que a falta de melhor palavra, so posso classificar como ladrao.
Portugal realmente e um pais socialista, e so recentemente ( tendo termo de comparacao ) e que me pude do quao nocivo isso e para a constituicao mental do nosso povo. Ja era hora de reformar esse pensamento bafiento que tem apenas um nome: inveja de quem tem sucesso.

Hugo Mendes a 2 de Agosto de 2009 às 00:55
"Realmente nao me consigo rever num partido que em pleno 2009 ainda tem como dogma a redistribuicao de rendimentos quando estes nao sao manifestamente de classe abastada."

Estamos a falar das pessoas que constituem na fatia dos 5% mais ricos do país. Creio que podemos considerar abastadas o suficiente. Achar que só quem está nos topo da distribuição é que "trabalha,estudo e se esforça" é um preconceito a que tem direito. Eu vejo muito mais gente a fazer sacrifícios para trabalhar e cuidar da sua família - e a maioria para ganhar salários que, comparado com o valor de 5000 euros, só podem ser considerados de miséria.

Carlos Cidrais a 2 de Agosto de 2009 às 10:57
Caro Hugo Mendes
Agradeco a licao de moral ,mas eu proprio passei anos em Portugal a trabalhar e a ganhar entre 500 e 745 euros por mes, passando ainda por uma situacao de desemprego, na qual nao tinha direito ao subsidio, por durante os dois anos anteriores ter tido uma bolsa de investigacao.
Tenho uma licenciatura e mestrado.
Tenho ainda um irmao que e licenciado, e ganha actualmente 500 euros a trabalhar como repositor num supermercado.
No entanto, ambos os meus pais sao medicos na funcao publica em fim de carreira, e como calcula, ganham como agregado familiar, um pouco mais que os 5000 euros de que se fala neste post. Tendo acompanhado os esforcos que fizeram para educar os 3 filhos que tiveram, posso dizer que nos enquadramos plenamente na classe media. Mantenho o que disse acima.
Fara sentido taxar no escalao maximo profissionais de altos rendimentos, mas nao e o caso da minha familia, lamento e falo mesmo por experiencia.
E tenho pena que em Porugal se tenha esta atitude, mas nao e nada que me surpreenda.
Cumprimentos.

Carlos Gomes Pinto a 1 de Agosto de 2009 às 19:40
Hugo Mendes

Um trabalhador no Bangladesh ganha cerca de 1 euro e vinte por dia.Não lhes quer mandar o seu salário.Ou a moralidade é só quando se fala de quem ganha mais do que nós.Olhe faça como eu que emigrei ,não pago impostos ha 20 anos tenho tudo pago e 42 dias de férias e como no País onde estou sou pobre , vou a Portugal de férias para ser triplamente rico.

Stran a 1 de Agosto de 2009 às 14:13
Toino duvidas/esclarecimentos:

- Já tinhas incluido o PPR nas tuas despesas mensais;

- Quanto é que recebes de retorno de IRS?

- Como é que tens uma taxa de retenção de 30%?

Daniel João Santos a 1 de Agosto de 2009 às 18:57
O que eu tenho pena é que o Eduardo Pitta que lá mais em cima destrói os seus cálculos, não tenha caixa de comentários.


Hugo Mendes a 2 de Agosto de 2009 às 00:49
Parece-me que o Eduardo Pitta quer criticar a afirmação do Miguel Frasquilho. Nada do que eu afirmo é beliscado pelo que o Eduardo Pitta aponta como sendo uma incongruência do deputado do PSD.

Daniel João Santos a 2 de Agosto de 2009 às 09:45
O interessante deste estudo que faz, que não contradigo porque não sei, é apresentar com dados que só 4,4% da população ganha entre esses valores.

Serve assim para reforçar que a classe média está lá para baixo.

Realmente fico satisfeito de ver que Portugal está bem e recomenda-se.

Carlos Gomes-Pinto a 1 de Agosto de 2009 às 19:26
A defenição de classe média com 5000 Euros brutos ,só se for em Portugal e de rica a 5070 é anedótico.
Mas pensando bem,não deixa de ser a mania das grandezas de que sofremos.

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