Por Eduardo Pitta | Segunda-feira, 20 Julho , 2009, 22:25

 

 

Estar à beira de completar 60 anos dá-nos a vantagem de saber como foi o antigamente e como é o agora. E, sobretudo, de poder comparar o entretanto, que foi muitas coisas ao mesmo tempo. No meu caso particular, que nasci e vivi em Moçambique até aos 26 anos (o que significa ter passado pela experiência de quatro meses do imediato pós-independência), o antigamente era uma Metrópole distante, com partido único — a União Nacional —, eleições de fachada, polícia política, prisões arbitrárias, guerra colonial, emigração forçada e censura férrea, realidades que chegavam muito diluídas à costa oriental de África, excepto na parte respeitante ao conflito independentista. Fazendo fronteira com seis países de língua inglesa, Moçambique podia servir de cenário a romances de Evelyn Waugh, por oposição à melancolia de Portugal, mesmo na fase marcelista. Era assim desde os anos 1940, o que dá a medida da diferença e, sobretudo, da injustiça na distribuição da riqueza.
 
A que vem o intróito? À necessidade de, uma vez por todas, fazer acertar o passo de Portugal com a Europa e o vasto mundo desenvolvido. O 25 de Abril abriu muitas portas mas deixou as cabeças na mesma. Mal pagas, as profissões de prestígio (magistrados, professores, médicos) com real poder reivindicativo, trataram de couraçar-se para a velhice. Em 35 anos de democracia, as desigualdades alastraram por força dos benefits que cada corporação se auto-outorgou. O impasse actual traduz trinta anos de pura irresponsabilidade.
 
Quando as coisas começaram a mudar, em Fevereiro de 2005, caiu o Carmo e a Trindade. O discurso da claustrofobia fez escola. Pensadores conspícuos falam em totalitarismo. Gente que nunca foi incomodada fala de fascismo como se falasse de rebuçados. E até uma cozinheira famosa, protegida dos Tomazes, com idade suficiente para não confundir alhos com bugalhos, invoca hitlerzinhos com a leviandade própria de quem julga chegada a hora da desforra.
 
O Partido Socialista tem uma tradição de liberdade que ninguém contesta. De tal modo que, em 1975 e 1976, a direita meteu-se toda debaixo do chapéu-de-chuva do PS soarista. Foi também o PS quem, por via de um acordo com o FMI, salvou o país da bancarrota. Porém, as suas lideranças nem sempre se distinguiram pela eficácia. Porque se Mario Soares continua a ser uma referência incontornável, a gestão de Constâncio foi pura perda de tempo, e a de Guterres, que governou pouco mais de seis anos, caracterizou-se por um somatório de indecisões letais. Dos outros não reza a história: Ferro Rodrigues, infelizmente, não teve tempo; Jorge Sampaio foi um bom autarca e pouco mais. Não admira que o voluntarismo de Sócrates incomode tanta gente, tanta gente ao mesmo tempo e com tanto vigor.
 
Não há portanto que hesitar. Num país sem soluções conhecidas (onde está o governo-sombra do PSD?) e com apelos de regresso ao PREC — basta ler os cartazes do BE —, o Partido Socialista tem soluções, que podem não ser perfeitas, mas visam o bem-público e o interesse colectivo.
 

Se dúvidas houvesse, o ensurdecedor silêncio da actual direcção do PSD face à pretendida “revisão constitucional” de Alberto João Jardim seria um sinal inequívoco de que, daqui a dois meses, a escolha terá de ser feita em nome da liberdade, do progresso e do modernismo, contra o obscurantismo dos que rasgam hoje para colar amanhã.

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