Por João Galamba | Terça-feira, 28 Julho , 2009, 02:52

Neste post, citei a seguinte frase de Sócrates "Há uma revolução tecnológica em curso. Portugal tem de escolher: arrisca ou fica passivamente à espera que algo aconteça", e perguntei qual a posição do PSD em reacção a isto.

 

O Paulo Marcelo respondeu reduzindo o âmbito da pergunta. Para o Paulo, Sócrates é uma espécie de Valentim Loureiro: "Alguns, lá pelos lados de Gondomar, distribuem microondas e televisões aos idosos. Outros computadores portáteis às criancinhas.". É tudo igual, claro. O facto de haver centenas de milhares de crianças com computadores, é um pormenor de somenos. Depois, o Paulo embala na tirada liberal costumeira: o problema desta esquerda socialista é "pensar que deve ser o Estado, e não as empresas em livre concorrência, a comandar todo o investimento em novas tecnologias". Já cá faltava o chavão do mercado. Reparem como esta recorrente tirada liberal não é bem uma crítica, pois não depende de qualquer avaliação empirica dos resultados: é um apriorismo ideológico, formalmente equivalente aos preconceitos de uma certa esquerda em relação a tudo o que é privado. Inverte-se o preconceito, mas a lógica repete-se: se Louçã vê tudo sob o prisma das negociatas, o Paulo reduz todas as campanhas públicas a um acto de propaganda. São ambos juízos que precedem — e evitam — o confronto com a realidade. Para quem a interpretação é um permanente acto de suspeita, tudo o que o governo faz é necessariamente uma dissimulação. E assim se diz definitivamente adeus à realidade. E, infelizmente, assim se vai fazendo oposição.

 

Mas o maior problema do Paulo é ele fazer-se de despercebido, respondendo como se Sócrates estivesse a falar apenas de tecnologias de informação e do Magalhães. Mas a frase de Sócrates não é apenas sobre o Magalhães. Sócrates estava a falar daquilo que ele acha que está a acontecer ao mundo (uma alteração de paradigma energético) e numa estratégia de desenvolvimento para o país, isto é, numa proposta política assente naquilo que Sócrates entende serem os desafios e as oportunidades do país. Sobre isto ficamos apenas a saber que o Paulo Marcelo gostava que o PSD fosse governo para acabar com este disparate indecoroso de distribuir computadores pela criançada. É pouco. E tem um problema fundamental: desvaloriza as necessidades a que o PS procurou dar resposta, como se fosse irrelevante que centenas de milhares de crianças passassem a ter um computador.

 

Como isto é claramente insuficiente como estratégia política, o Rodrigo Adão da Fonseca, que abandonou o Hayek e abraçou, de corpo e alma, a austeridade de Ferreira Leite, tentou completar a coisa, e lá tentou responder directamente à questão. O problema, explica-nos o Rodrigo, é que esta coisa de que "revolução tecnológica" tresanda a historicismo marxista (????). Em linguagem corrente: todo e qualquer governo que ouse adoptar uma política de desenvolvimento baseada naquilo que se entende serem os desafios de futuro, é marxista. Valha-me nossa senhora, ao que isto chegou. A solução do Rodrigo é a de abandonar definitivamente qualquer visão estratégica que implique um papel activo para o estado. Um não marxista reduz o estado e liberta as forças produtivas do mercado. Um não marxista deseja "que o Governo fique passivamente à espera que algo aconteça, e que deixe o dinheiro dos nossos impostos bem sossegadinho.". Um não marxista só pode fazer uma coisa: desmantelar o estado.

 

Quando devidamente complementada com a clarificação ideológica do Rodrigo, aquilo que decorre da crítica do Paulo é que o PSD deverá ser um partido liberal. O problema é que não consta que Manuela Ferreira leite o seja. Ou melhor, o verdadeiro problema é que não sabemos. E, pelo menos até Setembro, não iremos saber
 

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André Couto a 28 de Julho de 2009 às 06:24
Excelente resposta.

assis a 28 de Julho de 2009 às 09:11
eh pá, desculpem lá mas há uma coisa que decididamente não compreendo. como é que não atacam a ferreira-leite pelo que fez? se as caras concorrentes às eleições são as mesmas das últimas governações porque é que não fazem o exercício mais simples que é a comparação entre as governações? para mostrar claramente que a velha não tem capacidade política para implementar o que quer que seja como já se viu. anda toda a gente focada no plano das ideias, mas isso tem um interesse muito relativo. a primazia é a acção e basta comparar os governos para saber se é o sócrates ou a ferreira-leite que têm um melhor desempenho governativo.
os acólitos da ferreira-leite tentam à exaustão vender uma candidata novinha em folha, sem mácula, e de certa forma conseguem-no, o que é absolutamente inacreditável. ferreira-leite é o rosto de um completo falhanço de governação!

Pedro a 28 de Julho de 2009 às 09:30
Eu tenho uma boa ideia para essas pessoas com medos de estados marxistas.
Passemos a chamar o governo de empresa, o Primeiro-ministro de CEO , o povo português de accionistas e as eleições de assembleia de accionistas. Pronto, todos felizes ?

Hugo Mendes a 28 de Julho de 2009 às 10:11
"E tem um problema fundamental: desvaloriza as necessidades a que o PS procurou dar resposta, como se fosse irrelevante que centenas de milhares de crianças passassem a ter um computador."

Eu suspeito que eles até acham bem, no fundo, que haja um milhão de computadores distribuído pelas crianças desta país. O que não suportam mesmo é que tenha sido o Estado o responsável pelo programa.
Obras desta envergadura só podem ser cumpridas pelo mercado. E ou é o mercado, ou então nada.

António a 28 de Julho de 2009 às 12:21
Seja como for, uma coisa é certa: Se o "Jamais" reflectisse o pensamento ideológico do PSD, então poder-se-ia dizer com toda a propriedade que PSD e PS são partidos completamente distintos.

António a 28 de Julho de 2009 às 12:24
Mas a verdade é que o PSD pouco tem a ver com esses bloguistas do Jamais. E estes até o sabem muito bem. Mas como as paixões são irredutíveis, o que interessa é que o Benfica perca, perdão, que o PS perca, queria eu dizer. È assim a politica para esses bloguistas. Quem não os conhecer que os compre.

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