Por Miguel Vale de Almeida | Quinta-feira, 24 Setembro , 2009, 19:30

Agora que a campanha está no fim, quero dirigir-me aos “meus”, à “minha gente”, por muito estranha (e abusiva) que possa ser esta expressão. Quero dirigir-me sobretudo aos meus familiares, aos meus amigos, aos conhecidos, aos amantes e ex-amantes, aos colegas, alunos e ex-alunos, às pessoas que conheci quando era da Política XXI e do Bloco, ao universo de gente dos sítios onde vivi e fiz pesquisa, a pessoas que passaram pelos pintasilguismos e alegrismos, às pessoas – muitas – que navegam na esquerda e sobretudo entre o PS e o BE. Muitas destas pessoas – muit@s de nós – irritam-se, e com razão, com defeitos do PS e com defeitos do BE; e agradam-se, também, com virtudes de ambos. Sabemos o quê: mais ou menos centrão, mais ou menos marginalidade; mais ou menos interesses, mais ou menos purismo; mais ou menos reformismo, mais ou menos radicalismo; mais ou menos incoerência, erros passados, esperanças goradas; teorizações diferentes, pensamentos mais ou menos coesos ou dinâmicos, atenções maiores e menores a estratégia e táctica, a estrutura e conjuntura, diferentes percepções das relações entre teoria crítica e estratégia e pragmatismo políticos. Etc.

 

Nem falemos disso. Falemos sim, do que nos une. Unem-nos valores. E esses valores são progressistas. Assentam na liberdade, na fraternidade, na igualdade. Assentam no humanismo, mesmo com a crítica pós-moderna a temperá-lo. Assentam no respeito pela história das esquerdas, mesmo com a crítica aos erros – e quantos deles terríveis – por ela cometidos. Une-nos uma atitude de esperança, de mudança, de modernidade, de cosmopolitismo, de desejo de igualdade de oportunidades, de que isso aconteça o mais depressa possível e para o maior número possível de pessoas. Acontece, porém, que agora é preciso votar. E ao votar decide-se a composição do parlamento e, indirectamente, a constituição do governo. Neste momento confrontamo-nos com duas cisões e decisões. De um lado, entre a direita e a esquerda, se aceitarmos – como aceito e defendo – que o CDS, o PSD, Manuela Ferreira Leite e Cavaco Silva representam o Portugal dos valores conservadores, tantas vezes reaccionários, apelando a um caldo de cultura que é herdeiro do atraso histórico atávico de um país cruelmente desigual e só há 30 e poucos anos em democracia. Do outro lado, temos a divisão entre as esquerdas, divisão herdada ainda do 25 de Novembro, em torno da aceitação ou não da economia de mercado, do grau e natureza da reacção ao neo-liberalismo, do valor relativo dado às ideias de reforma, negociação, revolução, utopia. Para mim, o percurso do Bloco, pelo menos enquanto o acompanhei até há mais de 3 anos, foi no geral positivo, pelo que trouxe à nossa política e à nossa esquerda de pensamento e acção e pressões novos. E até reconheço a honestidade da convicção (mesmo que a ache errada) dos que dizem que o voto no BE seria uma forma de forçar políticas de esquerda num governo minoritário do PS. Mas o Bloco que eu agora vejo perdeu a linguagem inicial, perdeu o élan de partido jovem, cristalizou-se e burocratizou-se com a vitória dos sectores mais ortodoxos, supostamente por causa da urgência dos problemas de emprego e laborais – e é verdade que são urgentes e mesmo prioritários, disso ninguém duvida – só que são para a direcção actual do Bloco um argumento para o regresso ao “partido comunista renovado”. E o PS que eu agora comecei a conhecer tem um potencial de mudança e de vida que lhe advém da sua diversidade, da sua tranversalidade, da sua representatividade das diferentes classes, grupos e categorias da sociedade portuguesa, e das mudanças entretanto verificadas pela crise. Mais ambíguo, é certo. Mas porque não pode refugiar-se no conforto sectário de um certo tipo de fundamentalismo intransigente.

 

Poderia falar de mil e uma coisas – até porque não quero ser o deputado apenas das causas LGBT (não quero, aliás, ser mais do que deputado, independente, não quero cargos executivos e tenho no horizonte da minha vida o regresso à universidade e à minha profissão). Mas falo da questão LGBT, porque reconheço ser essa a marca que me foi consignada e é por aí que muita da “minha gente” me olha. Tenho sentido na campanha uma receptividade enorme ao que vou dizendo, uma surpresa encantadora com a capacidade de exercer pedagogia sobre pessoas pelo simples acto de nos conhecermos e de lhes dar testemunho da minha vida e da d@s LGBT bem menos privilegiad@s do que eu. Nesta área, o PS proporá a igualdade de acesso ao casamento civil para casais do mesmo sexo, e teremos maioria de esquerda para o aprovar. E como deputado farei toda a pedagogia, todas as reuniões, tomarei todos “os cafés” e “almoços” (grátis ou não), promoverei todas as audiências, interpelarei todos os órgãos e comunicarei por blog para toda a gente, sobre as outras questões que são para mim vitais porque são vitais para a comunidade LGBT e para a dignificação da democracia portuguesa e de toda a gente: as questões de parentalidade, incluindo a adopção e a co-adopção, o acesso das mulheres sozinhas e das lésbicas à PMA, as questões da identidade de género para as pessoas transgénero e transexuais e uma Lei da Igualdade que venha instituir o princípio do mainstreaming de igualdade em todas as leis e em toda a administração pública.

 

Mas é pelo casamento que começaremos. Começaremos por aquilo que, mundialmente, gays e lésbicas perceberam, no período posterior à crise da sida, ser a chave que abrirá os outros armários, o passo inicial para o fim da homofobia institucional. Em Portugal devemos orgulhar-nos de termos sabido transformar isso numa prioridade. Eu orgulho-me de o ter feito como opinador e de o ter feito, inicialmente, no Bloco, ao introduzir o tema, que felizmente ganhou raízes. Orgulho-me do papel das associações que souberam apostar nesta estratégia. Mas não sou, como se diz por aí, o “papa” (que horror de expressão) desta coisa. Aprendi e construí esta agenda por iniciativa de e em conjunto com a inteligência, a sensibilidade e a dedicação sobretudo de alguém que aqui quero invocar: Paulo Côrte-Real. Com ele, comigo, com tanta e tanta gente, investimos neste assunto de forma pioneira, contra a vontade quer de conservadores e reaccionários (os verdadeiros defensores da asfixias e das fracturas), quer de pessoas de esquerda hesitantes ou contraditórias, quer de supostos radicais que durante tanto tempo desprezaram o assunto. E orgulho-me de, depois de tantos erros e hesitações, ter visto o PS avançar neste sentido e senti-lo avançando cada vez mais, como grande partido de governação, nacional, popular, capaz de abranger uma fatia muito maior da população, diverso, e onde todos os dias estou certo travar-se um diálogo para trazer cada vez mais parlamentares, militantes e eleitores para a dignidade da humanidade e para a humanidade da dignidade.

 

Não é apenas porque me considero um social-democrata na verdadeira acepção da palavra que me candidato pelo PS, mesmo assumindo todas as críticas que fiz a algumas das suas políticas ou dirigentes ou a algumas ausências dessa mesma social-democracia radical. É também, e sobretudo, porque está na hora de completar no plano legislativo o princípio da igualdade na nossa democracia, alargando para lá dos sectores minoritários já pr defeito convertidos à agenda que tant@s de nós têm de combate à violência histórica, física e simbólica da homofobia. No dia 27, primeiro que tudo há que derrotar o conservadorismo; e há que apostar na possibilidade de mudar a vida em tempo útil. No dia 27, apelo ao voto no PS. E depois conversaremos, tod@s @s que partilhamos o ideal da Liberdade.

 


Pedro Sá a 24 de Setembro de 2009 às 19:49
Miguel, pode explicar em que consiste em concreto o princípio do mainstreaming de igualdade?

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