Por João Galamba | Quinta-feira, 24 Setembro , 2009, 18:37

(Texto da autoria de Gonçalo Marcelo, doutorando em Filosofia na Universidade Nova de Lisboa)

 

Nenhum político pode aspirar à melhoria real da sociedade de cujos destinos se encarrega se considerar o exercício do poder como sendo a manutenção do status quo. Em certo sentido, um bom político tem que ser optimista, é certo, mas também insatisfeito; deve sentir em si a força motriz do progresso, da mudança em direcção a algo de melhor. E deve lutar por isso. Talvez seja esta mistura de confiança e optimismo, mas também de insatisfação e capacidade de luta, aliada aos dons naturais de comunicação que faz com que Obama seja o incrível político que mostra ser.

 

É nesse sentido que a política tem de ser, até certo ponto, utópica – isto é, tem de poder ser atraída pela possibilidade do diferente, pela representação do melhor, que é remetido para um tempo futuro mas que, em última instância, só pode ser obtido através da acção no presente.

 

Certos utópicos constroem sistemas de ideias perfeitas, ou escrevem sobre cidades que realmente não têm lugar. Por vezes, desiludidos com a distância que vai do aqui e agora até à projecção imaginada, desistem da realidade, fogem perante as dificuldades empíricas. Esta é a lógica do tudo ou nada, que a nada mais corresponde que a uma contaminação da realidade pela hipérbole do ideal. É uma má utilização da utopia, que corresponde a uma lógica de fuga. A utopia produtiva, se assim lhe quisermos chamar, é como uma ideia reguladora. Não tem de existir para produzir efeitos. E não tem de ser absolutamente obtida, em todos os seus contornos de projecção ideal, para que nos aproximemos o mais possível dela.


A utopia tem por função abalar a ordem estabelecida. Todavia, nunca o faz de um só golpe, nem nunca se chega imediatamente onde se quer chegar. Pelo contrário, ela requer um esforço constante. De certa forma, a utopia tem de estar sempre a ser realizada. E, como bem mostrou Paul Ricœur, não se pode eximir da responsabilidade do exercício do poder. É essa a diferença entre a esquerda responsável do Partido Socialista e os movimentos à esquerda do PS, cuja vocação de protesto impede a participação activa na verdadeira transformação.

 

O caminho para a utopia também pode ser o da reforma contínua, em direcção a um melhor futuro. Como é óbvio, os interesses estabelecidos e as forças conservadoras reagem. Mas é exactamente nessa medida que a política utópica e o político corajoso deve reagir com a força da sua convicção.

 

Por ideais como uma maior igualdade e um Estado efectivamente social, o PS deve voltar a ser eleito. A Direita deve ser derrotada, uma vez mais. Como diria Obama: nós somos aqueles por quem temos esperado.


 



Adolfo Contreiras a 25 de Setembro de 2009 às 03:01
A utopia é uma vontade moral para o bem absoluto que a nossa racionalidade cria como referência para caminhar numa direcção. Contudo esse caminhar será contínuo, o percurso tem de ser uma linha sem descontinuidades. A caminhada da marcha humana não pode ser interrompida, ter uma descontinuidade para recomeçar desta ou daquela maneira ou noutro local fora da linha da marcha comum, de acordo com uma invenção de um cientista social.
Empécocles em Agrigento, Pitágoras em Crotona, Platão em Siracusa quizeram impor à força uma utopia da inteligência racional e foram corridos pelos povos submetidos a tal prova. Marx foi à gens primitiva e à crítica do capitalismo para inventar outra utopia e acabou recentemente como se sabe.
A caminhada humana não foi inventada por cientistas em laboratório ou numa biblioteca e o estádio civilizacional actual da sociedade não é o resultado de qualquer utopia imposta: é o resultado da mudança e renovação contínua face à mudança também contínua, inexorável e determinista imposta pela vida e morte dos homens em simultâneo com a necessidade vital de viver e sobreviver conjuntamente.

Irene Pimentel a 25 de Setembro de 2009 às 09:55
Muito bom texto. Concordo. Cá está um argumentário que enriquece o debate político.
«Certos utópicos constroem sistemas de ideias perfeitas, ou escrevem sobre cidades que realmente não têm lugar. Por vezes, desiludidos com a distância que vai do aqui e agora até à projecção imaginada, desistem da realidade, fogem perante as dificuldades empíricas.»

Fogem ou tentam fazer à força e totalmente(itariamente)essas «cidades». Mas em vez de paraísos terrenos fazem o inferno na terra.

Vera Santana a 25 de Setembro de 2009 às 13:07
Concordo com o sentido do texto, com os fundamentos que o sustentam, com a tranquilidade que dele emana, com o projecto de construção - lento, diário, sem descanso e plural - de uma sociedade proposto, projecto esse que tem como modelos, em simultâneo, a utopia, o exercício de responsabilidades por cada um/a de nós e o diálogo democrático que leva a compromissos negociados de livre vontade.

Vou votar no Partido Socialista por convicção e por responsabilidade.

Aqui deixo saudações socialistas, não apenas aos meus camaradas de blog mas a "tanta gente"!

Vera Santana

Gonçalo Marcelo a 25 de Setembro de 2009 às 14:57
Irene, Adolfo, obrigado pelos simpáticos comentários.

Sim, acho que têm razão. Quer dizer, a força utópica deve estar presente na mente de quem governa. Como refere Platão, o Filósofo (ou, neste caso, o governante, se quiserem) deve contemplar as Ideias. No entanto, não se deve perder na contemplação delas. A determinada altura, deve voltar à realidade e tentar implementá-las.

E, claro, impôr a utopia pela força pode ser desastroso, temos experiências históricas que o demonstram. Isto sem falar na hipocrisia dos governos de estilo soviético, que se isolam na sua bolha partidária e ousam proclamar-se representantes do povo.

Se quiserem, eu insistiria na ideia de que a utopia tem de estar constantemente a ser realizada. É um processo contínuo e em aberto. Veremos até onde ela nos leva!

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