Por Gonçalo Pires | Sexta-feira, 11 Setembro , 2009, 07:49

É muito interessante que o Tiago tenha descoberto uns números. Obrigado Tiago. Ainda bem que o fez. É sempre bom ter oportunidade de discutir o TGV. É me difícil compreender a obsessão deste PSD para com o investimento numa rede de alta velocidade. Meses depois de um choque petrolífero e num contexto económico onde se discute os nossos défices externos e um novo paradigma de energias limpas, porquê tanta teimosia? No entanto, até agora, os argumentos contra TGV tinham intencionalmente esquecido as comparações com outros países Europeus. O Tiago fez-nos o favor de nos lembrar que muitos países Europeus já investiram no TGV. Mais uma vez, obrigado Tiago. Apenas uma pequena correcção. Se Portugal tiver a felicidade de ter 500km de linhas de alta velocidade daqui a 10 anos, não seremos dos países da Europa com mais km de TGV. É que os outros planeiam igualmente investir no TGV, e não porque o achem bonito. Apenas porque será útil e decisivo para o futuro das economias Europeias, tal como reconhece a Comissão Europeia. Daqui a 10 anos a Europa terá 20.000km de TGV o que representa uma expansão brutal da rede. Para comparar Portugal com a Europa daqui a 10 anos convém ajustar os seus números aos planos de investimento de cada país. Um pormenor.

O comentário do Tiago comete outra proeza assinalável. Venera a prudência da Bélgica e da Holanda e compara-a à suposta irresponsabilidade Portuguesa. Ignora o conceito de periferia, ignora a importância da distância como factor decisivo para a competitividade de um País, mostrando igualmente que para o PSD estratégias de desenvolvimento são conceitos abstractos que se aplicam a qualquer país excluindo da análise a especificidade do caso Português. Diz-se que o último Nobel da economia foi atribuído por um estudo que analisa o impacto da geografia como factor de desenvolvimento. Percebe-se que um país que esteja no meio de muitos não precise de muito para ter tudo. Mas mesmo assim, JÁ investiram no TGV. Como diria o Jumento: Louve-se a prudência.

 

 

Cada escolhe o lado para onde quer avançar. Se preferir até podemos parar um pouco para descansar um bocadinho. Convém é não perder de vista o caminho que queremos seguir. Correremos o risco de ficar perdidos num canto com muita energia mas sem saber para onde ir.

 

Em jeito de anexo, deixo um excerto de um artigo do Nicolau Santos no Expresso de Junho sobre o TGV.

 

“É que, para os que estão distraídos, os transportes ferroviários são a grande aposta da União Europeia para o século XXI. Na verdade, em 2020 a Rede Transeuropeia de Transportes terá uma extensão total de 94.000 km de ferrovia, incluindo cerca de 20.000 km de linhas de alta velocidade. Este objectivo implica a construção de 12.500 km de novas linhas de caminho-de-ferro e a modernização de 12.300 km. Quando estiver concluída, espera-se uma redução de 14% no congestionamento rodoviário e uma redução anual de 4% das emissões de CO2. Última nota: a linha Madrid-Sevilha dá dinheiro. Madrid-Barcelona regista um tráfego colossal. Os franceses vão duplicar a linha Paris-Lyon e vão investir mais 14 mil milhões em novas linhas. Ou seja, há vários países a concretizar os seus projectos: Espanha, França, Alemanha, Inglaterra, Bélgica, Itália, Holanda, Suécia, Grécia, Suíça, República Checa… Finalmente: olhe-se para o mapa acima. Somos muito periféricos. Queremos ficar ainda mais? E quantos fundos comunitários vamos perder? Adiemos portanto a decisão. Estude-se mais. Mas acho que vamos mesmo ter Alta Velocidade em Portugal. Só não sabemos é quando.”

 


Vicente a 11 de Setembro de 2009 às 14:46
Projectos como o aeroporto e o TGV são estruturantes para diminuir a nossa periferia e se eles pensam adiar tudo até as cosias melhorarem bem podem ir adiando e perder fundos pois nunca haverá o momento ideal. Por isso mesmo tem de ser feito agora, com as devidas precauções claro... mas tem de ser feito.

Joaquim Amado Lopes a 12 de Setembro de 2009 às 14:52
Duas questões:
1. Os estudos de viabilidade do TGV em Portugal partem do pressuposto de um aumento brutal no número de passageiros (p.e. no trajecto Lisboa-Madrid, de 24 milhões em 2003 para quase 50 milhões em 2033).
Deixemos de lado a questão sobre de onde vem tanta gente a viajar mais num Mundo em que as viagens serão cada vez mais caras e menos necessárias, pelo menos para fins de trabalho.
E assumamos que o transporte ferroviário é mais eficiente em termos energéticos do que os meios de transporte que substituirá.

O consumo de energia usada para transporte aumentará de forma brutal. Como será produzida essa energia? Há um limite ao número e extensão de parques eólicos e hídricas.
Portugal vai continuar a importar petróleo/gás para produzir electricidade? Ou opta pelo nuclear?
Ou estão a contar com que, nos próximos 10-15 anos, surja e fique disponível para uso comercial generalizado uma tecnologia revolucionária que permitirá a produção abundante de energia a baixo custo (económico e ambiental)?

2. Os fundos comunitários pagam apenas uma parte dos projectos, o que significa que o Estado tem suportar o resto. Assim, não fazer um projecto não é perder dinheiro mas sim deixar de fazer algo a um custo inferior ao real. Não interessa quanto dinheiro a UE dá para o projecto mas sim se o que se obtém desse projecto vale mais do que a parte que o Estado terá que suportar. E, quando o projecto implica em despeza futura, se a exploração será lucrativa ou não.

Mas a minha questão é outra: quantos fundos comunitários "perdeu" Portugal desde, p.e., 1995 por não estar disponível para suportar o resto dos custos dos projectos em questão? Ou o TGV será o primeiro desses casos?


Gonçalo a 18 de Setembro de 2009 às 20:39
Dois comentários avulsos sobre o post e comentários.

Caro Joaquim,
levanta um conjunto de pontos interessantes, no entanto, tenho de discordar quanto ao segundo ponto: interessa, e muito, quanto dinheiro a UE dá para o projecto!

Qualquer decisão de investimento, deve ser fundamentada com base num NPV (Valor Actual Líquido) positivo. Para saber se é positivo ou não, há que considerar o investimento inicial (no caso do TGV parece-me que o mesmo é não negligenciável).

É como dizer que o facto de alguém me ter oferecido meio milhão para abrir um loja de comida macrobiótica para periquitos, em nada influenciaria a minha decisão de o fazer.

Por outro lado Gonçalo, o argumento do choque petrolífero e da eficiência energética do TGV também me parece discutível. Não é nada consensual que o TGV seja um meio de transporte energeticamente mais eficiente. Envio o link para um estudo sobre o tema: http://www.engineering.lancs.ac.uk/research/download/Transport%20Energy%20Consumption%20Discussion%20Paper.pdf


Joaquim Amado Lopes a 21 de Setembro de 2009 às 00:41
Repito "Não interessa quanto dinheiro a UE dá para o projecto mas sim se o que se obtém desse projecto vale mais do que a parte que o Estado terá que suportar".

Se me oferecerem "meio milhão para abrir um loja de comida macrobiótica para periquitos", muito provavelmente não precisaria de meter nenhum dinheiro meu. No início, pelo menos.

Mas imagine que, para receber o meio milhão, teria que abrir uma loja que, só para começar a funcionar, exigiria mais um milhão que não tenho.
Que, para a loja ser financeiramente viável, seria necessário que pelo menos 50% de toda a gente da região (Lisboa, p.e.) comprasse comida para piriquitos nessa loja.
E que não a poderia fechar nunca mais.

Acha que o meio milhão devia mesmo ser decisivo para eu abrir a loja?
Ou o milhão que teria que pedir emprestado e o mais que provável prejuízo operacional deveriam fazer-me pensar melhor na "oferta"?

Gonçalo a 21 de Setembro de 2009 às 10:52
Bom dia Joaquim,
percebi de facto o seu ponto, continuo a discordar.
Financeiramente, e usando o seu exemplo, vamos assumir que a loja tem como custos:
a. 1Milhao de investimento inicial
b. a gestao operacional da mesma geraria prejuizo todos os anos de 1Milhao.

Se assumirmos um wacc (weighted average cost of capital) de 10% (estou a usar 10% para simplificar, mas pode usar o valor que quiser, havendo mesmo formulas para o calcular), obtemos que:
Valor Actual Liquido = Investimento inicial + CF/wacc

O CF/wacc e tao so o valor do prejuizo anual da operacao, dividido pelo wacc - e a formula da perpetuidade que nos permite saber qual o valor presente desses cash flow negativos.
Assim, temos que
VAL = -1M -10M = -11M

-11M seria o prejuizo acumulado ate a eternidade, actualizado para valores de hoje. Ora se me oferecessem 15M para abrir esse negocio, fa-lo-ia, uma vez que 15M>11M.

Dito isto, o que temos mesmo de considerar e se o valor que nos dao e superior ao investimento e cash flows (eventualmente negativos) gerados descontados para o presente.
Mas para essas contas, parece-me que temos contas para todos os gostos.

Cumprimentos


Joaquim Amado Lopes a 21 de Setembro de 2009 às 23:11
Gonçalo,
E eu percebo por que razão complicou o que é extremamente simples: para que não se repare que introduz novos valores.

O problema com as suas contas está em "se me oferecessem 15M para abrir esse negocio" com "1 Milhao de investimento inicial".
É que, no caso do TGV, o que nos "oferecem" não cobre sequer o investimento inicial, quanto mais os prejuízos futuros.

Protocolos
comentários recentes
Ainda bem que procurei por ti na internet em geral...
A discussão sobre pagar a saúde de acordo com os r...
Espero que o José Sócrates faça um bom trabalho..
Boa tarde, gostava da vossa opinião.hoje dirigi-me...
EsclarecimentoA notícia é apenas sobre uma propost...
Venho por este meio relatar-vos uma situação que c...
Sou nova nestas andanças, da net (não em anos-57) ...
Obrigada pelos textos que nos deram a ler, a refle...
Estou de acordo com a ideia lançado por vocês impo...
Simplex , simplesmente. convido-os a visitarem o m...
já agora gostaria que observem uma iniciativa empr...
Estava a gostar deste blog...
Uma escrita muito pobre, na generalidade dos casos...
Estou numa dúvida: a oposição não foi eleita para ...
Posts mais comentados
88 comentários
50 comentários
44 comentários
43 comentários
38 comentários
36 comentários
27 comentários
25 comentários
arquivos
pesquisar neste blog
 

As imagens criadas pelo autor João Coisas apenas poderão ser utilizadas em blogues sem objectivo comercial, e desde que citada a respectiva origem.