Por Porfírio Silva | Quarta-feira, 09 Setembro , 2009, 11:29

 

Louçã tem feito nas últimas semanas o que constitui o ataque mais cerrado das últimas décadas, vindo de qualquer força política das actualmente em liça, de esquerda ou de direita, ao PS. Deu múltiplas entrevistas e definiu implicitamente o objectivo de desmembrar o PS, para “baralhar e voltar a dar”, tudo embrulhado na sua aspiração de liderança como candidato a primeiro-ministro. O frentismo, misturado com populismo, é o cimento dessa ofensiva: é o que fica à vista na insistência de que o BE não é bem um partido, mas mais um movimento de tipo novo. Piscando o olho, até, ao sentimento anti-partidos.

 

Ontem, no debate com Sócrates, Louçã teve a ideia (correcta) de que seria contraproducente mostrar essa face de inimigo assanhado do PS ali à frente de toda a gente. E tentou inicialmente moderar ligeiramente o seu discurso. Mas essa postura a-fazer-de-moderado era postiça e não durou.

 

Primeiro, Louçã prosseguiu a sua tentativa de se mostrar como paladino das novas aventuras à esquerda. Esqueceu-se, contudo, de que algumas das suas ideias, em vez de novas e inovadoras, são velhas demais para esquecermos a sua história. Sou dos que admitem que as nacionalizações podem ser necessárias e úteis e que o Estado não deve em princípio prescindir dessa possibilidade. Mas não é preciso ter memória de elefante para saber que o controlo generalizado da economia (e da sociedade) pelo Estado é um caminho que provou não ser menos problemático que a mão invisível. Louçã fala muito da história recente mas parece ter perdido os primeiros volumes da série. Mostrou, assim, arrogância política – porque imaginou que, invocada a ideologia, as suas propostas não teriam que passar o crivo da análise pragmática e concreta.

 

Segundo, Louçã continuou a sua cruzada moral. Tentou, de novo, encostar o PS à imagem de um bando de vendilhões do templo que trocam o interesse público pelos favores aos amigos e respectivas empresas. Claro, na base desse raciocínio está a ideia profunda e subliminar de que as empresas são pecaminosas e que “os negócios” e o lucro são coisa do diabo. Desta vez, para isso, foi buscar mais um “caso”. Uma adjudicação inexistente. Mas que Louçã insistia que sim, que estava consumada. Mais uma vez, a chave é a mesma: Louçã, na sua arrogância, achava que a palavra dele contra a de Sócrates tem de ser fatal a Sócrates. Uma mera afirmação de Louçã seria suficiente para desmentir Sócrates, porque – como outras vezes FL fizera antes – o pressuposto era que JS mente sistematicamente. Também nesse ponto este debate foi paradigmático dos últimos anos: o veríssimo Louçã mentia, o seu suspeito do costume falava verdade.

 

Tudo isto para dizer o quê? Para dizer que não desprezo o contributo do BE para um debate à esquerda. Que acharia um erro monumental se o PS não procurasse compreender, por exemplo, o contributo crítico do que tenho chamado “esquerda académica”, que está a ajudar a falsificar os dogmas neoclássicos em economia e a contrariar os paladinos da mercantilização da sociedade. Para dizer que precisamente os socialistas são aqueles que estão em condições de dar bom uso a essa reflexão, levando-a ao governo do país.

 

Mas tudo isto também para dizer que o facto de certos dirigentes da “esquerda da esquerda” serem intelectual e politicamente arrogantes – não nos deve convencer de que a arrogância seja uma virtude da esquerda. Bem pelo contrário. Temos é que nos livrar das amálgamas entre arrogância (moral e ideológica) e políticas de esquerda. Por serem ilegítimas essas amálgamas. E porque elas só podem abrir a porta ao regresso do neo-cavaquismo: por causa do carácter essencialmente arrogante do próprio cavaquismo, que assim encontra uma (inesperada?) bênção à esquerda.

 

Adenda: Louçã não aprende. Foi do debate com José Sócrates para um comício onde voltou a mentir. "Esta noite já ganhámos 500 milhões de euros, porque já não vai ser possível o senhor primeiro-ministro manter o negócio com Jorge Coelho", afirmou Louçã no momento que se tornou o mais aplaudido do seu discurso. Já tinhamos o PSDV (PSD de Verdade). Agora temos o BEV (BE de Verdade). Ler e ver aqui, para verificar como em poucos minutos Louçã despe o manto diáfano da falsa cordialidade e volta ao papel que gosta: o de acusador sem contraditório. Fazia bem, ontem, Judite de Sousa, quando perguntou quem falava verdade e quem mentia. Já Judite tem a sua resposta?

 

(uma versão alternativa: pornografia e livres philosophiques)


Valupi a 9 de Setembro de 2009 às 11:56
Muito bem, Porfírio.

Augusto a 9 de Setembro de 2009 às 12:20
Mas haverá pessoa mais arrogante do que José Socrates?

Porfírio Silva a 9 de Setembro de 2009 às 12:35
Homem, ainda não percebeu que esse disco riscou? Esteve na estepe e não tem visto nem ouvido nada nos últimos tempos, é?

Caty Waves a 9 de Setembro de 2009 às 12:30
Para quem pensava que Louçã é o homem de boas ideias e ideias fixes, o debate de ontem desnudou magistralmente por Sócrates a intenção comunista de Louçã - quem se lixa não é o 'Amorim' - é a classe média e os pobres.

Vera Santana a 9 de Setembro de 2009 às 13:00
A ÚLTIMA APARIÇÃO DE FRANCISCO NA PANTALHA

Falou por si só! Nem faço (muitos) comentários sobre o que toda/o/s ouvimos: o não-paradoxo (?!) entre o desejo de poder democrático - lugares na Assembleia da República - e o desejo de abolir por decreto classes sociais, propriedade privada, empreendedorismo, e de nacionalizar pequenas e médias empresas (ateliers de artistas, se calhar) companhias de teatro, institutos de investigação?

Será que ainda há Habitantes das Urbes que vão civilizadamente votar BE? Será que as griffes das roupagens do Francisco Louça ainda conseguem esconder as plumagens da raposa Louçã?

Leiam Lafontaine, Senhores! E o Real Programa do Bloco!

V.S.

fernando f a 9 de Setembro de 2009 às 13:32
Enquanto a coisa andou pela retórica, Louçã manteve-se à tona, mas quando Sócrates o convidou prá terra, vamos lá aplicar o seu programa, aí Louçã ficou sem pé e submergiu . E quando chegou à Suécia esqueceu-se que até o Spielberg , se pôs ao fresco, e que daí para cá, esta, passou por várias fases até atingir de novo o estatuto que é o seu, grande paladino da social/democracia.

trigueiral a 9 de Setembro de 2009 às 15:24
A história que o Louçã contou ontem sobre a adjudicação da auto-estrada,vinha há dias escrita em vários jornais, exactamente nos mesmos termos.

Só que na altura ninguém a desmentiu...


Porfírio Silva a 9 de Setembro de 2009 às 15:36
Pois, é para isso que servem os jornais: contar a história que convém. Ou antes de ela chegar ao fim. E o que faz um sr. deputado e candidato a PM? Não vai para a TV dizer coisas sem as verificar.

fernando f a 9 de Setembro de 2009 às 20:02
Errata: Onde está Spielberg leia-se Bergman , Ingmar Bergman .

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