Por Tiago Julião Neves | Quarta-feira, 09 Setembro , 2009, 05:39

 

Nas últimas décadas assistimos a uma crescente sacralização da ciência nas sociedades ocidentais. O espaço deixado vago pela desilusão de gerações urbanas e cosmopolitas com as religiões tradicionais foi progressivamente infiltrado pelos extraordinários progressos científicos alcançados pela humanidade.

 

A permuta da fé tradicional por outra de matriz tecnológica em que sobressai a facilidade de dominar a natureza inicia-se ao ritmo de missões lunares, de computadores 48k e de operações de coração aberto. As religiões dominantes perdem o monopólio do sagrado e a ciência inicia uma marcha triunfal. O Homem descobre que não precisa de Deus para descodificar o genoma nem da sua bênção para navegar no ciberespaço.

 

Aplaudo a aparente libertação, mas trocar Deus pelo iPod pode ter graves consequências se à ciência se atribuir lugar divino. Assumir que o futuro colectivo depende mais de desígnios externos (cientistas iluminados) do que do somatório das nossas acções individuais, infantiliza e desresponsabiliza a espécie humana.

 

 

 

Nas alterações climáticas por exemplo, não há volta a dar, a tecnologia só não chega e Deus pode chegar atrasado. Neste caso pregar a salvação pela ciência é extremamente perverso porque escamoteia a real necessidade de alterar hábitos individuais insustentáveis, no muito curto prazo. É fundamental não nos iludirmos com devotos do culto tecnológico como Lomborg, e assumirmos de forma consciente e solidária o ónus político de medidas tão impopulares quanto urgentes, porque o custo de não agir já será várias vezes superior no futuro, conforme atestam o Relatório Stern e o Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas.

 

É claramente mais agradável acreditar no milagre dos biocombustíveis do que andar mais a pé e de transportes públicos. Sacrificar bem-estar imediato em nome de medidas duras cujos efeitos só serão visíveis num futuro distante acarreta custos políticos óbvios para o governo que as adoptar, mas é também uma marca de responsabilidade governativa.

 

O Governo PS (que não é perfeito) tem dado passos consistentes no sentido de alterar a matriz científico-tecnológica da nossa sociedade através da aposta em bolsas de investigação e desenvolvimento, mas também em áreas chave como as energias renováveis e a mobilidade eléctrica. É apenas o início de um caminho longo e incerto, que não dispensará afinações de rumo e alterações aos comportamentos individuais. Mas o fundamental é que o rumo central está traçado a caminho da sustentabilidade e representa uma forma de ver o Mundo onde se reconhece a existência de limites, que acredito é a mais correcta ética, política, social, ambiental e economicamente.

 

A ciência e a tecnologia são elementos fundamentais de um futuro sustentável em conjunto com muitas outras disciplinas do saber. As tecnologias actuais não merecem um papel sagrado, até porque seria uma deselegância para com a "enxada", tecnologia de ponta do neolítico, mãe da agricultura e das trocas comerciais que nos permitiram acumular riqueza para um dia termos direito à Cérelac e ao MIT.

 

 

Nota: Para evitar aproveitamentos informo que apoio o excelente e pioneiro investimento realizado pelo Governo PS em matéria de ciência e tecnologia ao longo dos últimos 4 anos, o que não considero de todo incompatível com a crítica ao papel quase divino da ciência na sociedade contemporânea ocidental.


Miguel Reis Cunha a 9 de Setembro de 2009 às 10:37
Ó Tiago, olhe que a escrever assim ainda lhe Palmira dá uma sova
:O)

Vera Santana a 9 de Setembro de 2009 às 10:45
Tiago,

Subscrevo o post na íntegra. Sublinho que cabe a cada um/a de nós - individual e colectivamente - agarrar com as mãos os saberes científicos e técnicos que o ser humano foi inventando. E agarrar com as mãos a partir de um quadro que contém - também - princípios científicos (da sociologia, da história, da antropologia, da psicologia, etc.) e, last but not least, o exercício efectivo de vontades e de poderes políticos.

Se, nas empresas produtivas (por ex.) a robotização é uma realidade crescente, só uma visão sócio-técnica poderá reorganizar essas unidades produtivas de um modo eficaz, eficiente e humano. Cabe, por conseguinte, aos profissionais das ciências sociais a proposição de mudanças em diálogo com os actores sociais das unidades produtivas e com os diversos poderes e interesses em jogo.

No discurso do senso comum, ciência e técnica são entendidas sobretudo como saberes do domínio da ciências duras, das engenharias, da biologia. É fundamental não esquecer as ciências sociais, o seu papel na charneira daquilo que é "técnico" e daquilo que é "político". São elas que nos dizem quão longo é o tempo necessário à mudança das percepções, das práticas, dos modos de sentir e pensar.

As técnicas tornaram-se, nas representações colectivas, de tal modo endeusadas que passaram a usar o nome de tecnologias...

Saudações,

V.S.

susana a 9 de Setembro de 2009 às 15:27
Entre os vários pensadores do século XX que abordaram a técnica , é Martin Heidegger que vai, de forma central e profunda, analisar e questionar a técnica, nomeadamente em La question de la technique ", de 1953, e em "Língua de tradição e língua técnica", de 1962, expondo o lugar e o papel da técnica na experiência moderna, assim como procurar a revelação da sua essência. Ao questionar a técnica, Heidegger, procura pela sua essência, desmontando a noção da técnica como algo “neutro”, ou seja, a sua concepção antropológico-instrumental , mostrando que a técnica é pro-dução , é desvelamento . A técnica moderna, ao contrário do que acontecia antes da revolução industrial, provoca e obriga a natureza, tornando tudo o que existe no mundo em “fundos” ou “recursos” Bestand ), tudo pode ser requisitado, mesmo o ser humano. Heidegger defende que a essência da técnica moderna é o que ele denomina por Ge-stell " (que em português pode ser entendido como dispositivo). Esse carácter de dispositivo surge no século XVII, com a possibilidade moderna de controlo da natureza. A natureza passa a estar à disposição, e é aí que se encontra o perigo.

Tiago a 9 de Setembro de 2009 às 17:51
O post comeca bem, mas depois cai precisamente no erro que aponta: sacralizacão da ciência.

Não só mostra um excesso de credulidade nas previsões de global warming feitas por cientistas (muitas vezes usando modelos predictivos que lembram em parte a astrologia) como se mostra muito feliz com o investimento insustentalvel em ciencia (o que nos iremos fazer, doutorandos aos magotes, quando acabarmos os nossos doutouramentos e bolsas? Isto considerando que o fenómeno dos super-desempregados - desempregados com formacao de ponta - já acontecia antes deste investivemento massivo em formacão científica)?

O dinheiro não é infinito. E às vezes pergunto-me se a minha bolsa fofinha (o que a FCT me paga enquanto estudante de doutoramento com bolsa mista é bastante razoável) não seria melhor aplicado a suportar, por exemplo, melhor pré-escolar para criancas vindas de famílias com dificuldades económicas e sociais.

Peco desculpa, o meu teclado não tem Cs cedilhados.

Tiago Julião Neves a 9 de Setembro de 2009 às 19:24
Obrigado pelos comentários.

Caro Miguel agradeço o cuidado, mas creio que partilho com a Palmira o entusiasmo pela ciência e tecnologia, deixo apenas um aviso ao fascínio excessivo que descamba em cruzada tecnológica oprimindo outras áreas do conhecimento.

Agradeço os interessantes comentários à Vera e à Susana. Penso que a melhor técnica não deve servir de justificação automática, nem isentar o decisor social e político de explicar claramente as suas consequências e assumir as responsabilidades sociais, económicas e ambientais da sua adopção. Desmontar a ideia de que a técnica é neutra foi de facto um passo fundamental.

Caro homónimo, ter bolsa da FCT é um privilégio (eu também tenho e a minha ainda é mais fofinha). Se apostar em si é a melhor aplicação dos capitais públicos, tudo depende do que irá a oferecer à sociedade fruto do actual investimento que ela faz em si. Se quando acabar o phd estiver sobre-qualificado pode ter de fazer as malas ou montar a sua própria empresa, mas há destinos piores. Se o IPCC não o convence do climate change, eu muito menos terei a ousadia. Boa sorte.

Segue em http://simplex.blogs.sapo.pt/248717.html

Tiago a 9 de Setembro de 2009 às 19:37
O argumento sobre o IPCC é pura e simplesmente de natureza autoritária/religiosa: uma organizacão na qual se deve não deve por em dúvida porque é... "científica". É precisamente um problema de sacralizacão!

É um bocado como o argumento de: "o papa disse".

Aí está o problema: sacraliza-se uma organizacão cientifica. Em vez de se ter um argumento racional sobre o assunto.

Note que eu nunca disse qual era a minha posicão sobre climate change.... Esse não é o ponto desta discussão. O ponto é precisamente não deixarmos de pensar pela nossa cabeca (venham papas, cientistas, futebolistas, politicos, mendigos, empresarios, trabalhadores, whatever)

A ciencia é feita por pessoas, não por santos. Climate change é uma boa maneira de obter funding hoje em dia.

Por acaso a minha área de PhD involve simulacão computacional de processos naturais (não de clima no meu caso). Por acaso tenho contacto com várias pessoas que trabalham em modelos de clima. Sem entrar em detalhes (porque não posso), eu diria que uma dose razoável de cepticismo (bem cientifico!) é necessária.

Tiago Julião Neves a 9 de Setembro de 2009 às 22:31
Caro Tiago,

Noto humildemente que acha que o meu post "...mostra um excesso de credulidade nas previsões de global warming feitas por cientistas (muitas vezes usando modelos predictivos que lembram em parte a astrologia)..." e que considera fundamental “...não deixarmos de pensar pela nossa cabeca (venham papas, cientistas, futebolistas, politicos, mendigos, empresarios, trabalhadores, whatever)”.

As suas convicções são fortes mas o timing é mau, precisamente porque as mais reputadas instituições científicas tem vindo a agravar as suas piores previsões sobre climate change. O IPCC não é o Papa e o Lord Stern não é o Richelieu, como a comunidade cientifica internacional não é uma coro de igreja, mas se uns milhares de cientistas e vários prémios Nobel concordam que:
- Global warming is occurring.
- Increase in global temperature is a result of human activities.
- Given current trends, temperature extremes, heat waves, and heavy rains will continue to escalate in frequency. The earth’s temperature and seas will continue to rise into the next millennium.

Eu talvez lhes desse algum crédito antes de falar em astrologia.

O climate change é uma boa maneira de obter funding? Claro, eu preocupava-me era com o cenário inverso, se não houvesse dinheiro para investigar um desafio desta gravidade. Se calhar o Tiago acha lá esses malandros do IPCC a sacar mais dinheiro à malta.

Existe também acordo generalizado sobre a urgência do combate às alterações climáticas. O cepticismo científico é bom, o ideológico é mau. Todos temos direito à nossa opinião mas convém não perder de vista a realidade.

Também tenho vários amigos cientistas (apesar de isso não ser estatisticamente relevante) e há uns anos quando fiz o MSc in Environmental Technology no Imperial College em Londres, se havia unanimidade entre dezenas de meteorologistas, biólogos, físicos, economistas e químicos, era precisamente sobre a origem e urgência do combate às alterações climáticas.

Não sou especialista em climate change, mas deixo-lhe os sites de duas instituições de excelência dedicadas ao assunto e onde estudo em departamentos próximos.
Imperial College – http://www3.imperial.ac.uk/climatechange
London School of Economics – http://www.lse.ac.uk/collections/granthamInstitute/

Tiago a 10 de Setembro de 2009 às 00:12
Tal e qual havia um consenso nas revistas cientificas de topo em economia sobre quantative finance e modelos de previsao de risco.
Tal como havia um consenso sobre a espectativa do spread de malaria resistante a medicamentos e estava errado.

Os modelos de previsao nao sao ciencia no sentido Popperiano da palavra, porque a bem da verdade nao sao falsifiable.

O postivismo predicativo e uma charlatanisse compável com a astrologia. Alias quando é fácil de testar (imagine-se a previsão do tempo para os próximos dias) cai por terra na maioria das vezes. Tem mais a ver com a nossa necessidade psicológica enquanto espécie de sentir seguranca e previsibilidade no futuro do quem em algo realmente honesto e cientifico.

Infelizmente, como não é ciencia, nao podemos desenhar um teste para provar da falsidade da coisa (a la Popper).

Substitui a religiao para muita gente. As emocões geradas pela ideia que vivemos num mundo incerto e imprevisivel são demais para o homo sapiens.

Tiago a 10 de Setembro de 2009 às 00:15
Termino com isto:

http://www.stephenjaygould.org/ctrl/popper_falsification.html


José M. Sousa a 10 de Setembro de 2009 às 00:29
Caro Tiago

De facto temo que a FCT corre o risco de estar a usar mal o dinheiro consigo.

Aconselhou-o a saber o que é o IPCC, porque o que diz é ridículo. Não sei qual é a sua área de investigação, mas parece que a epistemologia da ciência deixa um pouco a desejar.
«Ihe IPCC is a scientific body. It reviews and assesses the most recent scientific, technical and socio-economic information produced worldwide relevant to the understanding of climate change. It does not conduct any research nor does it monitor climate related data or parameters»
Saliento: «It does not conduct any research»
Você não pode pensar pela sua cabeça - do ponto de vista de obtenção, tratamento e interpretação dos dados que são de uma enorme complexidade - porque, pura e simplesmente, não tem meios para tal isoladamente....

Tiago a 10 de Setembro de 2009 às 01:42
Caro Jose,

Relativamente ao ataque ad-hominem com o qual comeca, não vou por aí e não lhe vou responder na mesma moeda (ie, nao o vou ofender), Digo-lhe so que do ponto de vista das métricas típicas usadas em ciencia (que presumo, aceite): publicacacoes, citacoes, etc presumo que se a minha bolsa esta mal aplicada entao tera que tirar a bolsa a 95%+ dos estudantes de doutoramento.

Noto apenas que o argumento aqui utilizado é muito parecido com o argumento usado por fundamentalistas religiosos: Por uma razão X quem critica uma certa organizacão ou indivíduo é louco/irracional/pária.

Rapidamente se desce ao ad-hominem e à quase total ausência de argumentos fundamentados.

Devo dizer que, no meu caso, nem sequer argumentei contra climate change em geral (honestamente não tenho opinião formada). Apenas pus em duvida uma pequena parte da argumentacão (modelos predicativos), que por acaso até faz parte da minha especialidade (até publicada, se bem que nao em prediccão de clima).

Falo por experiencia própria e contacto directo. Apesar de nao trabalhar em climate modeling, conheco com alguma proximidade quem tenha trabalhado com este tipo de modelos (nomeadamente com a sua implementacao). E sei do triste estado de algumas das implementacões de software de simulacão de climate change.

Mas sugerir que muito de climate prediction é bullshit vai contra a religião vigente por aqui.

O IPCC é o exemplo de uma organizacão sacra e acima de qualquer discussão.

Tiago Julião Neves a 10 de Setembro de 2009 às 03:13
Caro Tiago,

Vamos por os pontos nos is shall we ?

O IPCC não é sagrado, pode criticar o IPCC à vontade e se quiser eu até lhe forneço bons argumentos. Não sou religioso e este post é um alerta sobre os riscos de sacralização da ciência e da tecnologia.

No entanto, convém contestar as conclusões do IPCC com argumentos mais válidos do que há uns modelos muito fracos de uns colegas, mas eu não posso falar sobre o assunto porque (deixe-me adivinhar) é secreto.

Claro que há modelos falíveis, como há gente que se vai aproveitar do climate change para financiar projectos sem interesse, mas isso não invalida a extrema importância das outras research em curso, nem a urgência de combater as causas antropogénicas já identificadas.

Se não concorda com o diagnóstico, pode apresentar outro e propor linhas de acção, mas como isto é para ontem não demore muito. Se depois de toda a discussão ainda não tem opinião formada não o posso ajudar, mas o precautionary principle talvez possa. Recordando: The precautionary principle is simply a statement that we should not go ahead with a new technology , or persist with an old one , unless we are convinced it is safe."

Uma coisa é criticar apresentando argumentos (coisa que na minha opinião ainda não fez) outra completamente diferente é lançar suspeitas de que é tudo bullshit e depois usar o Popper para postular sobre a impossibilidade do conhecimento científico.

Vai ver que nisto nem precisa de muita ciência de ponta para decidir. Esqueça o climate change e pense só que o petróleo é uma matéria prima quase insubstituível, e que portanto o custo de oportunidade de o queimar é enorme, os custos ambientais ao que parece também... (As potências emergentes a duplicarem o consumo energético a cada 6-7 anos, o peak-oil por perto, a Índia e a China com os novos tata para o povo e o preço do ouro negro a disparar. Gira a evolução da economia mundial neste cenário não? Mas não é ficção, é mesmo realidade, aconteceu antes da crise actual e vai regressar em força com a retoma dos próximos anos.)

Agora juntemos a isto o facto de existem substitutos naturais renováveis que podemos desenvolver e que apresentam ganhos de eficiência potenciais muito elevados. Acrescente a gestão da procura e alteração de comportamentos, a eficiência energética, a microgeração e deslocalização da produção com as vantagens ao nível da segurança de abastecimento e de gestão da rede. Ainda acha que faz sentido o modelo de desenvolvimento assente em combustíveis fosseis? Pode ainda juntar a equidade inter-geracional , o diálogo developed-developing para compor o ramalhete, vai ver que argumentos não faltam.

Cumprimentos da pseudo-ciência

Tiago a 10 de Setembro de 2009 às 04:24
Caro homonimo ;) ,

É um prazer ter uma discussão mais séria sobre o assunto.

Devo dizer que a questão sobre a qual focava era das "vacas sagradas". É fácil de ver que se se criticar algumas vacas sagradas imediatamente há reaccões mais, por assim dizer, vindas da bilis.

Eu posso entrar em detalhes sobre o dito modelo, caso haja interesse (pareceu-me que detalhar aqui numa caixa de comentários era excessivo, mas posso faze-lo). Aquilo que não posso fazer é dizer qual é precisamente o modelo (limito-me a dizer que é de uma universidade top 10).
Para mim é complicado entrar em detalhes (tendo assumido a minha identidade verdadeira) porque, sejamos honestos: ser queimado não é coisa que eu queira.

A ciência é feita por pessoas, não por santos. Essa ideia que é um processo purinho, racional, onde só o mérito e as ideas contam é saída de um conto de fadas.

Mais uma vez, eu não tenho uma "agenda secreta" contra o climate change. Apenas contra a sacralizacão da ciência. E o caso do climate change é paradigmático de atrair imediatamente talibans.

Mais, concordo em absoluto com a questão do peak oil. MAS ESSE NÃO É O PONTO. O ponto são as vacas sagradas.

Eu não estou a postular sobre a impossibilidade do conhecimento cientifico quando me refiro ao Popper. Apenas me cinjo à questão de (alguns) modelos predicativos serem bullshit. 1% da "ciência" que se faz.

Termino com uma historieta (um facto, se assim quiser):
Um dos mais conhecidos investigadores de uma certa área de predicative modelling fez um estudo sobre erros formais (ie de fórmulas matemáticas) numa série de papers. Descobriu erros EM TODOS OS PAPERS. Não publicou tal resultado (por puro medo de ficar queimado). Informou todos os autores dos papers. NENHUM submeteu rectificacões (nem sequer estou a falar de paper pull - apenas de se dar ao trabalho de fazer e submeter uma errata.

Quer mais um facto, leia isto:
http://www.nakedcapitalism.com/2009/07/on-unwillingness-of-economists-to.html
(especialmente os comentarios)

Tiago Julião Neves a 10 de Setembro de 2009 às 12:54
Caro,

Longe de mim querer dificultar-lhe a vida ou a carreira e aqui ninguém quer sacralizar nada, mas por favor contribua com ideias e apresente argumentos para a discussão.

As historietas são giras e esta é grave concordo, mas são tricas ao pé do que estamos a falar.

Quanto ao modelo top 10 esqueça (não vale a pena correr riscos)... mas eu que tenho estado pelo Top 5 (Imperial College e LSE , desculpe mas não resisti à piada) tenho uma imagem de consenso alargado na comunidade cientifica pontuado por aldrabões como o Lomborg (e já li muita coisa deste senhor) que mistura desinformação com naiveness político-económica, mas que dentro da comunidade tem pouco crédito.

Conselho de homónimo, olhe que o José sabe muito destas matérias, tem um óptimo blogue sobre o assunto http://futureatrisk.blogspot.com/ e não é meigo na discussão. O aviso está dado, but by all means let the combats begin...

Ab

José M. Sousa a 10 de Setembro de 2009 às 09:53
Caro Tiago Antão

Eu não estava a ofender ninguém. Estava a comentar o que você próprio disse sobre a sua bolsa vs apoio ao ensino pré-primário, se bem me recordo!

Continua, no seu comentário, sem perceber a natureza do IPCC. Aliás, pela parte que me toca, não levo o IPCC muito a sério e exactamente pelas razões opostas às suas! É porque o problema das AC é bem mais grave do que o afirmado no seu último relatório (2007):
Neste Congresso Científico (2009) tem dados mais actualizados:
http://climatecongress.ku.dk/pdf/Synthesis_Report_-_Portuguese_-_ISBN.pdf/

http://climatecongress.ku.dk/newsroom/

Queira desculpar, mas o que diz sobre os modelos está ao nível elementar. É evidente que os modelos têm falhas, por isso se chamam modelos!

http://www.realclimate.org/index.php/archives/2008/11/faq-on-climate-models/
http://www.realclimate.org/index.php/archives/2009/01/faq-on-climate-models-part-ii/





José M. Sousa a 10 de Setembro de 2009 às 10:03
Já agora, outra das razões porque não levo o IPCC assim tão a sério tem precisamente a ver, poderia dizer, com a tal sacralização da ciência.
http://futureatrisk.blogspot.com/2007/07/as-alteraes-climticas-exigncia-de-um.html
De qualquer modo, a minha intervenção nestes comentários nada tem de apoio ao governo actual, que do meu ponto de vista, de facto sacraliza a tecnologia e não faz a menor ideia do que tem pela frente, mas enfim. O meu comentário deve-se apenas porque considero que as implicações das AC são o que de mais grave a Humanidade já enfrentou e isto não pode ser objecto de tratamento leviano.

http://futureatrisk.blogspot.com/2008/01/prof-delgado-domingos-desvaloriza.html

José M. Sousa a 10 de Setembro de 2009 às 10:11
Sobre a questão do financiamento para as "perspectivas opostas" à "religião" - para usar a expressão do Tiago Antão - dominante e ainda o IPCC. Pelo amor de Deus... Recomendo algum estudo...

Sugiro esta carta da Royal Society à ExxonMobil. Para bom entendedor...:
http://image.guardian.co.uk/sys-files/Guardian/documents/2006/09/19/LettertoNick.pdf

Tiago Julião Neves a 10 de Setembro de 2009 às 12:36
Obrigado José,

A carta é excelente e reveladora dos tentáculos do lobby petrolífero que durante anos tentou silenciar a discussão cientifica e que falhado esse objectivo inicial passou a financiar massivamente think-tanks ligados aos Republicanos que tentaram e tentam (cada vez com menor sucesso) lançar poeira para esta discussão através da pseudociência .


José M. Sousa a 10 de Setembro de 2009 às 14:27
Sobre o Lomborg e a tecnologia (nomeadamente a geoengenharia ), como bem diz o Tiago Neves, ler:

http :/ futureatrisk.blogspot.com /2009/01/blog-post.html

e

http :/ climateprogress.org /2009/08/31 bjorn-lomborg-wsj-duke-dean-bill-chameides /

http :/ online.wsj.com article /SB10001424052970203706604574376442559564788.html

Especificamente, sobre geoengenharia :
http :/ climateprogress.org /2009/09/05 caldeira-delayer-lomborg-copenhagen climate consensus geoengineering /

E declaração da American Meteorological Society sobre geoengenharia :
http :/ www.ametsoc.org policy /2009geoengineeringclimate_amsstatement.pdf

PROPOSALS TO GEOENGINEER CLIMATE REQUIRE MORE RESEARCH , CAUTIOUS CONSIDERATION , AND APPROPRIATE RESTRICTIONS

Geoengineering - deliberately manipulating physical , chemical , or biological aspects of the Earth system to confront climate change – could contribute to a comprehensive risk management strategy to slow climate change but could also create considerable new risks , according to a policy statement released by the American Meteorological Society AMS ) today .

According to the Society , geoengineering will not substitute for either aggressive emissions reduction or efforts to adapt to climate change , but it could help lower greenhouse gas concentrations , provide options for reducing specific climate impacts , or offer strategies of last resort if abrupt , catastrophic , or otherwise unacceptable climate change impacts become unavoidable by other means .

However , AMS scientists caution that research to date has not determined whether there are large-scale geoengineering approaches that would produce significant benefits , or whether those benefits would substantially outweigh the detriments . The Society notes that geoengineering must be viewed with caution because manipulating the Earth system has considerable potential to trigger adverse and unpredictable consequences .

Geoengineering is an attempt to trade a new and less dangerous type of global change for global climate change .” said Paul Higgins , AMS senior policy fellow and chair of the statement drafting team . That bargain could turn out very badly for us so we need to be extremely careful . But greenhouse gas emissions create serious risks for society so it makes sense to responsibly consider all options .”

Geoengineering proposals differ widely in their potential to reduce impacts , create new risks , and redistribute risk among nations . For example , techniques that remove carbon dioxide directly from the air would confer global benefits but could also create adverse local impacts . Reflecting sunlight would likely reduce Earth ’s average temperature but could also change global circulation patterns with potentially serious consequences such as changing storm tracks and precipitation patterns .

Even if reasonably effective and beneficial overall , geoengineering is unlikely to alleviate all of the serious impacts from increasing greenhouse gas emissions .

Still , the threat of climate change is serious . Mitigation efforts so far have been limited in magnitude, tentative in implementation , and insufficient for slowing climate change enough to avoid potentially serious impacts . Furthermore , it is unlikely that all of the expected climate change impacts can be managed through adaptation . Thus , it is prudent to consider geoengineering ’s potential benefits , to understand its limitations , and to avoid ill-considered deployment .

The AMS statement has three specific recommendations :

1) Enhanced research on the scientific and technological potential for geoengineering the climate system , including research on intended and unintended environmental responses.
2) A coordinated study of historical , ethical , legal, and social implications of geoengineering that integrates international , interdisciplinary , and intergenerational issues and perspectives and includes lessons from past efforts to modify weather and climate .
3) Development and analysis of policy options to promote transparency and international cooperation in exploring geoengineering options along with restrictions on reckless efforts to manipulate the climate system .



José M. Sousa a 10 de Setembro de 2009 às 15:38
parece que os links não ficaram bem.

Nova tentativa:



http://futureatrisk.blogspot.com/2009/01/blog-post.html


http://www.ametsoc.org/POLICY/2009geoengineeringclimate_amsstatement.pdf

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