Por João Galamba | Terça-feira, 08 Setembro , 2009, 13:28

O programa económico do BE já foi aqui abundantemente analisado, sobretudo pelo Carlos Santos. Mas há um ponto que o Carlos não referiu e que me parece de suma importância: a desvalorização da realidade empírica e a transformação do pragmatismo naquilo que Louçã chama de "calculismo" ou "falta de firmeza nos princípios". Se dúvidas houvesse, a entrevista publicada hoje no Público mostra que Louça é essenciamente um fanático e um populista. A sua firmeza e a sua irredutibilidade não são sinais de coerência ética e política; são sintomas de cegueira e fanatismo ideológico. Para que não se pense que estou a atacar Louçã de forma gratuita, deixo aqui duas passagens da entrevista de hoje:

 

P: Rejeitou a hipótese de uma coligação com o PS. Estaria o BE disponível, face a um governo minoritário do PS, para aprovar um orçamento que evitasse a queda do executivo?

 

FL: Não fazemos política por calculismo. Temos um compromisso com os nossos eleitores e procuramos maioria para todas as nossas propostas. Votaremos sempre todas as leis que contribbuam para o combate pela igualdade e pela resposta capacitada à crise. O que não faremos é favores a troco de qualquer vantagem política. Isso é o que faz o CDS, o que fez Daniel Campelo, isso é a forma da degradação da política

 

(Tradução: acha que o BE deve assumir responsabilidades pelaviabilização de uma solução governativa? acha que a governabilidade é valor importante? Não, diz Louçã. O único valor que o BE reconhece é a inflexibilidade das suas propostas. Se o PS ganhar, nós só apoiamos o PS se o PS nos apoiar a nós. Nós somos a esquerda. Se o PS for igual a nós, então estamos dispostos a viabilizar um orçamento e uma solução governativa do BE PS)

 

P: (Em relação às nacionalizações propostas pelo BE) Deve haver lugar a indemnizações?

 

FL: Essa é uma questão posterior. A questão urgente na política é saber se devemos ter o sector da energia público ou privado (...) só decidindo isso é que podemos falar sobre as condições

 

P: Está a falar para milhares de pessoas que têm acções na EDP?

 

FL: Não estou a falar das acções distribuídas pelo público. Estou a falar dos grandes fundos de pensões que detêm o poder accionista estratégico

 

(tradução: em algum momento o BE pensou na aplicabilidade prática dessa medida? Não. O BE só fala de princípios, a realidade vem depois

 

[o BE é um bocado como os hiper-liberais: primeiro a teoria, depois a prática; primeiro o dogmatismo ideológico, depois a aplicação dessa mesma ideologia. Tanto o BE como os hiper-liberais avançam com fórmulas a-históricas que não são passíveis de serem falsificadas ou de entrarem em qualquer tipo de compromisso com a realidade histórica. Resultado: a validade da ideologia do BE não é minimamente afectada pelo confronto com a realidade empírica,  nem deve levar em consideração a história do sec xx, que, recorde-se, não regista o sucesso das medidas propostas pelo BE. Como o BE desvaloriza o confronto com a realidade, estamos perante uma forma de dogmatismo ideológico, imune à crítica e não falsificável

 

Em algum momento o BE pensou que a realidade do capitalismo actual não joga com a narrativa marxistas tradicional? em algum momento o BE pensou que há imensas pessoas "comuns" que detêm acções de grandes empresas? Sim. Por isso o BE abandonou a narrativa marxista tradicional e já não é contra a propriedade privada. A opção do BE é outra: populismo de esquerda. Daí a nacionalização defendida pelo BE não ser bem uma nacionalização: o BE só não aceita que grandes grupos económicos detenham posições estratégicas em empresas como a EDP. O Xico Silva pode ter as axções que quiser, mas se for o Américo Amorim, o BE não deixa. O BE acha que Golden Shares e regulação não são suficientes para garantir uma gestão socialmente responsável por parte da EDP. A única forma de o fazer consiste em afastar "os grandes grupos económicos". Se o Xico Silva quiser vender acções ao Amorim, o BE também não deixa. Mesmo que o Xico Silva possa beneficiar com essa venda, o BE não deixa. Por isso o BE deverá avançar com um sistema de screening, onde se avalia quem pode e quem não pode deter acções da EDP.


amcslb a 8 de Setembro de 2009 às 14:12
é inaceitável que não se explore este assunto mais.

O Manuel pinho que foi um ministro exemplar foi prá rua por uma coisa semelhante.


maresvivasmatosinhos a 8 de Setembro de 2009 às 14:17


Já demos o pontapé de saída.

http://maresvivasmatosinhos.blogspot.com/

Carlos Santos a 8 de Setembro de 2009 às 14:44
Na mouche! Muito bom post, João.

Abraço,
Carlos

horacio a 8 de Setembro de 2009 às 15:28
Não voto BE mas é claro como água que começou a estratégia de marcação ao F.Louça por parte dos apoiantes de Sócrates. É o lançamento do debate logo à noite.
A estratégia é igual às das batalhas da idade média. Raia miuda à frente a desbaratar caminho. Depois vão os cavaleiros.

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