Por Simplex | Terça-feira, 08 Setembro , 2009, 09:29

[Depoimento de Pedro U. Lima *]

 

Lembro-me de, adolescente, no meio de discussões políticas mais ou menos inflamadas com os meus amigos – faço notar que fui adolescente na segunda metade dos anos 70 em Portugal – sempre defender que o grande problema de Portugal era o enorme atraso do nosso povo, em termos de formação e literacia, relativamente aos outros países da Europa (Ocidental e Oriental). Certamente terei registado algumas alterações das minhas posições políticas de então para cá, mas esse princípio básico continuou sempre a ser o que mais as influenciou. Naturalmente, sempre me interessei por saber o que defendiam os vários partidos relativamente à Educação (básica, secundária e superior) e, em anos mais recentes, quando o Partido Socialista trouxe a Ciência para o primeiro plano, pela Investigação e Inovação.

 

Evidentemente, outras áreas são certamente fundamentais, como a Saúde, a Justiça ou as Finanças, mas para mim a aposta na Educação é a mais fundamental das apostas nacionais. O nosso atraso, em termos de percentagem de licenciados, ou de número de jovens que concluem o ensino secundário, ou da simples capacidade de preencher um formulário, é tão grande, que muitos dos nossos perenes problemas têm nele profundas raízes: a dependência do Estado para resolver os problemas através de subsídios,  o mau funcionamento generalizado das repartições públicas (e de muitas instituições privadas), a baixa eficácia dos nossos trabalhadores, a falta de visão dos nossos empresários, a bur(r)ocracia reinante, o baixo nível cultural da população, a valorização da imagem relativamente ao saber, televisões com programação de nível rasteiro, e muitos outros. Como consequência, a Justiça não funciona, a Saúde tem problemas básicos, o país não tem saúde financeira, porque não produz o suficiente, nem inova para competir e ser melhor que os outros países de nível de riqueza semelhante.

 

 

Tanto quanto é do meu conhecimento, o actual governo foi, desde o 25 de Abril, o primeiro a colocar a Ciência, a Inovação, e a Educação, como a prioridade número 1 de Portugal. Reduziu-se o orçamento de todos os outros ministérios para aumentar o da Ciência. Floresceram o empreendedorismo e as empresas tecnológicas inovadoras (não apenas as que compram feito para vender e fazer lucro – típicas fontes de milionários portugueses ao longo dos tempos), aumentaram as bolsas de estudo universitárias, os doutorados contratados nas universidades (muitos deles, como aliás os bolseiros, provenientes do estrangeiro, de onde foram atraídos para Portugal), reformou-se de forma profunda e avançada o sistema de ensino universitário, procurou-se – ainda que com grandes resistências corporativas – fazer o mesmo no básico e secundário.

 

 

Prosseguir esta caminhada, não a deixar retroceder, é um imperativo nacional. São apostas a médio e longo prazo, cujo impacto não se vê ao fim nem de uma nem de duas ou três legislaturas, mas que acabarão por ser fundamentais para mudar a cara do país e fazer das suas gentes um povo culto, que sabe resolver os problemas básicos, ter iniciativa e pensar pela sua cabeça, que prefere governantes que decidem sobre assuntos fundamentais com bases científicas e não em função de “impressões” ou referendos de ocasião. Não vejo mais nenhum partido que coloque a Ciência e a Inovação, a par da Educação, como prioridade nacional. Isso basta-me para ultrapassar um ou outro erro de governação, ou execução de medidas, e para não ter dúvidas sobre em quem votar nas próximas Legislativas.

 

 

* Pedro U. Lima

Professor no Instituto Superior Técnico

Investigador no Instituto de Sistemas e Robótica

 


Luís a 8 de Setembro de 2009 às 10:02
Eu fui adolescente na segunda metade dos anos oitenta e concordo a 100% com o que escreve. Se me permite, faço minhas as suas palavras.

amália a 8 de Setembro de 2009 às 12:36
Sou das artes, mas tenho muita inveja daqueles que têm capacidades para desenvolver a ciência. Admiro os bons cientistas e costumava dizer aos meus alunos que Portugal precisava muito de bons cientistas.
Por isso aplaudo todo o trabalho deste governo em prol do desenvolvimento científico e fico muito feliz por verificar que alguns dos cientistas portugueses são mulheres de grande valor.

Maria Tuga a 8 de Setembro de 2009 às 13:40
Sou investigadora num instituto publico e só vejo, desinteresse da tutela e dificuldades financeiras... Ficamos sem telefone porque não à dinheiro para pagar à PT. Idas a congressos? Temos que adiantar inscrição, viagem, ajudas de custo,... e a verba já entrou proveniente de projectos FCT ou europeus. Aliás, desta vez o Ministro Mariano Gago nem se vê... anda escondido. O Ministério da Ciência e Ensino Superior, pelo menos na parte da ciência desapareceu. Só à pouco tempo soube que existia um Secretário de Estado da ciência...

Vera Santana a 8 de Setembro de 2009 às 19:06
Cara Maria Tuga, Investigadora num Instituto Público:

Cito-a:

"só vejo, desinteresse da tutela"

"Ficamos sem telefone porque não à dinheiro "

Podió explicar? . . .

Agradeço,

V.S.

Protocolos
comentários recentes
Ainda bem que procurei por ti na internet em geral...
A discussão sobre pagar a saúde de acordo com os r...
Espero que o José Sócrates faça um bom trabalho..
Boa tarde, gostava da vossa opinião.hoje dirigi-me...
EsclarecimentoA notícia é apenas sobre uma propost...
Venho por este meio relatar-vos uma situação que c...
Sou nova nestas andanças, da net (não em anos-57) ...
Obrigada pelos textos que nos deram a ler, a refle...
Estou de acordo com a ideia lançado por vocês impo...
Simplex , simplesmente. convido-os a visitarem o m...
já agora gostaria que observem uma iniciativa empr...
Estava a gostar deste blog...
Uma escrita muito pobre, na generalidade dos casos...
Estou numa dúvida: a oposição não foi eleita para ...
Posts mais comentados
88 comentários
50 comentários
44 comentários
43 comentários
38 comentários
36 comentários
27 comentários
25 comentários
arquivos
pesquisar neste blog
 

As imagens criadas pelo autor João Coisas apenas poderão ser utilizadas em blogues sem objectivo comercial, e desde que citada a respectiva origem.