Por João Galamba | Terça-feira, 08 Setembro , 2009, 03:27

"O governo do PS foi um dos fiéis seguidores da ideologia neoliberal que promove um Estado minimalista. No momento da crise, no entanto, predominou a nacionalização do prejuízo. O capital quer a receita de sempre: espoliação do Estado e esmagamento dos direitos dos mais desprotegidos. Chega a hora de o governo prestar contas pelo aumento do desemprego e da precariedade, pela redução dos salários e pensões, por um código do trabalho que aprofundou o retrocesso civilizacional iniciado por Bagão Félix, pelas privatizações, pelas desigualdades sociais e pela degradação dos serviços públicos. Passados quatro anos de governação, temos um país mais desigual e socialmente mais inseguro, onde o medo impera em muitas empresas e serviços"

 

(Programa do Bloco de Esquerda para as legislativas, pp. 11)


1. Aumento do desemprego: Apesar da modernização do país, o PS não fez nada para reduzir o desemprego. A crise financeira é irrelevante. O facto do desemprego em Portugal ter crescido (repito: crescido) pouco também não tem nada a ver com quaisquer tipo de efeitos das medidas anti-crise do PS — e também não interessa para nada (leia-se: não se ajusta à narrativa que Francisco Louçã quer impingir aos Portugueses). O desemprego existe — e isso é suficiente. O desemprego é horrível e a culpa é toda do PS. Se o bloco estivesse no governo, não haveria desemprego e a economia estaria a crescer ao nível da China e não haveria desemprego;

2. Precariedade: Não chega penalizar fiscalmente o recurso a recibos verdes. Não chega combater os falsos recibos verdes. Se o bloco estivesse no governo os recibos verdes seriam proibidos. E a precariedade seria ilegalizada. Se o desemprego disparasse, a culpa seria obviamente dos patrões;

3. Redução dos salários: Esta é uma acusação a priori: enquanto o PS estiver no governo, os salários descem, por definição. Enquanto o BE não chegar ao poder, a luta de classes é uma necessidade lógica e a redução dos salários é um axioma. Não interessa que o PS tenha aumentado o salário mínimo para 450 euros. Ou melhor, temos de ignorar este facto, caso contrário deixamos de poder acusar o PS de ser um dos mais fíeis seguidores do neoliberalismo. Se o Bloco estivesse no governo, os salários seriam iguais aos da Suécia;

4-Redução das pensões: A reforma da segurança social era totalmente desnecessária, pois a história da sua ruptura financeira é uma mentira inventada pelo PS e pela direita neoliberal. Que a reforma feita por Vieira da Silva tenha sido amplamente elogiada, só mostra como os neoliberais estão em todo o lado. Se o Bloco estivesse no governo, não só não teria feito qualquer reforma, como teria aumentado a pensão mínima para 500 euros, ou até um pouco mais — tanto quanto necessário;

5. O código do trabalho que é um retrocesso civilizacional. Não interessa a criação da licença parental. Nem interessa que o PS tenha optado por flexibilizar o tempo de trabalho em vez de liberalizar os despedimentos. Para o Bloco, o éden laboral era aquele que existia em 1975. Desde então, tem sido sempre a retroceder. Qualquer tipo de flexibilização, é neoliberalismo — e o neoliberalismo é pecado. Se o BE estivesse no governo, não só proibiria os despedimentos, como tornaria a admissão de trabalhadores numa obrigação legal. Como o Bloco não é um partido revolucionário, a criação da sua Utopia depende de um simples acto administrativo. Tivessem eles o poder e tudo se resolvia num ápice;

6. Privatizações. São sempre erradas. Se o Bloco estivesse no governo, nacionalizava a Galp e a EDP. Não interessa que o PS tenha nacionalizado a COSEC. Como o PS não nacionalizou aquilo que o BE acha que deve ser nacionalizado, é neoliberal;

7-Desigualdades: Isto é mais um chavão do que uma crítica empiricamente fundamentada. Todos os dados disponíveis mostram que a desigualdade efectivamente diminuiu durante o governo PS, e tal deveu-se uma aposta em políticas sociais, como o complemento social para idosos, o aumento do salário mínimo e o reforço da acção social escolar. Se o Bloco estivesse no governo, o importante não era tomar medidas cujos resultados se traduzissem numa redução desigualdades. O importante seria Acabar com as Desigualdades, que é algo inteiramente distinto dos gradualismos e das prudências burguesas do PS.

8-Degradação dos serviços públicos: Não interessa que o PS tenha procurado salvar o SNS, Não interessa que tenha substituido os Hospitais SA. pelos EPE. Não interessa a aposta no reforço do SNS, com a reforma dos cuidados primários e a criação da Rede Nacional de Cuidados Continuados. Como o PS fechou maternidades, é neoliberal. Se o Bloco estivesse no governo havia maternidades em cada casa e um hospital em cada aldeia, vila e cidade de Portugal.

O diagnóstico do Bloco à governação PS não decorre de qualquer leitura da realidade. O bloco prefere inventar a sua própria realidade, e o retrato do PS é sobretudo uma forma a priori que o Bloco usa para desqualificar os seus adversários. Ou seja, como Bloco é contra o neoliberalismo, e como o PS não embarca na irresponsabilidade, no populismo, na demagogia e no radicalismo do Bloco, o PS é necessariamente neoliberal.

 

Em política não há compromissos.

(post republicado)

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Anónimo a 8 de Setembro de 2009 às 12:48
Pergunta: O que é que vocês esperam de um partido anti-capitalista?
Resposta: depois das eleições terão de ceder uns lugarejos para poderem governar.

Com muita pena minha, que voto BE. Preferia mil vezes ver-vos coligados com o PCP, mas por aqui só há protagonismo do BE.

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