Por Tiago Julião Neves | Quinta-feira, 03 Setembro , 2009, 17:11

A bicicleta é a nova rotunda!

Está quase tudo por fazer na área da mobilidade urbana sustentável em Portugal e o automóvel continua a usurpar a legítima posição das pessoas no topo da hierarquia das políticas de desenvolvimento urbano.

 

Algo está mal quando a grande ideia do candidato do maior partido da oposição à principal Câmara do pais é brincar novamente às toupeiras para facilitar a entrada de mais carros na cidade. Claro que o túnel do Marques é óptimo a curto prazo mas tem um custo de oportunidade enorme, representa  um erro conceptual grave e em breve estará esgotado.

 

As nossas urbes são poluídas, congestionadas e stressantes devido à depressiva conjugação da ausência de políticas integradas de transporte e urbanismo, níveis de serviço sofríveis, sociedade civil resignada e vontade política servil em relação ao automóvel.

 

A cidade portuguesa flui ao ritmo do buzinão, com parques onde não se pode pisar a relva e onde os carros adormecem no passeio. Mas isso não é uma inevitabilidade como comprovam Zurique, Bergen ou Copenhaga, urbes agradáveis e cosmopolitas desenvolvidas a pensar nas pessoas.

 

É fundamental alterar o paradigma de mobilidade das cidades portuguesa porque o modelo actual está esgotado como se depreende dos elevados níveis de poluição atmosférica, visual e sonora, e da desgovernada ocupação espacial. As deslocações urbanas submetem os nossos cidadãos a uma violência quotidiana desnecessária que se reflecte na fadiga e no stress das pessoas que habitam nas grandes cidades e sobretudo na sua periferia.

 

Existe hoje um momento politico único favorável à introdução de formas de mobilidade suave (sem motor) nas cidades. Os políticos começam a perceber que as bicicletas vão dar votos e a exemplo de Lyon, Toulouse e Paris, também em Portugal esta será a nova coqueluche dos autarcas. Com a diferença de que as redes públicas de bicicletas são uma evolução face às piscinas e rotundas do passado, porque estamos de facto a falar de desenvolvimento sustentável.

 

Ideias de mobilidade para Lisboa

Tal como no caso da energia não existe uma panaceia universal mas sim várias soluções cooperantes que devem ser testadas, aperfeiçoadas e progressivamente implementadas para atingir o desígnio da mobilidade sustentável sob a alçada da Autoridade Metropolitana de Transportes. No caso da minha cidade, Lisboa, penso ser fundamental:

1)   Promover uma discussão pública intensa e alargada sobre o conceito de cidade desejado pelos habitantes.

2)   Garantir uma estreita integração das políticas de transporte e urbanismo.

3)   Estabelecer uma correcta hierarquia dos utilizadores do espaço público: peão, utilizador de transporte público, ciclista, motociclista, automobilista.

4)   Reforçar a aposta nos transportes públicos, nomeadamente:

-       Frota de bicicletas pública

-       Frota de autocarros eléctricos, híbridos e a gás natural

-       Frota de táxis híbrida

-       Expansão da linha de eléctricos relegada a atracção turística

-       Sistemas de superfície como o Metro do Porto e o Metro Sul do Tejo 

-       Densificar a rede metro cruzando as linhas (caso Olaias - São Sebastião)

5)   Incentivar formas de mobilidade suave (bicicleta, skate, patins...). Um bom exemplo é o cycle-to-work scheme no Reino Unido, mais info aqui.

6)   Humanizar as ruas, obrigando os seus vários utilizadores a negociar permanentemente a ocupação do espaço público. Em alguns casos implicará a supressão dos passeios e a abolição das marcas rodoviárias. Apesar de contra-intuitiva esta medida funciona muito bem em locais cuidadosamente seleccionados porque retira aos automobilistas a confiança e percepção de que a estrada é sua, reduzindo a probabilidade de velocidades perigosas.

7)   Promover sistemas de partilha do automóvel (carsharing e carpooling) para particulares e empresas, com diferentes tipos de veículos conforme a necessidade (bicicleta, smart, carrinha familiar...) da hora, dia, semana ou mês.

8)   Reduzir a entrada de automóveis nas cidades através da aplicação de sistemas do tipo congestion charge.

9)   Dedicar faixas de trânsito a viaturas eléctricas e a transportes colectivos.

10)Rever as tabelas de portagens introduzindo descontos para motociclos.

11)Alargar passeios e fechar ruas ao trânsito sempre que se justifique.

12)Combater a mentalidade dominante de automóvel-dependência.

 

Eucaristia tecnológica ou alteração de comportamentos?

O PS nem sempre esteve bem na questão da mobilidade sustentável, nomeadamente nas cidades onde atrasou medidas de mobilidade suave. Mas ultimamente afinou o rumo e apresentou medidas importantes. No Programa de Governo do PS destaco o incentivo de 5.000€ para particulares na aquisição de veículos eléctricos, a criação de uma rede piloto para a mobilidade eléctrica em Portugal, a meta de 50% dos veículos comprados pelo Estado em 2015 serem híbridos ou eléctricos e a criação do enquadramento regulamentar para a introdução e operação de pontos de carregamento em edifícios novos e existentes.

 

Estabelecer uma rede para carregamento de veículos eléctricos é um passo fundamental para criar a confiança necessária às decisões de investimento dos vários agentes. Os consumidores sabem que será fácil abastecer os seus veículos, os fabricantes de veículos e os fornecedores de energia e tecnologia sabem que existirá mercado e a população começa a despertar para uma nova realidade. O incentivo à aquisição de carros eléctricos facilita a criação de massa crítica para um vasto projecto de demonstração cujo sucesso facilitará a transição para os veículos eléctricos em larga escala.

 

O híbrido e o carro eléctrico devem ser apoiados e estimulados, mas duas horas numa fila de carros eléctricos são quase tão desgastantes como numa fila de carros a gasolina ou a diesel. O carro eléctrico tem o potencial de tornar as cidades incomparavelmente mais limpas e silenciosas, mas não terá  impacto ao nível do stress e frustração de quem passa horas no trânsito se não houver uma alteração radical das politicas públicas de mobilidade.

 

As tecnologias integradas nos veículos híbridos, eléctricos e a pilha de combustível (fuel-cells) são excitantes mas não nos ilibam de uma alteração de hábitos individuais, e cabe ao Estado definir se a prioridade será dada às pessoas ou apenas às pessoas com veículos motorizados como até agora.

 

A ideia fundamental é que não basta mudar tecnologias, é preciso mudar hábitos e comportamentos enraizados e que são vistos como direitos inalienáveis por parte da população. Estacionar em cima do passeio se não há lugar à porta, ignorar os limites de velocidade quando estamos atrasados, falar ao telemóvel a conduzir, enfim já todos o fizemos, a questão é se é hábito ou excepção.

 

O futuro...

A entrada nas cidades será paga, o estacionamento mais caro e com menos lugares à superfície, e cada vez mais zonas fechadas ao trânsito. A atitude inicial será de descrença e revolta porque ninguém gosta de ser forçado a mudar de hábitos. No entanto à medida que os peões reconquistam o espaço publico e os comerciantes vendem mais aos transeuntes, que os ciclistas se deslocam mais saudáveis e felizes (estudos académicos demonstram que o momento mais feliz do dia dos ciclistas é a deslocação casa-trabalho, enquanto para os automobilistas é o pior momento do dia) quebrando o monopólio dos carros, então talvez as opiniões comecem a mudar. As profundas alterações que estão a ter lugar na Europa a este nível com resultados muito satisfatórios, fazem-me acreditar que Portugal não será excepção e saberá aproveitar esta oportunidade.

 

Dito isto, devo acrescentar que acredito numa politica de mobilidade e acessibilidade que acomode os mais variados meios de transporte, incluindo várias possibilidades de locomoção individual (eu próprio sou motard, além de ciclista e peão), mas privilegiando sempre os peões, os utilizadores de transportes públicos e os utilizadores de meios suaves. A hierarquia deve colocar no topo o elemento mais frágil (peão) e na base o maior agressor (mota e automóvel) porque as cidades devem ser feitas para as pessoas.
 

Se tivesse de eleger um meio de transporte com o poder de revolucionar a locomoção nas grandes urbes e de facto alterar o paradigma actual, escolheria a bicicleta eléctrica porque alisa a orografia, normaliza o esforço, elimina o suor, tem maior alcance que a bicicleta normal, permite maior velocidade e aceleração (aspectos críticos para a segurança dos ciclistas), e tudo isto a uma fracção do custo de um carro eléctrico e com os benefícios associados ao uso da bicicleta. A bicicleta eléctrica permite atrair pessoas com problemas de saúde, cidadãos idosos e sobretudo os mais preguiçosos (mais de 50% da população seguramente) para formas de mobilidade suave que de outra forma nunca experimentariam.

 

Brincadeiras...

Para finalizar deixo alguns exemplos de projectos tão ousados como desadequados, que não se destinam ao grande público e que dificilmente verão a luz do dia, mas que são exemplos extraordinários de criatividade e inovação na área da mobilidade:

eRockit – Uma bicicleta eléctrica que atinge 80kph.

Squba – Um veiculo sem emissões poluentes que anda na terra e no mar.

 


José M. Sousa a 4 de Setembro de 2009 às 10:54
Já agora aproveito para deixar aqui um interessante debate sobre a bicicleta (ciclovias, obrigatoriedade de uso do capacete, etc.):

http://klepsydra.blogspot.com/2009_08_01_archive.html#1905689842612552386

Zé dos Montes a 4 de Setembro de 2009 às 11:41
Veja isto que é mais utilizável
www.mobiky.fr bicicleta dobrável
www.gocycle.com bicicleta elétrica
http://www.hmrc.gov.uk/specialist/salary_sacrifice.pdf programa do governo inglês para uso de bicicletas

Tiago Julião Neves a 4 de Setembro de 2009 às 12:34
Caro José,

Completamente de acordo com o Mário Alves, o ónus de protecção não deve cair sobre os ciclistas que são o elemento mais frágil, mas sim sobre os automobilistas que são o principal agressor do espaço público.

Copenhaga, Amsterdão ou Londres são disso bons exemplos, embora em Londres ainda haja um enorme desrespeito pelos ciclistas em várias áreas da cidade.

Publico abaixo parte do texto do Mário Alves (Mestre em Transportes pelo Imperial College London e consultor de transportes e gestão da mobilidade).

"Recentemente tive a oportunidade de debater em público a questão da obrigatoriedade dos capacetes para ciclistas. Sempre a mesma ratoeira. Ao olhar para estas fotografias, parece-me óbvio que temos sempre duas hipóteses para aumentar a segurança dos mais vulneráveis: a) colocar a responsabilidade de protecção nos mais fracos, obrigando-os a usar capacetes ou negando-lhes a possibilidade de usar em plenitude as ruas que lhes deviam pertencer; b) reduzindo o número e a velocidade dos automóveis. O primeiro tipo de intenções, apesar de na maior parte das vezes bem intencionadas, continuará a espiral absurda de olhar para o problema pelo paradigma estafado que nos fez chegar até aqui. O segundo caminho, mais difícil, implica visão, participação, concertação, liderança."

Tiago Julião Neves a 4 de Setembro de 2009 às 12:59
Caro Zé dos Montes,

Obrigado pelas dicas. O ano passado testei vários modelos de bicicletas eléctricas em Nova Iorque. Tendo em conta a economia, performance e o conforto elegi o kit da Bion-X numa Dahon Mu P8 como escolha acertada. A Optibike que não testei, representa o Rolls-Royce das bicicletas eléctricas, mas parece-me mais um delírio para magnatas cinquentões do que uma solução de mobilidade global.

A Mobiky não me convence muito, porque demora muito a montar, tenho dúvidas se será confortável em longas distâncias e tem rodas pequenas o que não é bom em termos de segurança. Em termos de velocidade a montar e a desmontar nada se aproxima da bike-friday-tikit como pode ver em http://www.youtube.com/watch?v=fQscBxx7wLE&feature=related, nem mesmo a excelente brompton.

Já a Gocycle parece-me excelente tecnicamente, afordable e sobretudo leve e bonita. Se calhar até vou comprar uma aqui em Londres.

Esqueci-me de falar do http://www.cyclescheme.co.uk/ e vou inserir no post, uma iniciativa excelente no Reino Unido.

Zé dos Montes a 4 de Setembro de 2009 às 15:37
A GoCycle era mais barata na Alemanha, vi um site por €850 ou €950, mas já não me lembro.
Viu o programa que têm em inglaterra para quem usa bicicleta para ir para o trabalho?
A Mobiky é boa para quem tem que alternar entre vários tipos de transporte e precisa de uma bicicleta para deslocar entre eles (curtas distâncias), não é muito rápida, mas tem a vantagem de poder rodar semi-dobrada.
Entrando na politica é pena que se desenvolvam projectos (importantes) mas caros, como o carro elétrico, mas não se apoie o uso de bicicletas.
Isto http://www.ecoviasalgarve.org/ é uma fantasia!

Tiago Julião Neves a 4 de Setembro de 2009 às 16:42
Sim eu conheço o cycle to work scheme . Já tenho bicicleta aqui em Londres onde vivo, mas penso que a bicicleta eléctrica tem enormes vantagens sobretudo devido ao tamanho desta cidade e à necessidade de arrancar depressa nos semáforos.

Entre a mobiky e a dahon ou a brompton prefiro as últimas pelos motivos já expostos.

Tem-se registado um apoio crescente ao uso de bicicletas em Portugal, nomeadamente em cidades como Aveiro e Lisboa, embora ainda se esteja longe da solução ideal. Penso que a situação tem vindo a melhorar consistentemente, há uns anos atrás quando ciclava todos os dias em Lisboa a situação era bem pior.

Protocolos
comentários recentes
Ainda bem que procurei por ti na internet em geral...
A discussão sobre pagar a saúde de acordo com os r...
Espero que o José Sócrates faça um bom trabalho..
Boa tarde, gostava da vossa opinião.hoje dirigi-me...
EsclarecimentoA notícia é apenas sobre uma propost...
Venho por este meio relatar-vos uma situação que c...
Sou nova nestas andanças, da net (não em anos-57) ...
Obrigada pelos textos que nos deram a ler, a refle...
Estou de acordo com a ideia lançado por vocês impo...
Simplex , simplesmente. convido-os a visitarem o m...
já agora gostaria que observem uma iniciativa empr...
Estava a gostar deste blog...
Uma escrita muito pobre, na generalidade dos casos...
Estou numa dúvida: a oposição não foi eleita para ...
Posts mais comentados
88 comentários
50 comentários
44 comentários
43 comentários
38 comentários
36 comentários
27 comentários
25 comentários
arquivos
pesquisar neste blog
 

As imagens criadas pelo autor João Coisas apenas poderão ser utilizadas em blogues sem objectivo comercial, e desde que citada a respectiva origem.