Por João Galamba | Segunda-feira, 31 Agosto , 2009, 14:01

"Acho que as pessoas têm dificuldade em enfrentar o conflito. Todos temos, eu também tenho as minhas. Ninguém gosta. Ninguém se orienta para procurar uma guerra.  As pessoas orientam-se por determinados objectivos e por vezes no caminho encontram-se grandes dificuldades que são a resistência, a manifestação de discordância. E há muitas formas de lidar com isso, a mais fácil é desistir. E a vida é muito mais tranquila quando não se faz nada. Sobre a crítica de que é possível fazer de maneira diferente. Isso é verdade, é sempre possível, mas quem o diz nunca aponta como que faria, nunca diz qual seria a metodologia"(...) "todos os partidos estão a comprar a paz com os professores por um preço que o país não pode pagar"

 

 O Nuno Gouveia (tres)leu a entrevista da ministra da educação ao DE (entrevista online incompleta)  e acha que se trata de uma declaração de guerra. Está enganado. Maria de Lurdes Rodrigues nunca disse que o seu objectivo era a guerra com os professores. Aliás, disse exactamente o contrário. A "guerra" é uma consequência de se ter procurado introduzir transformações profundas na educação, nomeadamente a avaliação e o novo estatuto da carreira docente. Uma prova disto é que nas áreas onde não se mexia com o estatuto dos professores as medidas do actual governo mereceram o acordo das principais estruturas sindicais: "o que é facto, não posso ser injusta para a FNE, sobretudo nos períodos em que lançámos as aulas de substituição, em que encerrámos escolas, houve de facto uma vontade de apoiar medidas de política reconhecidas pelos dirigentes sindicais, como medidas importantes para o sistema educativo. Eram medidas que não afectavam o estatuto profissional dos professores, e houve uma aproximação, uma vontade de colaboração. Mas nas matérias relativas ao estatuto, tivemos muitas dificuldades de negociação". Ou seja, o PS avançou com uma agenda reformista ambiciosa — e inédita em Portugal — que só teve oposição quando mexeu com os previlégios de uma classe profissional. Importa recordar que: quando se reforma "há sempre movimentos resistência (...) a minha primeira reacção a essas afirmações é sempre perguntar em que se baseiam, quais os factos, qual a prova? (...) Por vezes é preciso fazer reformas contra determinados interesses, quando as reformas são contra interesses específicos, em defesa de outros". A paz será cara porque depende do sacrífício de toda e qualquer agenda reformista. Sejamos claros: a paz não depende de outro  modelo de avaliação; a paz depende apenas de não existir qualquer modelo de avaliação, mantendo os previlégios actuais intocados.

 

A ministra também disse que para criticar é necessário propor diferente. Mas as posições dos partidos da oposição têm variado entre o puro oportunismo político PSD e CDS) e a  total ausência de espírito reformista (BE e PCP). De uma maneira ou de outra, todos mantêm o status quo, isto é, pactuam com os interesses actualmente existentes. Ao contrário do que diz o Nuno Gouveia, não é o PS que declara guerra aos professores; é a oposição que capitula perante o interesse de uma classe, sacrificando o interesse nacional. e a possibilidade — presente e futura — de toda e qualquer agenda reformista. Olhando para o PSD, vemos  um partido que se diz reformista a  intrumentalizar o descontentamento de uma classe para obter benefícios políticos de curto prazo. Ou seja, o PSD opta (oportunisticamente) pela paz como objectivo último da sua política, independentemente dos custos a longo prazo para a educação e para o país. Em vez de propor alterações às medidas do PS, mantendo uma lógica reformista, o  PSD preferiu ficar ao lado do coorporativismo e do sindicalismo mais reaccionário da Europa. E tudo por causa de um oportunismo eleitoral irresponsável. Assim se vai sabendo o que o PSD entende por Verdade.


Porfírio Silva a 31 de Agosto de 2009 às 14:40
O caso do estatuto da carreira docente é um dos exemplos mais gritantes da coligação negativa. Mas um "não" nunca deu um programa. Pelo menos um programa que dure mais do que uma campanha. Curta (a campanha).

jrrc a 31 de Agosto de 2009 às 14:56
As palavras da verdade são simples
Eurípedes
Grécia Antiga
[-480--406]
Dramaturgo

João - professor a 31 de Agosto de 2009 às 15:34
Sou professor e vou votar no PS. Não por estar muito feliz, mas, sobretudo, porque as alternativas são assustadoras.
Tenho boa memória de quando Manuela Ferreira Leite foi ministra da educação. Como sou novo, fui dos que andou a fugir de pancada da polícia à porta de São Bento quando a MFL e seu amigo Cavaco estavam no poder. Não quero isso de volta. Na minha faculdade, a FLUL, reunia-se à porta fechada, porque havia uns senhores que queriam saber como iam ser as manifestações anti-propinas e que nos tiravam fotografias. Não quero isso de volta.
O programa do PSD é oportunista. Capitaliza uma classe que tem sido levada a votar PSD, apoiada nalguma blogosfera que se diz independente, isenta, etc.
Sabemos qual será o rumo da educação num governo PSD com Maria José Nogueira Pinto, não é? Cheque-ensino, apoio aos privados.

nec tans-ex res a 31 de Agosto de 2009 às 16:47
afinal havia guerra e eu sem nada saber, sofria..
uma frase, a da gorda da entrevista, do mais fino recorte.
que finura de trato, meu deus.
"comprar a paz com os professores"
eu diria:
paz aos professores pq o RIP já cá canta.

Hpinto a 31 de Agosto de 2009 às 16:10
Concordo no essencial. O comportamento das formações políticas em Portugal, o método de eleição do parlamento a que ninguém põe mãos à obra para mudar, a agressividade da informação, levam-me a questionar a possibilidade de se conseguirem reformas estruturais, que toquem as corporações profissionais ou económicas, mesmo com maiorias absolutas.
Hpinto

Francisco Cavaco a 31 de Agosto de 2009 às 16:28
Sou professor e não voto PS

assis a 31 de Agosto de 2009 às 17:06
já tínhamos percebido....

Joaninha a 31 de Agosto de 2009 às 18:58
Felizmente o sr Francisco Cavaco vive num país governado por José Sócrates, onde existe democracia e o sr pode fazer o que muito bem entende.
Poderia dizer o mesmo se fosse governado pelo BE, PCP ou CDS? O PSD com todos os seus males, não está ali incluido. Por enquanto, porque as purgas nos candidatados a deputados não augura nada de bom.

Francisco Cavaco a 1 de Setembro de 2009 às 01:38
O Joaninha claro que podia, e sabe pq e se não pudesse tinha que ir a luta novamente como já fiz noutras alturas em que por acaso era Militante da JS. e como outros familiares meus fizeram durante 48 anos.

António P. a 31 de Agosto de 2009 às 16:42
Excelente post, João Galamba.
Já fiz um link lá na minha tasca. Espero que não se impoirte.
Cumprimentos

aires bustorff a 31 de Agosto de 2009 às 16:47
eu sou fã desta ministra,

independnetemente de poder achar que ela deve ser substituida

por quem possa fazer avançar mais o seu projecto,

esbatendo resistencias inevitaveis do impulso que Maria de Lourdes lhe deu...

Esta entervista, pelos bocados que li, é notável de bom senso e pedagogia de exercicio de poder reformador num certo contexto.

Obrigado Ministra

Joaquim Amado Lopes a 31 de Agosto de 2009 às 17:36
A ministra diz:
"a paz depende apenas de não existir qualquer modelo de avaliação, mantendo os previlégios actuais intocados."

O João Galamba diz:
"Ou seja, o PSD opta (oportunisticamente) pela paz como objectivo último da sua política, independentemente dos custos a longo prazo para a educação e para o país."

O PSD diz:
"Afirmaremos a necessidade da existência de um processo de avaliação dos professores e da sua diferenciação segundo critérios de mérito.
Suspenderemos, porém, o actual modelo de avaliação dos professores, substituindo-o por outro que, tendo em conta os estudos já efectuados por organizações internacionais, garanta que os avaliadores sejam reconhecidos pelas suas capacidades científicas e pedagógicas, com classificações diferenciadas tendo por critério o mérito, e dispensando burocracias e formalismos inúteis no processo de avaliação."
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A ministra diz: <BR><I>"a paz depende apenas de não existir qualquer modelo de avaliação, mantendo os previlégios actuais intocados."</I> <BR><BR>O João Galamba diz: <BR><I>"Ou seja, o PSD opta (oportunisticamente) pela paz como objectivo último da sua política, independentemente dos custos a longo prazo para a educação e para o país."</I> <BR><BR>O PSD diz: <BR><I>"<B>Afirmaremos a necessidade da existência de um processo de avaliação dos professores e da sua diferenciação segundo critérios de mérito.</B> <BR><B>Suspenderemos</B>, porém, <B>o actual modelo de avaliação dos professores, substituindo-o por outro que</B>, tendo em conta os estudos já efectuados por organizações internacionais, <B>garanta que os avaliadores sejam reconhecidos pelas suas capacidades científicas e pedagógicas, com classificações diferenciadas tendo por critério o mérito</B>, e dispensando burocracias e formalismos inúteis no processo de avaliação."</I> <BR class=incorrect name="incorrect" <a>pág</A> 22 do programa eleitoral do PSD) <BR>

BO a 31 de Agosto de 2009 às 17:59
"todos os partidos estão a comprar a paz com os professores por um preço que o país não pode pagar." (MLR)

MLR/Sócrates compraram uma guerra com os professores, por um preço muito mais alto para o país.


Anónimo a 31 de Agosto de 2009 às 18:21

Sou professora, não voto PS!

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